Mercado de fertilizantes atrasa ritmo, e demanda final ainda é incerta

Mosaic aponta atraso nas compras, custos recordes do enxofre e redução da produção em meio a tensões geopolíticas

Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
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A comercialização de fertilizantes no Brasil acumula atraso de cerca de 7 milhões de toneladas em relação ao mesmo período do ano passado, segundo estimativas apresentadas pela Mosaic. O movimento ocorre em um contexto de forte alta dos custos de matérias-primas, especialmente do enxofre, e de incertezas geopolíticas que afetam a cadeia global de suprimentos.

Ao mesmo tempo, a companhia decidiu interromper operações em unidades no Brasil e nos Estados Unidos diante do desequilíbrio econômico entre os custos de produção e os preços praticados no mercado de fertilizantes.

Nesta época do ano passado, cerca de 32 milhões de toneladas de fertilizantes já haviam sido entregues, enquanto neste ano o volume está em aproximadamente 25 milhões de toneladas, disse Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic, em evento promovido pelo Brazil Journal e The Agribiz nesta terça-feira (9).

“A pergunta que vem é: o mercado vai reduzir 7 milhões? Não sabemos”, disse. Segundo ele, parte dos produtores adiou as decisões de compra após perder o momento considerado mais favorável para aquisição dos insumos.

Monteiro destacou que ainda há espaço para recuperação da demanda nos próximos meses, já que, em algumas regiões do país, as compras para a safra de verão podem ocorrer até julho, agosto e, em determinados casos, até setembro.

Além do atraso nas negociações, a oferta também apresenta sinais de restrição. Dados citados pelo executivo apontam queda de aproximadamente 10% nas importações de fertilizantes fosfatados e de 12% nas de nitrogenados. O executivo ressaltou, porém, que a situação do fósforo é mais crítica.

O cenário é agravado pela escalada dos custos de produção. Um dos principais fatores é a valorização do enxofre, insumo essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados. Segundo Monteiro, o produto era negociado em torno de US$ 500 por tonelada antes do início do conflito no Oriente Médio e, atualmente, alcança cerca de US$ 1.250 por tonelada.

As tensões geopolíticas também têm ampliado as dificuldades logísticas e de abastecimento. Monteiro citou os impactos dos conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, além da recente decisão da Rússia de restringir o trânsito de enxofre proveniente do Cazaquistão.

"Imagine o que é você estar 11 semanas com os fluxos logísticos interrompidos e os preços subindo, com a matéria-prima cada vez mais restrita", disse.

Segundo ele, Rússia e Cazaquistão respondem juntos por cerca de 15% da produção mundial de enxofre. A restrição ao transporte do produto aumentou a pressão sobre os fabricantes de fertilizantes fosfatados, que, em alguns casos, enfrentam custos de produção superiores aos preços de venda do produto final.

Nesse contexto, a Mosaic anunciou paralisações em suas operações. A empresa já interrompeu atividades em cinco unidades, incluindo duas parcialmente nos Estados Unidos, localizadas em Baton Rouge e Louisiana.

No Brasil, a companhia encerrou de forma permanente as operações da unidade de Araxá (MG), colocada à venda, e suspendeu temporariamente as atividades dos complexos de Tapira (MG) e Catalão (GO).

Segundo Monteiro, as paralisações temporárias estão diretamente relacionadas ao aumento do custo do enxofre e à dificuldade de repassar essa alta aos preços dos fertilizantes.

"O que a gente tem controle é efetivamente a gestão dos nossos custos, a segurança e a forma como interagimos com os clientes", afirmou.

A empresa também participa de discussões com entidades do setor e órgãos do governo federal em busca de medidas para apoiar a produção nacional de fertilizantes fosfatados. Entre as propostas em debate está a criação de mecanismos temporários de suporte para a cadeia do enxofre. De acordo com o executivo, a indústria defende a adoção de subsídios temporários para o insumo, em modelo semelhante ao já existente para o diesel.

Apesar das dificuldades, Monteiro afirmou que ainda não é possível determinar se haverá escassez de fertilizantes no mercado brasileiro. Segundo ele, a combinação entre possível redução da demanda e diminuição da oferta torna difícil prever o equilíbrio do mercado nos próximos meses.

"O debate hoje é se faltará fertilizante em função da guerra ou se a redução potencial da demanda poderá funcionar como um ponto de equilíbrio", disse.

Para o executivo, os meses de agosto e setembro tendem a concentrar os principais gargalos logísticos e de abastecimento. 

Diante desse cenário, "a palavra que predomina dentro desse mercado hoje é incerteza", afirmou.

https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/gabriella-weiss/agro/por-que-o-brasil-precisa-importar-fertilizantes/