Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem mestrado pela Université de Paris.

Cacau cai, mas crise ainda pesa na indústria do chocolate

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À medida que a indústria de chocolates se prepara para as vendas de Páscoa, período de maior demanda do ano, o mercado global de cacau entra em 2026 com um cenário bastante diferente do observado nos últimos dois anos.  

Os contratos internacionais de cacau chegaram a ultrapassar US$ 11 mil por tonelada em abril de 2024, um recorde. Mesmo depois disso, os preços permaneceram elevados por um longo período, acima de US$ 6.700 por tonelada até setembro de 2025. Mais recentemente, a commodity recuou para pouco mais de US$ 3 mil por tonelada no fim de fevereiro. 

Ainda assim, especialistas e empresas do setor afirmam que a queda não resolve, por si só, os desafios enfrentados pela indústria, que ainda sente os efeitos do choque de preços. A produção de chocolates para a páscoa em grandes empresas se iniciou no segundo semestre, e ainda não refletem integralmente a queda dos custos da matéria-prima.  

O movimento que levou o cacau a patamares históricos começou em 2023 e resultou de uma combinação de fatores climáticos, problemas estruturais de produção e restrições de oferta. 

De acordo com Rafael Borges, analista de cacau da StoneX, o mercado inicia 2026 com um ambiente de incertezas. 

A escalada de preços começou a ser precificada no mercado ainda em 2023, quando o fenômeno climático El Niño trouxe condições mais secas e quentes para regiões-chave produtoras, como Costa do Marfim e Gana, responsáveis pela maior parte da produção mundial. 

O clima adverso agravou problemas estruturais que já vinham afetando o setor. Entre eles estão o envelhecimento das plantações, uma vez que árvores de cacau tendem a perder produtividade após cerca de 30 anos, a incidência de doenças virais e o baixo nível histórico de investimentos em renovação das lavouras na África Ocidental. Esse conjunto de fatores resultou em um déficit no balanço global da commodity. 

Segundo Borges, o mercado chegou a registrar uma escassez próxima de 500 mil toneladas em um setor que historicamente produz cerca de 5 milhões de toneladas por ano. Como consequência, os preços saíram de níveis considerados tradicionais, entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por tonelada, para mais de US$ 11 mil. 

Demanda reagiu com queda 

O aumento sem precedentes do custo da matéria-prima teve impacto direto na indústria de chocolates e derivados. Em muitos casos, as empresas reduziram produção ou ajustaram portfólios. 

Um dos indicadores usados pelo mercado para medir o consumption de cacau é a moagem da amêndoa pelas indústrias processadoras. Globalmente, esse indicador passou a cair a partir de 2023. 

No Brasil, os números seguem a mesma tendência. Segundo a AIPC (Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau), a moagem no país somou 195,8 mil toneladas em 2025, queda de 14,6% em relação ao ano anterior. 

O volume comercializado de derivados de cacau caiu ainda mais, 18,4%, totalizando 144,9 mil toneladas, indicando retração na demanda interna, segundo a AIPC. 

Diversificação de produtores 

Se a redução do consumo ajudou a aliviar a pressão sobre os preços, o lado da oferta também começou a reagir. 

Segundo a StoneX, o Oeste Africano apresenta sinais de clima mais favorável para a safra 2025/26. Ao mesmo tempo, novos produtores ganharam espaço no mercado. O principal exemplo é o Equador. O país registrou exportação recorde de 568 mil toneladas na última safra e projeta embarques de 600 mil toneladas em 2025/26. 

Esse movimento é parte de uma resposta global aos preços elevados. Investimentos em cultivo aumentaram em diversos países, como Brasil, Equador e Peru.  

No entanto, a expansão da produção de cacau tem um ciclo lento. “A gente está vendo um cenário em que os cultivares estão respondendo ao maior investimento em cultivo, fertilização, manejo. Players expressivos, como o próprio Brasil, estão vendo mais investimentos no setor. Mas é claro que o avanço em área, no cultivo do cacau, ele demora um pouco para responder. As mudas mais recentes vão demorar pelo menos 3 até 4 anos para começar a produzir de maneira mais relevante”, pontuou Borges. 

Superávit global

Ainda assim, os analistas avaliam que a oferta já cresce mais rapidamente que a demanda. Com isso, o mercado global caminha para superávits de produção nos próximos ciclos, o que tende a manter os preços em trajetória mais moderada, pontuou Borges.  

As estimativas indicam que a relação entre estoques e demanda, que chegou a cerca de 26% na safra 2023/24, uma mínima em décadas, pode subir para perto de 39% em 2026/27, aproximando-se da média histórica. 

Queda do preço não resolve tudo 

Mesmo com a recente redução da commodity, executivos da indústria afirmam que o impacto financeiro do ciclo de alta ainda persiste. 

O CEO da Cacau Show, Alexandre Costa, afirmou à CNN que 2025 foi um dos anos mais difíceis para o setor e a companhia.  Tivemos o pior resultado dos últimos dez anos em termos de lucratividade por conta do aumento absurdo do preço do cacau. Os custos de produção chegaram a ser seis vezes mais caros pela nossa principal matéria-prima”, disse. Para enfrentar a pressão de custos, a empresa investiu em eficiência industrial e tecnologia para elevar a produtividade. “2026 é um ano de recuperar a margem.  

 

“A gente não deve voltar para a margem histórica, certamente não, porque, apesar de serem custos muito melhores que no ano passado, ainda são mais elevados que na média histórica. No ano, temos a expectation de crescer perto de 20%”, disse. 

Já a indústria global também registrou impactos nos balanços. A Mondelez, por exemplo, teve queda de 10,7% na margem-bruta e uma queda superior a US$ 3 bilhões no lucro bruto, afetada principalmente por custos mais elevados de matérias-primas, incluindo o cacau, informou em sua divulgação de resultados financeiros.  

A Nestlé, outro grande player, registrou queda de 1,1% na margem bruta, pressionada pela alta do cacau e do café. 

Entre as estratégias adotadas pelas companhias estão programas de eficiência, aumento de preços, hedge para proteger custos e diversificação das origens do cacau, ampliando compras em países como Brasil e Equador através de parcerias com produtores e institutos de pesquisas. 

Estratégias para reduzir dependência 

Algumas empresas também buscam ampliar o controle sobre a produção da matéria-prima. 

A Cacau Show, por exemplo, tem investido em plantio próprio de cacau. Segundo Costa, a companhia pretende atingir a autossuficiência na produção em um prazo de cinco a sete anos, com investimento de R$ 1 bilhão até 2034 para plantar sete milhões de pés de cacau 

Atualmente, a empresa possui três fazendas, responsáveis por cerca de 5% da demanda interna de cacau da companhia. Os investimentos estão concentrados principalmente na Bahia, no norte do Espírito Santo e no Pará. 

Potencial e desafios no Brasil 

O Brasil também aparece como um dos países com potencial de expansão da produção nos próximos anos. Segundo estimativas da StoneX, o país poderia voltar a produzir entre 300 mil e 400 mil toneladas até 2030, após décadas marcadas por perdas causadas por doenças como a vassoura-de-bruxa. 

No curto prazo, no entanto, há desafios. O clima recente afetou parte da produção na Bahia e no Pará, e a rentabilidade para pequenos produtores permanece pressionada. 

Relatos de agricultores indicam que o preço atual da commodity nem sempre cobre os custos de novos projetos de plantio em larga escala. Segundo estimativas citadas pela agência Reuters, cerca de metade dos projetos brasileiros de cultivo industrial pode ser cancelada por questões de viabilidade econômica.

 

 

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