Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem especialização pela Université de Paris.

Moagem de cacau indica recuperação tímida da demanda global após choque

Agentes do mercado enxergam que o consumo nas economias tradicionais continua pressionado pelos elevados preços das matérias-primas do chocolate

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Os dados trimestrais de moagem de cacau divulgados nesta quinta-feira (16) reforçam que a recuperação da demanda global pela commodity ainda ocorre em ritmos diferentes entre as principais regiões consumidoras. A demanda começa a reagir após a crise de oferta de 2024, mas ainda sem força suficiente para sustentar uma retomada uniforme.

A Europa confirmou mais um trimestre de retração no processamento, caindo 4,6%, mesmo com a alta superior a 10% na Ásia e de 7,65% na América do Norte. 

Apesar do desempenho considerado positivo, o mercado continua atribuindo maior peso ao resultado europeu, já que a região responde pelo maior volume de processamento de cacau do mundo, cerca de três vezes o da América do Norte. E agentes do mercado enxergam que o consumo nas economias tradicionais continua pressionado pelos elevados preços das matérias-primas do chocolate. 

A moagem é considerada o principal indicador da demanda por cacau porque mede o volume de amêndoas transformadas em manteiga, pó e outros derivados utilizados pela indústria de chocolates. Como não existe um acompanhamento consolidado do consumo desses subprodutos, o processamento funciona como o principal termômetro da atividade da cadeia e influencia diretamente as expectativas para os preços internacionais da commodity.

Segundo Lucca Bezzon, analista de cacau da StoneX, a diferença entre os resultados regionais reflete o processo ainda incompleto de ajuste da indústria após o choque de oferta registrado no mercado de cacau em 2024, quando a tonelada chegou a patamares superiores a US$ 10 mil por tonelada. A disparada dos preços das amêndoas elevou os custos dos derivados utilizados na fabricação de chocolate e levou empresas a reverem formulações para reduzir despesas.

"Os preços desses subprodutos passaram a ficar insustentáveis diante de uma amêndoa que ficou muito cara. Então, nos últimos dois a três ciclos, a gente teve uma desaceleração dos dados de moagem", afirma.

Até então, o mercado observava um comportamento diferente. Antes da crise, a moagem global crescia em torno de 3% ao ano, acompanhando a expansão do consumo de chocolate. A sequência de quedas registrada nos últimos ciclos marcou uma mudança pouco comum para um setor historicamente caracterizado por crescimento relativamente estável.

Agora, os números começam a apontar uma recuperação, mas ainda sem um padrão consistente. "Os dados que saíram ontem mostraram uma recuperação em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, mas recuaram em relação ao trimestre imediatamente anterior. Então a gente não está vendo aumentos consecutivos trimestre a trimestre", disse Bezzon.

Na avaliação da StoneX, essa recuperação mais lenta está ligada às mudanças implementadas pela indústria durante o período de custos elevados. Fabricantes reduziram o tamanho das barras, reformularam receitas e diminuíram o uso da manteiga de cacau — principal ingrediente responsável pela textura e pelas características do chocolate — para limitar o impacto da alta de preços.

O retorno a essas formulações também tende a ser gradual. Isso porque as empresas precisam ter segurança de que a redução dos custos será duradoura antes de voltar a ampliar o uso de manteiga de cacau.

"A gente precisaria ver, por exemplo, um cenário de preços de manteiga baixos o suficiente por bastante tempo, para aí sim a gente começar a ver uma retomada mais confiável do uso da manteiga", disse.

Outro fator observado pelo mercado é a relação entre os preços da manteiga de cacau e do óleo de palmiste, um dos principais substitutos utilizados pela indústria. Antes da crise, a manteiga costumava valer cerca de duas vezes e meia o preço do óleo. No auge do choque de oferta, essa relação chegou a aproximadamente 21 vezes, tornando economicamente viável a substituição em diferentes produtos.

Embora essa diferença tenha voltado para patamares próximos da média histórica ao longo deste ano, isso ainda não significa uma retomada imediata da demanda. Segundo Bezzon, há uma defasagem entre a queda dos preços internacionais e seu impacto efetivo sobre a indústria de chocolates, já que contratos futuros, estoques e o próprio processamento fazem com que esse movimento leve, em média, entre oito e doze meses para chegar ao custo das fabricantes.

Os números divulgados ontem são vistos pela StoneX como um sinal de que esse processo de recuperação começou, ainda que lentamente. Para o ciclo atual, encerrado em outubro, a consultoria projeta uma demanda praticamente estável em relação ao ano anterior, em torno de 4,6 milhões de toneladas — uma base já inferior ao padrão histórico de aproximadamente 5 milhões de toneladas. Para o próximo ciclo, a expectativa é de crescimento de 2,4%.

Na avaliação do mercado, esse cenário tende a favorecer uma leitura de estabilização dos preços internacionais. Depois de um período em que a destruição de demanda contribuiu para aliviar a pressão sobre as cotações, a recuperação gradual do processamento indica que o consumo começa a reagir. Ao mesmo tempo, a heterogeneidade entre as regiões mostra que a normalização da demanda ainda depende da recomposição do consumo nas economias tradicionais e da adaptação da indústria ao novo patamar de custos.