Análise: O mundo depois das tarifas de Trump
Dois anos é tempo suficiente para países pararem de tratar a imprevisibilidade tarifária americana como uma anomalia passageira e começar a tratá-la como um dado estrutural do sistema

A ONU estimou o custo da guerra comercial em US$ 450,1 bilhões, com uma perda média de renda familiar americana de US$ 2,7 mil só em 2025, e o impacto três vezes maior, proporcionalmente, sobre as famílias da base da pirâmide do que sobre o topo.
O Laboratório de Orçamento de Yale calculou que os consumidores americanos passaram a enfrentar uma tarifa efetiva média de 18,6% sobre tudo o que consomem, a maior desde 1933, ano da Lei Smoot-Hawley, o símbolo histórico do protecionismo que aprofundou a Grande Depressão.
Em 2025, a arrecadação tarifária dos EUA saltou quase 200% em relação a 2024, para US$ 187 bilhões a mais nos cofres do Tesouro. No início, cerca de 80% desse custo foi absorvido pelas próprias empresas importadoras, que seguraram os preços. Mas o JPMorgan já projetava que essa fatia cairia para 20% em 2026, ou seja, a inflação represada estava prestes a estourar no bolso do consumidor americano.
O Goldman Sachs calculou meio ponto percentual a mais de inflação em 2025 só por causa das tarifas, e o próprio ex-presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, atribuiu a elas a totalidade do desvio da inflação em relação à meta de 2%.
E o Brasil está bem no meio dessa engrenagem. A tarifa recíproca original de 10% foi derrubada junto com a decisão da Suprema Corte. Mas em 22 de julho entrou em vigor uma sobretaxa de 25% via Seção 301, alegando concorrência desleal. Dois dias depois, mais 12,5% pela questão do trabalho forçado.
Resultado, segundo a Amcham Brasil: cerca de 3 mil produtos brasileiros, US$ 12,5 bilhões em exportações anuais, dos quais US$ 10,7 bilhões (85,3%) passam a enfrentar uma tarifa acumulada de 37,5%, um dos níveis mais altos já aplicados pelos EUA a qualquer parceiro comercial.
Se a guerra tarifária já bastasse para desenhar um novo mapa do comércio mundial, o Oriente Médio se encarregou de lembrar que geopolítica e economia nunca estiveram, de fato, em salas separadas.
Em junho de 2025, o conflito entre Israel e Irã escalou para ataques diretos a instalações nucleares iranianas, com os Estados Unidos entrando ao lado de Israel. Um cessar-fogo em 24 de junho daquele ano pareceu encerrar o capítulo mais agudo. Não encerrou.
No fim de fevereiro de 2026, novos ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã reabriram a ferida e, dessa vez, o Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz, a passagem por onde circula cerca de um quinto de todo o petróleo e do GNL negociado no planeta.
O resultado nos mercados de energia foi imediato: o petróleo Brent subiu 60% em março de 2026, o maior salto mensal já registrado.
Mesmo com o Irã liberando parcialmente a passagem de navios sem vínculo com EUA ou Israel, o "efeito gênio fora da garrafa" na expressão de analistas do Chatham House ficou instalado: o mundo aprendeu que Ormuz pode ser fechado, e que pode ser fechado de novo.
O que isso tem a ver com as tarifas? Tudo. Os dois choques: comercial e energético, aconteceram no mesmo espaço de tempo e se retroalimentam: tarifas turbinando inflação de bens, Ormuz turbinando inflação de energia.
Some-se a isso a fragilidade jurídica das tarifas americanas, indo de uma base legal para outra, e o que se tem não é um evento isolado, mas um período em que a imprevisibilidade deixou de ser exceção e passou a ser a normalidade operacional do comércio internacional.
Some as datas e chega-se a um horizonte concreto. O tarifaço nasceu em abril de 2025. As eleições de meio de mandato acontecem em novembro de 2026, o primeiro teste eleitoral real da política tarifária de Trump, justamente o motivo pelo qual o Congresso não tinha nenhum interesse político em estender a Seção 122 antes desse prazo.
Some-se o tempo natural de maturação das investigações da Seção 301, cada uma nasce, se transforma em tarifa permanente e só então começa a gerar jurisprudência e resposta diplomática e o quadro que se desenha é de praticamente dois anos de convivência com essa arquitetura tarifária mutante, até que o sistema político americano e os parceiros comerciais consigam, de fato, se reorganizar em torno dela.
Dois anos não é pouco tempo para uma cadeia produtiva global se readaptar. É tempo suficiente para remodelar rotas logísticas, para gatilhos de nearshoring virarem fato consumado, para acordos bilaterais alternativos amadurecerem e, mais importante, para que o resto do mundo pare de tratar a imprevisibilidade tarifária americana como uma anomalia passageira e comece a tratá-la como um dado estrutural do sistema.
O que fica depois que Trump for embora
Aqui está o ponto que, a meu ver, ainda é subestimado pelo mercado: o legado mais duradouro da era Trump não vai ser a tarifa em si. Tarifas se negociam, se revertem, se substituem, o próprio noticiário de sexta-feira (24) é prova viva disso.
O legado duradouro vai ser a arquitetura de defesa que o resto do mundo está construindo, silenciosamente, contra a possibilidade de que isso se repita.
Chamo isso de blindagem contra o excepcionalismo americano à ideia, enraizada há décadas na política externa dos EUA, de que as regras do sistema multilateral (OMC, Bretton Woods, o dólar como moeda de reserva) valem para todos, menos para quem as desenhou.
Durante décadas, o resto do planeta aceitou esse arranjo porque o custo de contestá-lo era maior do que o de conviver com ele. A era Trump 2.0 tornou esse custo explícito, mensurável, recorrente e por isso mesmo, pela primeira vez em muito tempo, politicamente rentável de combater.
Os sinais dessa blindagem já aparecem:
- União Europeia discutindo estender missões navais próprias para proteger rotas energéticas que não dependem mais só da guarda-chuva americana;
- Blocos comerciais buscando cláusulas de "força maior tarifária" em contratos de longo prazo;
- Países redesenhando cadeias de suprimento para reduzir a dependência de um único mercado consumidor;
- e, no caso específico do Brasil, a pressão crescente, inclusive dentro do Congresso Nacional, para reforçar instrumentos internos, como a própria Lista Suja do trabalho escravo, não apenas por convicção ética, mas como resposta estratégica a um USTR que usa exatamente esse argumento para taxar exportações brasileiras.
Não é de-dolarização da noite para o dia, nem ruptura com os Estados Unidos. É outra coisa, mais lenta e mais permanente: um mundo que aprendeu, entre 2025 e 2027, que depender de uma única jurisdição para decidir as regras do comércio é um risco que precisa ser precificado e gerido como qualquer outro.
Quando a poeira da era Trump baixar, a pergunta que vai definir a próxima década não será "quanto foi a tarifa". Vai ser: quem construiu, a tempo, as defesas para não precisar perguntar isso de novo.



