Inflação de alimentos com 'custo guerra' expõe fragilidade fiscal do agro
A conexão entre o cenário macro, o impacto no bolso do consumidor e no do produtor se explicam, em grande parte, no aperto financeiro que o agricultor vem enfrentando

As águas de março fecharam o verão e deixaram resquícios na macroeconomia: inflação de alimentos desacelerada, mas ainda em patamares que a sustentam como um fantasma inflacionário para 2026. Além disso, no campo, os custos de produção aumentam com a guerra e com os valores embutidos nos insumos necessários para o desenvolvimento agropecuário. O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) avançou 0,61% em março, invertendo o movimento quando comparado à taxa de fevereiro, de recuo de 1,18%.
O dado do agro puxou a alta geral do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), em 0,52% em março. “Nesta edição do IGP-M, o IPA mantém-se sob forte influência da agropecuária, com destaque para as contribuições de bovinos, ovos, leite, feijão e milho, que ajudaram a impulsionar a aceleração do índice. Ao mesmo tempo, o agravamento do cenário geopolítico no Oriente Médio já se reflete nos preços de derivados de petróleo, indicando a disseminação dessas pressões para outros segmentos", detalhou Matheus Dias, economista do FGV IBRE.
A conexão entre o cenário macro, o impacto no bolso do consumidor e no do produtor se explicam, em grande parte, no aperto financeiro que o agricultor vem enfrentando. O crédito a juro alto e o nível de endividamento se repetem como justificativas para a desaceleração do setor desde o ano passado.
"Hoje, o crédito no agro está extremamente mais caro e muito mais restrito, devido a uma série de fatores que já pontuamos no texto. O índice de inadimplência no agro em 2025 bateu quase 11,5%, então os bancos estão muito mais restritivos e o custo do financiamento está mais alto", explica Wolney Arruda, presidente da Plantae Agrocrédito.
Com isso, há também o risco fiscal do Brasil, que não permite uma queda mais significativa da taxa Selic. Uma coisa acaba puxando a outra, e isso se reflete diretamente na inflação dos alimentos. "Porque, se o produtor está produzindo com um custo bem mais alto, seja pela taxa de juros ou pelo custo de produção, e ainda com maiores exigências de garantias por parte dos bancos, ele terá uma safra muito mais cara e, consequentemente, venderá seu produto com um preço mais alto", acrescenta Arruda, em entrevista ao blog.
Se antes da guerra, o cenário já era desafiador, agora, há mais complexidade. A leitura do mercado para os próximos dados da inflação é de que haverá aumentos na energia e nos custos de fertilizantes, recaindo sobre alimentos. Isso reduz o espaço para cortes mais acelerados na taxa de juros e mais tempo com crédito rural restritivo.
Efeitos nos próximos meses é de potencial maior custo de equalização das taxas subsidiadas do Plano Safra, pressionando ainda mais as contas públicas. "Como consequência, cresce a probabilidade de produtores migrarem para linhas de crédito livre, indexadas ao CDI, diretamente influenciado pela taxa básica de juros", frisa Arruda.
Ainda tem a equação oferta e demanda para mexer com a pauta fiscal e com a inflação. Todas as variáveis de produção devem permanecer mais caras e, consequentemente, os preços finais pagos pelo produtor e pelo consumidor também. Em ano de eleição, o fato vira uma bomba relógio entre situação e oposição. E o cenário não é novo, só trocou de variáveis e de intensidade orquestrada por uma remodelação de nova ordem comercial internacional.
"O Brasil entra em um ciclo eleitoral com déficit público elevado, o que limita a capacidade do governo de expandir subsídios sem comprometer ainda mais a percepção de risco", afirma o executivo da Plantae.
Analistas consultados pelo blog salientam que o pano de fundo da dinâmica é a política fiscal expansionista que funciona como calo no sapato do governo e como argumento para pressão sobre as decisões futuras da política monetária.
"Para o produtor rural, o impacto é direto e multifatorial: crédito mais caro, insumos pressionados e maior incerteza sobre políticas públicas. Ainda que o governo possa ampliar recursos do Plano Safra em função do calendário eleitoral, o custo dessa expansão tende a ser mais elevado, reforçando um ciclo em que política fiscal e monetária operam em tensão", opina Arruda.



