Isadora Camargo
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Isadora Camargo

É âncora do CNN Agro News. Jornalista há 15 anos em economia e negócios, é doutora pela USP e pela Universidade de Navarra; passou por Valor Econômico e Agência EFE.

Turquia é maior cliente do café brasileiro no Oriente Médio e dribla guerra

Apesar do ritmo de exportações ter caído entre fevereiro e março, alguns países da região em conflito seguem fieis ao cafezinho do Brasil

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Todos países do Oriente Médio importam café do Brasil, ainda que o volume mude de nação para nação, indo de centenas a milhares de sacas. Com a guerra na região, entretanto, o movimento se alterou. Dados compilados pelo Cecafé a pedido do CNN Agro mostram que as exportações brasileiras do grão perderam fôlego entre fevereiro e março de 2026, em um movimento que coincide com a escalada do conflito envolvendo o Irã. Os países que têm rotas alternativas conseguiram manter as importações em alta, como a Turquia, a Jordânia e o Líbano.

De forma geral, os embarques vinham em trajetória relativamente estável no início do ano, com janeiro abrindo o período e fevereiro mantendo ou ampliando volumes para parte relevante dos destinos. Em alguns casos, os volumes mensais giravam na casa de dezenas de milhares de sacas, com receitas de alguns milhões de dólares por mercado. No entanto, março marca uma inflexão: a maioria dos países da região reduz compras, tanto em volume quanto em valor.

O movimento é mais perceptível em destinos tradicionalmente relevantes, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito, que concentram parte significativa das compras brasileiras. Nesses mercados, os dados indicam que embarques que vinham, por exemplo, na faixa de 20 mil a 40 mil sacas em fevereiro recuam de forma relevante em março, com queda também na receita cambial — em alguns casos, de milhões de dólares entre um mês e outro. Além da guerra, há o efeito sazonal.

Nos três primeiros meses do ano, entre os 15 países que compreendem o Oriente Médio, a Turquia foi o maior comprador de café verde do Brasil. Os dados do Cecafé mostram um movimento distinto em relação às outras nações. Em janeiro de 2026, o Brasil embarcou 102,7 mil sacas de 60 kg, gerando US$ 42,5 milhões em receita. Em fevereiro, houve leve alta para 111,3 mil sacas e US$ 42,7 milhões. Já em março, os embarques aceleraram de forma mais significativa, alcançando 157,5 mil sacas, com receita de US$ 61,4 milhões, indicando aumento tanto em volume quanto em valor mesmo em meio ao ambiente de maior instabilidade na região.

No Líbano, os dados do Cecafé mostram um salto expressivo das importações entre janeiro e fevereiro, seguido de acomodação em março. Em janeiro de 2026, o Brasil embarcou 7,1 mil sacas de 60 kg, com receita de US$ 2,5 milhões. Em fevereiro, houve forte avanço para 34,3 mil sacas e US$ 12 milhões, refletindo recomposição de estoques ou antecipação de compras. Já em março, os embarques ficaram praticamente estáveis em volume, com 33,5 mil sacas, mas com leve recuo na receita, para US$ 11,6 milhões, indicando uma estabilização após o pico do mês anterior, mesmo em meio ao ambiente mais incerto na região.

Outro ponto relevante é que a queda não se limita ao volume embarcado, mas também aparece no valor gerado, indicando que o efeito não é apenas de quantidade, mas também de condições comerciais — seja por renegociação de contratos, adiamento de compras ou maior seletividade dos importadores.

Se o cenário de instabilidade persistir, a tendência é de manutenção desse ritmo mais fraco nos embarques no curto prazo, com possível recomposição apenas quando houver maior previsibilidade nas rotas e nos custos de comércio, apontam analistas do segmento e o próprio Cecafé no último boletim de exportações.