Análise: Tarcísio e Haddad debatem SP sob sombra nacional – de 2026 e 2030
Candidatos citaram dados sobre segurança e educação no estado, mas também buscaram governos Lula e Bolsonaro para troca de críticas e expuseram visões divergentes sobre o país

No primeiro debate de 2026 entre Tarcísio de Freitas (Republicano), governador de São Paulo candidato à reeleição, e Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda, que volta a concorrer ao Palácio dos Bandeirantes, segurança pública, qualidade da educação, serviços concessionados de saneamento e transportes foram temas colocados.
Mas a sombra da polarização nacional se fez presente ao longo das mais de duas horas de debate, tanto nas entrelinhas de provocações quanto em menções diretas e explícitas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Como já fazia quando ministro, Haddad voltou a cobrar gratidão de Tarcísio em relação a Lula em projetos como o túnel Santos-Guarujá. O governador apontou “falso republicanismo” dos petistas e não titubeou, na primeira menção a Bolsonaro feita em tom de provocação pelo adversário, ao mandar um abraço e dizer que sempre será grato ao ex-presidente.
Em meio a questões sobre o desempenho da educação pública em São Paulo, a Cracolândia no centro da capital paulista ou a privatização da Sabesp, Tarcísio e Haddad também expuseram visões de mundo e da atual conjuntura nacional bastante divergentes.
Não que se esperasse algo diferente, mas é digno de nota – e de elogio – a forma como esse debate se travou: ambos buscaram respaldo em dados, argumentações políticas e contestações e críticas acima da linha da cintura.
Foi curioso como um dos primeiros momentos de maior embate entre Tarcísio e Haddad se deu em um tema árido e distante do dia a dia do eleitor, como as negociações entre governo federal e estadual relacionada à dívida pública.
Mesmo nos momentos de maior tensão, como quando Tarcísio citou a presença de Haddad em um palco no qual também estava uma mulher ligada ao tráfico de drogas, o petista soltou um “baixa essa bola”, mas a poeira de fato logo assentou de ambas as partes. Para quem viu cadeirada, agressão e xingamentos no nível da disputa paulistana em 2024, o debate deste domingo não fez corar nenhum pai de família em pleno Dia dos Pais.
A disputa deste ano, por ação dos próprios candidatos e respectivos aliados, mas também por fragilidade de outros partidos, tornou-se uma revanche do segundo turno de 2022. Tarcísio conseguiu dobrar as siglas aliadas em comparação a quatro anos, herdando de vez o espólio do PSDB paulista, enquanto Haddad repete a união dos partidos de esquerda (PSB, PSOL/Rede) acrescida do PDT, a exemplo de Lula.
Mais do que repetir o que se viu em outubro de 2022, os confrontos de ideias e visões de mundo em São Paulo refletem parte da polarização política nacional dos últimos anos, entre Lula, provavelmente em sua última disputa presidencial como candidato, e os Bolsonaros, que veem 2026 como a sobrevivência política do clã. Inevitavelmente, Tarcísio e Haddad ensaiam hoje o que muitos de seus apoiadores e admiradores esperam ver em 2030, para que coloquem as grandes questões do Brasil não nas entrelinhas, mas como a pauta prioritária.



