Eleitores de Lula põem segurança como maior desafio da esquerda, diz estudo
Pesquisa qualitativa com quem votou no petista em 2022 também detecta como questões atualizar visão sobre empreendedorismo, trabalho e renovação política

Eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022 apontam a segurança pública como principal desafio da esquerda no Brasil, demandam mais ações relacionadas ao meio ambiente, reconhecem como positivas políticas voltadas à educação e ao microempreendedor, mas cobram atualização da visão sobre o mercado de trabalho e construção de novas lideranças que possam ocupar o espaço do atual mandatário.
Todos esses achados constam de uma pesquisa qualitativa realizada pelo Núcleo Ypykuéra, uma associação sem fins lucrativos formada por acadêmicos e ativistas sociais, e pelo Observatório Político e Eleitoral (Opel), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Os pesquisadores reuniram eleitores de Lula em 2022 em grupos focais presenciais, entre agosto e setembro deste ano, em nove capitais: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. As respostas resultaram em um relatório batizado de Retratos do Progressismo no Brasil.
Foram convocados tanto quem votou no petista nos dois turnos – eleitores considerados mais aderentes ao campo da esquerda – quanto quem optou pelo atual presidente apenas no segundo turno – mais por rejeição ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) do que por concordância com as pautas progressistas.
Portanto, o estudo dá prioridade à análise de discurso das respostas dadas pelos entrevistados, ainda que também tenha dados numéricos sobre o universo pesquisado.
"Na pesquisa qualitativa, podemos desenvolver melhor os temas, pois as pessoas têm a oportunidade de mostrar suas percepções e experiências sobre o tema e as soluções que propõem para os problemas apresentados", diz o cientista político Josué Medeiros, coordenador do Opel.
O desafio da segurança
Nesse sentido, o estudo destaca a segurança pública e o enfrentamento à violência como principal desafio do atual governo e dos partidos de esquerda como um todo.
Ainda que esperado, chamou a atenção no estudo o fato de eleitores de Fortaleza e Salvador, capitais de estados sob governos do PT, serem os mais críticos às políticas de segurança do campo progressista.
“Segurança não é uma pauta da esquerda. Você pega os políticos de esquerda, não tem como... Pega projetos voltados pro social, educação, saúde, mas você não vê uma bandeira da segurança. É uma questão muito mais ligada à direita”, afirmou uma eleitora de 26 anos de Brasília, que escolheu Lula no segundo turno – ela é identificada como branca, evangélica e com ensino superior.
Outro eleitor de Lula apenas no segundo turno, um homem branco de 46 anos de Belo Horizonte, também com ensino superior e evangélico, afirmou que “esquerda e direita não conseguem entender o perigo do país” – o campo progressista, por não conseguir oferecer segurança à população, e o conservador por apostar na “falsa segurança” do discurso armamentista.
Empreendedorismo e o novo mercado de trabalho
Os pesquisadores do Ypykuéra e do Opel consideraram uma surpresa positiva para o campo da esquerda o reconhecimento de políticas voltadas ao empreendedorismo, como a criação do Microempreendedor Individual (MEI) e dos cursos profissionalizantes do Sistema S, além das políticas públicas educacionais, em uma visão mais ampla de desenvolvimento e geração de oportunidades para os cidadãos.
No entanto, também foram observadas críticas por novas políticas nesse sentido e por um discurso considerado ultrapassado em relação ao mercado de trabalho contemporâneo.
“O que eu faço hoje, se tornar empreendedora, não é necessariamente uma educação do governo. Apesar de existirem vários projetos que são gratuitos, acessíveis, mas não adianta quando a gente tem que trabalhar o dia inteiro pra pagar as contas”, disse uma mulher indígena de 31 anos de Belém, com ensino médio e seguidora do candomblé, que votou em Lula no segundo turno.
“Empreender não é só incentivar o cara a tomar um empréstimo. Empreender é você acompanhar, ajudar a empreender, é acompanhar o início, a continuidade e o fim. E não acontece isso”, complementa um homem pardo de 31 anos de Salvador, com ensino superior e sem religião, eleitor de
Lula nos dois turnos de 2022.
Para os pesquisadores, um dos principais achados do estudo foi a concepção ampliada de prosperidade desses eleitores, por verem a esquerda capaz de promover “crescimento em termos de dignidade humana”, e não só em “termos financeiros”.
Nas questões do sistema político, os pesquisadores também identificaram discurso antissistema e a visão de que o Congresso, com predomínio da direita, é o principal obstáculo hoje ao governo Lula. Os eleitores do petista também apontaram um desejo por renovação nas lideranças do campo progressista e de práticas coerentes com o que é pregado – um exemplo citado é o do uruguaio José Pepe Mujica, que morreu neste ano.



