Campanha de Flávio teme tática do PT usada contra Marina em 2014
Ofensiva de Lula busca associar promessa do senador de “tesouraço” à redução e ao corte de benefícios sociais

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) teme que a ofensiva do PT para associar a promessa de “tesouraço” nas contas públicas à perda de benefícios sociais tenha efeito semelhante ao dos ataques contra Marina Silva na eleição presidencial de 2014, quando a ex-ministra ameaçou a reeleição de Dilma Rousseff (PT).
A preocupação no entorno do senador é com o uso do discurso de ajuste fiscal para alimentar o medo de cortes em programas que atendem à população. A ofensiva petista busca apresentar a proposta de redução de gastos como uma ameaça aos benefícios de eleitores.
Na terça-feira (6), Lula publicou nas redes sociais um vídeo que associa o “tesouraço” de Flávio a cortes em programas sociais durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A postagem cita o Farmácia Popular; Minha Casa, Minha Vida; Mais Médicos; e merenda escolar, entre outras áreas.
“Quando um Bolsonaro fala em ‘tesouraço’, o Brasil sabe exatamente quem paga a conta”, diz a publicação no perfil do presidente.
Algumas das peças do PT e da campanha de Lula afirmam que Flávio pretende acabar com o Bolsa Família, privatizar o SUS (Sistema Único de Saúde) e retirar direitos trabalhistas. Uma delas mostra o senador com uma tesoura diante de medicamentos e diz que ele “vai tirar seu remédio”.
A campanha de Flávio nega que as acusações procedam e classifica o conteúdo como fake news. Segundo a equipe do candidato, a proposta de ajuste das contas públicas não prevê as medidas atribuídas a ele nas peças.
O “tesouraço” é uma das principais bandeiras econômicas de Flávio. O senador usa a expressão para defender o enxugamento da máquina pública e a redução de despesas, impostos e burocracia. Seu plano de governo prevê cortar ao menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados e combater supersalários.
Em entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto, Flávio afirmou que o ajuste fiscal não atingiria trabalhadores de baixa renda, aposentados ou beneficiários de programas sociais. Segundo ele, a redução de despesas viria do corte de ministérios, cargos comissionados e burocracia.
“Não vou fazer economia do povo mais sofrido, do povo brasileiro”, disse o senador. “Não precisa fazer economia em cima dos aposentados”, acrescentou.
A tática do PT contra Flávio é comparada à ofensiva de Dilma contra Marina, então candidata do PSB, em 2014. Um dos comerciais mais conhecidos daquela disputa associava a proposta de autonomia do Banco Central ao aumento do poder dos banqueiros. Na sequência, mostrava uma família durante uma refeição, com a comida desaparecendo dos pratos.
O comercial foi produzido pelo marqueteiro João Santana, responsável pela campanha de Dilma em 2014. Parte do PT cogitou trazê-lo para atuar na campanha de Lula neste segundo turno, ou ao menos como conselheiro.
O presidente saiu atrás de Flávio nas urnas no último domingo (4) e precisa reverter a desvantagem para conquistar a reeleição.
A propaganda de 2014 apresentava a proposta econômica de Marina como uma ameaça ao emprego, ao salário e à alimentação das famílias. É esse efeito que a campanha de Flávio teme ver repetido com o “tesouraço”.
Marina havia assumido a candidatura após a morte de Eduardo Campos e chegou a empatar com Dilma nas pesquisas de primeiro turno. No fim de agosto, as duas tinham 34% das intenções de voto de acordo com levantamento do Datafolha. Na simulação de segundo turno, Marina liderava por 50% a 40%.
A ex-ministra perdeu espaço ao longo da campanha e terminou a eleição em terceiro lugar, com 21,32% dos votos válidos. Aécio Neves (PSDB), com 33,55%, avançou para o segundo turno contra Dilma.
No último domingo, com 100% das urnas apuradas, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos, totalizando 56,1 milhões de votos. Lula chegou a 45,16%, com 53,8 milhões.



