Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Acordo militar entre EUA e Paraguai pode criar novas tensões com o Brasil

Compromisso prevê a presença militar americana no Paraguai para o combate ao crime organizado

Marco Rubio em Shannon, Irlanda.  • Saul Loeb/Reuters
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Estados Unidos e Paraguai firmaram nessa segunda-feira (15) um acordo que permite atividades de militares americanos em solo paraguaio. O acordo se segue a um outro, firmado em maio, que facilita o fornecimento de armas americanas para o Paraguai.

O interesse estratégico dos EUA é conter o narcotráfico, organizações brasileiras que atuam na fronteira e nos presídios paraguaios, como o PCC, a presença de grupos como Hezbollah e a influência da China no Cone Sul.

O Acordo sobre o Status das Forças (Sofa, na sigla em inglês) foi assinado em Washington pelo secretário de Estado americano Marco Rubio e pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano.

“O acordo histórico estabelece um marco claro para a presença e as atividades de militares dos Estados Unidos e de pessoal civil do Departamento da Guerra em território paraguaio, facilitando treinamentos bilaterais e multinacionais, assistência humanitária, resposta a desastres e outros interesses comuns de segurança”, afirmou o Departamento de Estado em nota.

O conteúdo integral do acordo não foi revelado.

Depois do Brasil, o Paraguai é o país com a maior presença de integrantes do PCC. Uma contagem recente da inteligência brasileira identificou 699 membros do bando no país vizinho.

O grupo guerrilheiro Exército do Povo Paraguaio (EPP), classificado como organização terrorista pelas autoridades paraguaias, realiza sequestros, extorsões, assaltos a bancos e ataques contra militares e policiais. Embora o EPP tenha perdido força nos últimos anos, ainda representa uma ameaça na zona rural do país e tem vínculos com outros movimentos guerrilheiros da América Latina.

Tem havido indícios também de presença do grupo xiita libanês Hezbollah na Tríplice Fronteira.

O Paraguai serve como ponto de trânsito para a cocaína produzida na Bolívia e na Colômbia, com destino ao Brasil e outras regiões.

Estratégia geopolítica

A cooperação com o Paraguai também é parte de uma estratégia geopolítica mais ampla dos EUA para contrabalançar a crescente influência da China na América Latina.

A China tem uma base espacial em Neuquén, na Patagônia argentina, destinada a monitorar o espaço, mas que pode ser usada para atacar satélites em um eventual conflito com os EUA, por exemplo.

Os chineses têm ainda interesse em construir e possivelmente operar uma “base logística” antártica em Ushuaia, no extremo sul da Argentina.

No Brasil, a China tem intenção de desenvolver uma ligação bioceânica para transportar commodities brasileiras, especialmente soja, milho e minérios, para a Ásia através dos Andes e do Oceano Pacífico.

O principal eixo discutido desde meados da década de 2010 é o chamado Corredor Bioceânico Ferroviário.

No Paraguai, a presença chinesa é menos institucionalizada, já que o governo paraguaio reconhece Taiwan e não tem relações diplomáticas formais com a China.

Mesmo assim, há um forte comércio e crescentes investimentos de empresas chinesas no país.

No dia 21 de maio de 2025, os ministérios da Defesa do Paraguai e dos Estados Unidos assinaram em Assunção um Memorando de Entendimento para a compra de armamentos por meio do programa Vendas Militares ao Exterior (FMS).

Em novembro, as comissões de Relações Exteriores e de Assuntos Constitucionais do Senado emitiram parecer favorável ao memorando. O FMS garante o aval do governo americano à comercialização de armas.

No contexto em que o Brasil resiste às pressões americanas para classificar o PCC e outras organizações criminosas como “terroristas”, a eventual presença militar americana no Paraguai com o objetivo de combater esses grupos pode criar novas tensões entre os dois governos.