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    Lourival Sant'Anna

    Lourival Sant'Anna

    Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

    Chefe da inteligência militar renuncia em momento crítico para Israel

    Aharon Haliva permanecerá no cargo até que um sucessor for neomado

    Chefe da inteligência militar renuncia em momento crítico para Israel
    Chefe da inteligência militar renuncia em momento crítico para Israel

    A renúncia do chefe da inteligência militar israelense, general Aharon Haliva, coincide com o início da Páscoa judaica, quando muitas famílias passarão pela primeira vez o feriado religioso sem seus parentes mortos ou tomados como reféns pelo Hamas. Marca também uma etapa delicada para o governo e as Forças de Defesa de Israel (FDI), com a constatação de que os mais vulneráveis entre os 133 reféns podem ter sido mortos pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza.

    Haliva assumiu a responsabilidade pela falha de segurança que permitiu a cerca de 3 mil palestinos, sob o comando do Hamas, cometerem atrocidades contra israelenses civis e militares, durante longas horas no dia 7 de outubro, sem que as forças de segurança reagissem de forma organizada.

    O chefe do Diretório da Inteligência Militar, conhecido em Israel pela sigla em hebraico Aman, estava de folga, como muitos israelenses, no último dia do festival de Sukkot, que celebra o Êxodo do Egito. Seus subordinados o acordaram às 3 horas da madrugada, com a informação de que havia uma movimentação incomum de elementos do Hamas perto da fronteira da Faixa de Gaza com Israel.

    Haliva desligou o telefone e voltou a dormir, e não participou das discussões que se seguiram entre integrantes do Aman e a FDI. Diante das informações dos preparativos de um ataque, nas semanas que precederam a invasão de Israel pelo Hamas, o chefe de inteligência militar havia defendido a tese de que o grupo terrorista não tinha interesse em uma nova guerra.

    O Aman realiza uma investigação interna sobre a falha de segurança, e outros integrantes da organização devem ser responsabilizados. A previsão era que os resultados fossem anunciados em junho pelo próprio Haliva. O general é o primeiro funcionário de alto nível que assume sua participação na falha de segurança.

    No dia 10 de abril, o Hamas admitiu durante as negociações em Doha, no Catar, sobre a libertação dos reféns na Faixa de Gaza, que não tem informações sobre os 40 israelenses mais vulneráveis que estão nos seus cativeiros: mulheres, idosos e doentes. Com isso, agravaram-se as suspeitas de que muitos reféns possam ter sido mortos nos bombardeios israelenses.

    Nem o Hamas nem o governo israelense tem interesse na divulgação dessa informação. O Hamas, porque perde o principal trunfo nas negociações; o governo, porque atrai para si parte da responsabilidade pela morte dos reféns.

    Em seguida ao vazamento da notícia, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, autorizou o bombardeio de um carro no norte da Faixa de Gaza, no qual estavam três filhos e quatro netos do líder político do Hamas, Ismail Haniyeh.

    A manobra parecia destinada a induzir Haniyeh a interromper as negociações, dando a Israel a oportunidade de culpar o Hamas pelo fracasso das negociações, em vez de admitir que ela estava truncada pela possível morte dos reféns nos bombardeios.

    O líder do Hamas aparentemente percebeu a intenção israelense, e reagiu assim à notícia: “O sangue dos meus filhos e netos não é mais precioso que o dos outros palestinos. As negociações vão prosseguir”. Ele acrescentou que já perdeu 60 familiares nos bombardeios. Entretanto, diante da falta de provas de que os 40 reféns estão vivos, o acordo não foi alcançado.

    As autoridades civis e militares de Israel evitaram até agora punir os responsáveis pela falha de segurança do dia 7 de outubro por considerar que isso prejudicaria a campanha contra o Hamas.

    A deterioração política do governo parece ter mudado esse cálculo. Netanyahu precisa de culpados, para desviar o foco sobre ele, enquanto se avolumam os sinais de que a condução da guerra não priorizou a libertação dos reféns, como denunciam muitos israelenses.