Brasil industrializa apenas um terço da soja produzida
Abiove avalia que capacidade instalada da indústria brasileira permite elevar processamento de soja em cerca de 40%, alcançando até 73 milhões de toneladas por ano, diante da expansão esperada do biodiesel

O Brasil caminha para registrar um recorde histórico no processamento de soja em 2026, mas ainda aproveita apenas parte do potencial de industrialização da cadeia.
A avaliação é de Daniel Furlan, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais).
Segundo a entidade, o país deve encerrar o ano com esmagamento recorde de 62,5 milhões de toneladas de soja. Apesar do volume inédito, o número representa cerca de um terço da safra brasileira projetada para o período.
Para Furlan, o avanço é positivo, mas evidencia que ainda existe grande espaço para o país agregar valor internamente à produção agrícola.
“A soja industrializada no Brasil, transformada em farelo, óleo, biodiesel e ração, gera quase 4,5 vezes mais empregos e PIB (Produto Interno Bruto) do que a soja exportada em grão”, afirmou.
O crescimento do processamento interno fortalece diferentes setores da economia, amplia a geração de renda e impulsiona cadeias industriais ligadas à alimentação e à energia renovável.
Segundo a Abiove, a capacidade instalada atual da indústria permitiria ampliar o esmagamento em pelo menos mais 10 milhões de toneladas por ano, alcançando cerca de 73 milhões de toneladas processadas anualmente.
Além da estrutura já existente, Furlan afirma que o setor possui elevada capacidade de expansão industrial, com experiência na construção de novas plantas e definição estratégica de localização das esmagadoras pelo país.
A expectativa da entidade é que a demanda crescente por biocombustíveis acelere ainda mais esse movimento nos próximos anos.
A chamada Lei do Combustível do Futuro prevê aumento gradual das misturas de biodiesel, diesel verde e SAF (combustível sustentável de aviação), ampliando a necessidade de matérias-primas como o óleo de soja.
Segundo Furlan, a transição energética global vem transformando o óleo vegetal em um ativo cada vez mais estratégico.
“Hoje, o óleo de soja já representa entre 30% e 45% da margem de esmagamento, mesmo correspondendo a apenas cerca de 20% da extração do grão”, explicou.
Na avaliação da entidade, a expansão dos biocombustíveis não gera disputa entre alimento e energia no caso brasileiro.
Isso porque o consumo alimentar de óleo de soja no país está estável há mais de uma década, enquanto a nova demanda energética se soma ao mercado já existente.
O aumento do esmagamento também amplia a oferta de farelo proteico, utilizado na produção de ração animal, o que ajuda a sustentar a competitividade das cadeias de carnes.
Outro ponto destacado pela Abiove foi a publicação na data de hoje, pelo Ministério de Minas e Energia, do protocolo de testes para validação de misturas de até 20% de biodiesel no diesel fóssil, o chamado B20.
Para o setor, a ampliação gradual da mistura pode reduzir importações de diesel e aumentar a segurança energética brasileira, além de estimular investimentos na indústria, na agricultura e em serviços associados à cadeia da soja.


