Lucinda Pinto
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Lucinda Pinto

Jornalista de economia e negócios há mais de três décadas. Passou pelas redações de O Globo, Agência Estado, Valor Econômico e InvestNews.

Braskem: Crise de quase uma década termina em reestruturação de US$ 10,9 bi

Indefinição societária, Maceió, piora do ciclo petroquímico e crise no México reduziram valor e capacidade de investimento da antiga “campeã nacional”

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O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Braskem nesta segunda-feira (24) é mais um capítulo de uma crise que se arrasta há quase uma década e que foi se agravando à medida que diferentes problemas se acumularam.

A longa indefinição societária coincidiu com novos passivos, perda de capacidade de investimento e deterioração das condições do mercado petroquímico.

Quando a questão do controle finalmente foi resolvida, neste ano, a companhia já enfrentava uma crise financeira que agora levou à reestruturação de US$ 10,9 bilhões em dívidas.

Considerada no passado uma das “campeãs nacionais”, a Braskem tornou-se uma das maiores petroquímicas do mundo e valia mais de R$ 60 bilhões no auge, em 2017, e chega agora à recuperação extrajudicial com US$ 10,9 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) em dívidas financeiras a serem reestruturadas.

A companhia conseguiu iniciar o processo com apoio de credores que representam 39,6% dos créditos e terá agora 90 dias para negociar os termos definitivos do plano. O pedido suspende cobranças das obrigações financeiras incluídas na recuperação e não abrange compromissos operacionais com fornecedores e funcionários.

A negociação tende a ser difícil. Os bondholders internacionais concentram cerca de 65% da dívida e já resistiram a uma primeira proposta da companhia. Dependendo da forma como os créditos forem agrupados, esse grupo terá peso decisivo na definição dos termos da reestruturação.

Mas a recuperação extrajudicial é menos o início de uma nova crise do que a consequência de problemas que foram se acumulando ao longo de quase dez anos.

Uma crise que começou fora da Braskem

A origem dessa história está na antiga Odebrecht, hoje Novonor.

Entre 2016 e 2018, em meio à crise provocada pela Lava Jato, a Odebrecht tomou empréstimos com Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e colocou como garantia sua participação na Braskem — 38,3% do capital total, correspondente a 50,1% das ações com direito a voto.

Naquele momento, essas ações eram avaliadas em cerca de R$ 15 bilhões.

A Odebrecht não conseguiu pagar a dívida, entrou em recuperação judicial em 2019 e a venda da participação na Braskem passou a ser uma das principais alternativas para acertar a pendência com os bancos.

Começava ali uma longa tentativa de encontrar um novo controlador para a petroquímica.

Não faltaram candidatos. LyondellBasell, Unipar, J&F e Adnoc - esta inicialmente em parceria com a Apollo - estiveram entre os interessados.

Mas as negociações esbarraram em preço, nos passivos da companhia e na própria complexidade societária da Braskem.

Petrobras tornou a equação mais complexa

Havia ainda uma segunda peça fundamental: a Petrobras.

A estatal detinha 47% das ações votantes da Braskem e era parte de um acordo de acionistas que lhe assegurava direitos relevantes. Por isso, não bastava a Novonor encontrar alguém disposto a comprar sua participação. O interessado precisava saber também como ficaria a Petrobras dentro da companhia.

Durante anos, a estatal avaliou alternativas para sua fatia, inclusive a possibilidade de saída. Essa indefinição tornou mais complexa a construção de uma solução societária.

O caso da Adnoc ilustra o problema.

Em 2023, a estatal de Abu Dhabi ofereceu R$ 10,5 bilhões pela participação da Novonor. A proposta estava condicionada, entre outros pontos, à avaliação de eventuais novos passivos de Maceió e à conclusão de um novo acordo de acionistas com a Petrobras. A Adnoc abandonou as negociações em maio de 2024.

O problema é que o mundo não ficou esperando, e enquanto a Braskem tentava resolver quem seria seu controlador, novos problemas apareceram.

O mais grave foi o desastre de Maceió. O afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema obrigou cerca de 60 mil pessoas a deixar áreas afetadas e já consumiu aproximadamente R$ 15,8 bilhões da companhia.

Depois veio a deterioração do próprio negócio. Desde 2022, o excesso de capacidade da indústria petroquímica mundial derrubou os spreads do setor e reduziu a geração de caixa da Braskem.

E a operação mexicana, que havia sido um dos grandes símbolos da internacionalização da companhia, também entrou em crise. A Braskem Idesa recorreu neste mês ao Chapter 11 nos Estados Unidos para reestruturar suas dívidas.

A consequência é que um problema que começou como uma crise societária acabou encontrando uma empresa progressivamente mais fragilizada operacional e financeiramente.

O custo do tempo

É nesse ponto que a história da Braskem vai além da sucessão de crises já conhecida.

Durante boa parte desse período, a companhia esteve praticamente à venda. E uma empresa cujo controlador pretende sair tende a ter mais dificuldade para assumir grandes projetos de investimento cujo retorno virá muitos anos depois.

O último grande projeto de expansão da Braskem foi a fábrica mexicana, inaugurada em 2016 após investimento de US$ 4,5 bilhões.

Enquanto isso, os concorrentes internacionais continuaram investindo, fazendo aquisições e ganhando escala.

Em 2025, por exemplo, Adnoc e OMV anunciaram a formação da Borouge Group International, uma gigante avaliada inicialmente em cerca de US$ 60 bilhões, além da aquisição da canadense Nova Chemicals por US$ 13,4 bilhões.

Ou seja: enquanto a petroquímica global se consolidava, a Braskem passou boa parte de uma década tentando resolver quem seria seu dono.

O custo aparece no valor da companhia.

Entre o pico de outubro de 2017 e março de 2025, a Braskem perdeu cerca de US$ 11 bilhões, ou R$ 61 bilhões, em valor de mercado. Em março do ano passado, valia apenas R$ 7,7 bilhões.

A deterioração continuou. Nesta segunda-feira, as ações atingiram a mínima histórica e acumulam queda de aproximadamente 65% desde março deste ano.

Quando um problema é resolvido, outro já tomou seu lugar

A questão societária finalmente foi destravada neste ano.

A solução encontrada pela IG4 foi diferente das tentativas anteriores. Um fundo ligado à gestora adquiriu os créditos dos bancos contra a Novonor que tinham justamente as ações da Braskem como garantia.

A IG4 chegou assim ao controle de 50,1% das ações votantes, enquanto a Petrobras permaneceu com 47%.

Depois de quase uma década, resolveu-se quem controlaria a Braskem.

Mas, a essa altura, o principal problema já não era mais societário. Era financeiro.

A companhia chegou a 2026 com geração de caixa insuficiente diante de suas obrigações, passivos bilionários e dificuldade crescente para refinanciar sua dívida. Em junho, conseguiu proteção judicial por 60 dias para negociar com os credores.

A deterioração levou a Fitch a classificar a empresa como restricted default depois da suspensão de pagamentos de juros.

Sem um acordo definitivo ao final dos 60 dias, a Braskem entrou agora com a recuperação extrajudicial.

O próximo capítulo pode ser mais encolhimento

O processo abre uma negociação que poderá redesenhar novamente a companhia.

O plano pode envolver alongamento dos vencimentos e capitalização de juros e prevê a possibilidade de conversão de dívida em ações. Novos aportes de acionistas também podem fazer parte da solução.

A Braskem precisa, portanto, fazer agora o movimento que não conseguiu concluir ao longo dos últimos anos: ajustar sua estrutura de capital à capacidade de geração de caixa.

O resultado ainda dependerá da negociação com os credores. Mas a companhia que sair desse processo poderá ser bastante diferente daquela que entrou na crise há quase uma década — inclusive em sua estrutura de capital e acionária.