Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Choque climático no Atlântico Norte pode impactar América do Sul

Enfraquecimento da circulação do Atlântico Norte entra no cálculo de risco soberano e pode alterar clima, nível do mar e cadeias produtivas

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A Islândia colocou um tema técnico no centro da agenda estratégica: o possível enfraquecimento da AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation). A corrente oceânica que redistribui calor no Atlântico Norte — e ajuda a sustentar o clima relativamente ameno do norte da Europa — passou a ser tratada por autoridades islandesas como risco de segurança nacional. Não é retórica ambiental. É cálculo de exposição. 

A AMOC funciona como uma esteira de transporte térmico: águas quentes superficiais sobem em direção ao Atlântico Norte, resfriam, tornam-se mais densas e afundam, retornando em profundidade. O sistema depende do equilíbrio entre salinidade, temperatura e aporte de água doce. O derretimento acelerado da Groenlândia e o aumento de precipitação no Ártico são variáveis que entram nessa conta. A preocupação central é o enfraquecimento gradual — e, em cenários extremos, uma transição abrupta. 

O ponto-chave, segundo a literatura consolidada no relatório mais recente do IPCC (AR6), é que a AMOC já apresenta sinais de enfraquecimento quando comparada a padrões históricos reconstruídos por proxies paleoclimáticos. Não há consenso de colapso iminente neste século — o painel classifica esse cenário como “muito improvável” até 2100 —, mas reconhece alta confiança de redução gradual de intensidade sob cenários de aquecimento contínuo. 

A diferença entre enfraquecimento e colapso é estrutural. O primeiro implica menor eficiência na redistribuição de calor. O segundo representa uma transição abrupta para um novo estado climático, com reorganização profunda da circulação oceânica. Eventos análogos ocorreram no passado geológico, como no período do Dryas Recente, há cerca de 12.00 anos, quando o Hemisfério Norte experimentou resfriamento rápido associado a grandes descargas de água doce no Atlântico. 

Hoje, o vetor de pressão é claro: o derretimento acelerado da camada de gelo da Groenlândia. A injeção crescente de água doce reduz a salinidade superficial, diminui a densidade da água e dificulta o afundamento que sustenta a circulação profunda — motor físico da AMOC. Esse mecanismo é considerado um dos principais “tipping elements” do sistema climático global. 

Para a Islândia, o cenário extremo modelado inclui invernos significativamente mais rigorosos e eventual formação sazonal de gelo marinho ao redor da ilha — algo ausente desde o início da ocupação humana. Temperaturas próximas de -45 °C aparecem em simulações de ruptura abrupta completa, mas não constituem o cenário central mais provável segundo os modelos predominantes. 

Os impactos, porém, não se limitariam ao Atlântico Norte. Um enfraquecimento substancial poderia elevar adicionalmente o nível do mar na costa leste dos Estados Unidos, alterar trajetórias de tempestades no Atlântico e deslocar a Zona de Convergência Intertropical, uma faixa quase contínua de nuvens que circunda o planeta próximo ao Equador. Esse último ponto interessa diretamente à América do Sul: mudanças na posição da ZCIT podem redefinir padrões de chuva na Amazônia e no Nordeste brasileiro, impactando a agricultura, geração hidrelétrica e segurança hídrica nas regiões central e sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e norte da Argentina. 

Do ponto de vista macroeconômico, a variável AMOC começa a transitar da climatologia para a análise de risco estrutural. Infraestrutura costeira, logística marítima, cadeias de pesca e estabilidade de oferta agrícola passam a incorporar cenários antes tratados como remotos. Não se trata de uma disrupção uniforme do aquecimento global — o planeta continuaria a aquecer em média , mas de redistribuições regionais abruptas de temperatura e precipitação. 

A mensagem central da ciência climática hoje é menos alarmista do que estrutural: o colapso neste século não é o cenário mais provável, mas o enfraquecimento já está em curso e seus efeitos marginais acumulados podem reconfigurar dinâmicas regionais antes de qualquer ruptura total. 

Quando um país como a Islândia eleva essa hipótese à categoria de segurança nacional, o debate deixa de ser apenas ambiental. Passa a ser econômico, estratégico e, progressivamente, financeiro.