Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

CNN Brasil Money

Acordo UE–Mercosul recoloca Enel no centro do risco regulatório

Despacho do presidente Lula pede avaliação sobre concessão no primeiro dia útil após o aval europeu

Logo da Enel
Logo da Enel  • Divulgação
Compartilhar matéria

A situação da Enel em São Paulo ganhou um novo contorno político e regulatório nesta semana, com impacto direto sobre a percepção de risco do setor elétrico e o radar de investidores.

Um despacho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicado na segunda-feira (12), solicitou informações para que a Aneel avalie, com o envolvimento direto da CGU, se há fundamentos técnicos e jurídicos para a abertura de um processo que pode culminar no fim antecipado da concessão da distribuidora no estado.

Embora o ato não determine, por si só, a caducidade do contrato, ele funciona como um sinal político inequívoco de que o Palácio do Planalto passou a endossar uma leitura regulatória mais rigorosa.

O movimento ocorre em um contexto já pressionado por sucessivos apagões e pela deterioração dos indicadores de qualidade do serviço, o que ampliou o custo político da inação e passou a ser incorporado à precificação de risco da operação brasileira da companhia.

O timing da iniciativa chamou a atenção do mercado, uma vez que o despacho foi publicado no primeiro dia útil após a aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, um processo negociado ao longo de anos e marcado por elevada sensibilidade diplomática. A coincidência reforça uma leitura que vinha circulando nos bastidores.

Durante a fase mais crítica das negociações, o governo brasileiro teria optado por não elevar o conflito com a Enel ao nível máximo, evitando atritos com a Itália. O país abriga a sede da companhia e teve voto considerado decisivo para destravar o acordo no âmbito europeu.

O fato de a Enel ser controlada pelo Estado italiano confere ao episódio uma dimensão que extrapola o terreno estritamente regulatório e ajuda a explicar a cautela observada naquele período.

Essa leitura não implica a existência de pressão formal de Roma nem de um acordo tácito para deixar o caso Enel em stand-by enquanto o tratado comercial avançava.

O que fontes diplomáticas e regulatórias descrevem é algo mais sutil e recorrente em negociações multilaterais: uma gestão de tempo político. Nesse contexto, o custo diplomático de uma escalada naquele momento era avaliado como superior ao benefício imediato de uma ação mais contundente.

Na prática, processos técnicos seguiram tramitando na Aneel, mas sem avanço para medidas extremas, como intervenção ou caducidade, preservando um ambiente externo menos conflituoso enquanto o acordo Mercosul–UE enfrentava resistências em Parlamentos nacionais europeus.

Com o acordo aprovado, esse amortecedor diplomático perde relevância. O governo federal passa a tratar o caso Enel como uma agenda essencialmente doméstica, centrada em regulação, defesa do consumidor e resiliência da infraestrutura elétrica diante de eventos climáticos cada vez mais severos.

A reativação de processos na Aneel, o envolvimento direto da CGU e agora o despacho presidencial indicam que o Planalto está disposto a bancar politicamente uma análise mais rigorosa do contrato.

Para investidores, o efeito imediato é a elevação do prêmio de risco regulatório. Ainda que a caducidade seja tratada como um cenário sensível, sua inclusão explícita no debate institucional é suficiente para afetar expectativas. O impacto se reflete sobre o custo de capital, decisões de investimento e métricas de crédito da operação no Brasil.

Mais do que o desfecho específico do caso, o sinal enviado ao mercado é claro: superado o capítulo Mercosul–UE, decisões relativas à concessão da Enel deixam de ser calibradas por considerações diplomáticas externas, recolocando a regulação e a prestação do serviço no centro da equação econômica.

Acompanhe Economia nas Redes Sociais