Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Petrolíferas dos EUA na Venezuela avançam só no longo prazo

Recuperação da produção exigiria estabilidade política, bilhões em investimentos e anos até gerar impacto relevante.

Sol se põe atrás de uma bomba de extração de petróleo na Bacia do Permiano, no Condado de Loving, Texas, EUA
Sol se põe atrás de uma bomba de extração de petróleo na Bacia do Permiano, no Condado de Loving, Texas, EUA.  • 24/11/2019REUTERS/Angus Mordant
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A perspectiva de retorno das grandes empresas americanas ao setor petrolífero venezuelano tem sido tratada com cautela pelos mercados. Apesar de a Venezuela deter as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris, a produção atual segue muito aquém desse potencial, refletindo anos de deterioração da infraestrutura e instabilidade política.

Para que empresas americanas voltem a investir de forma consistente no país, será indispensável um ambiente de estabilidade política e segurança jurídica. Projetos de exploração e produção de petróleo envolvem contratos de longo prazo, elevados riscos financeiros e exigem previsibilidade regulatória, condições que hoje ainda não estão plenamente asseguradas.

Outro fator crítico é o volume de investimentos necessários. Analistas do setor estimam que a recuperação da indústria petrolífera venezuelana exigiria aportes da ordem de dezenas de bilhões de dólares ao longo dos próximos anos, incluindo a modernização de campos maduros, refinarias, oleodutos e terminais de exportação.

A atual cotação internacional do petróleo também atua como um freio para investimentos imediatos. Com preços relativamente baixos, a geração de caixa das petroleiras é mais restrita, o que reduz a disposição para assumir projetos de alto custo e retorno de longo prazo em ambientes considerados politicamente sensíveis.

Isso não significa que as empresas americanas abdicariam do acesso às maiores reservas mundiais conhecidas de petróleo. Apenas indica que esse apetite será moderado pelas cotações internacionais (que influem na geração mais robusta de caixa), pela estabilidade política e segurança jurídica.

Apesar do peso geopolítico do tema, a reação do mercado internacional de petróleo foi neutra. As cotações do Brent e do WTI mantiveram-se relativamente estáveis — na casa dos US$ 60, sinalizando que os investidores não enxergaram, no curto prazo, risco concreto de alteração relevante na oferta global.

A leitura predominante é que qualquer mudança estrutural na produção venezuelana depende de fatores políticos, financeiros e operacionais de longo prazo, limitando impactos imediatos sobre preços e contratos futuros.

Mesmo em um cenário mais favorável, no qual os investimentos começassem agora, os efeitos sobre a produção não seriam imediatos. Especialistas indicam que seriam necessários ao menos cinco anos para que a recuperação da infraestrutura e novos projetos se traduzissem em um aumento significativo da produção venezuelana.

Por isso, o interesse das petroleiras americanas deve ser interpretado sob uma ótica estratégica de médio e longo prazos. A magnitude das reservas venezuelanas mantém o país no radar da indústria global de petróleo, mas qualquer avanço concreto dependerá de estabilidade política, preços mais atrativos e tempo suficiente para transformar planos em barris efetivamente produzidos.

A alta das ações das petrolíferas reflete menos a perspectiva de investimentos imediatos na Venezuela e mais a precificação de opcionalidade estratégica pelo mercado. A possibilidade futura de acesso às maiores reservas de petróleo do mundo, ainda que condicionada à estabilidade política e a um horizonte de vários anos, melhora a percepção de longo prazo sobre reposição de reservas e crescimento, sem pressionar o caixa no curto prazo.

Como o preço do petróleo permanece estável e as empresas seguem gerando caixa, o mercado incorpora o potencial de valorização futura sem descontar, por ora, o custo elevado e distante dos investimentos.

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