Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Himalaia e o limite do resgate no teto do mundo

Helicópteros chegam a altitudes extremas, mas desastre mostra como clima, acesso e estrutura hospitalar restringem operações em larga escala

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Um helicóptero já pousou no cume do Everest, mas essa façanha pode criar uma impressão enganosa sobre a capacidade de resgate no Himalaia. O Nepal dispõe de pilotos experientes e aeronaves capazes de operar em condições extremas. O problema surge quando é preciso transformar essa capacidade especializada em atendimento simultâneo a centenas de vítimas.

Uma revisão publicada em julho de 2026 no International Journal of Emergency Medicine contabilizou, com dados de julho de 2025, 31 helicópteros de 12 empresas civis que podiam ser utilizados pelo sistema pré-hospitalar nepalês. Eram 27 AS350 B3/H125, três AS350 B2 e um Bell 407 GXP.

Isso não significa uma frota de 31 aeronaves dedicada ao salvamento. O Nepal não mantém helicópteros médicos exclusivamente para esse serviço. Aeronaves comerciais são mobilizadas para evacuações e também transportam passageiros e cargas, mas podem estar em manutenção ou posicionadas longe da emergência.

A capacidade se estreita ainda mais onde não é possível pousar. Em junho, o Kantipur informou que apenas quatro empresas estavam ativas no país em operações de sling, técnica que permite transportar externamente pessoas ou cargas e exige equipamentos e pilotos especialmente treinados.

A família AS350 B3/H125 domina essa frota especializada. Segundo a Airbus, o H125 tem alcance máximo de 630 quilômetros, autonomia de 4 horas e 27 minutos e altitude máxima de voo de 7.010 metros. No peso máximo de decolagem, porém, seu teto de voo pairado fora do efeito solo é de 3.871 metros.

Essa diferença mostra por que recordes não podem ser confundidos com rotina. Em 2005, um AS350 B3 pousou e decolou do Everest, a 8.848 metros. Em 2013, outro aparelho da família realizou no Lhotse um resgate por long-line a 7.800 metros. São demonstrações extraordinárias de capacidade técnica, não parâmetros para evacuações regulares.

Em terra, a estrutura também encontra limites. A Himalayan Rescue Association mantém postos em Manang e Pheriche e o Everest-ER no Campo Base do Everest. Na primavera de 2025, as três unidades atenderam 1.823 pessoas, 89 delas classificadas como casos graves.

A preparação hospitalar avançou. A Organização Mundial da Saúde informou em fevereiro que 122 hospitais nepaleses já possuíam planos de preparação e resposta a desastres. Os 25 hospitais-hub integram a espinha dorsal dessa estrutura.

Mas um estudo observacional publicado em 2025 no Journal of Nepal Health Research Council, com dados dos 25 hospitais-hub coletados entre novembro e dezembro de 2023, encontrou ocupação média de 80% nas enfermarias e 92% nas emergências. Apenas sete, ou 28%, dispunham de heliponto.

Rasuwa submeteu essa estrutura a uma pressão muito diferente da encontrada em um resgate individual. Doze helicópteros — quatro militares e oito privados — foram mobilizados nas operações. Nesta sexta-feira, os trabalhos chegaram a ser suspensos por 90 minutos depois que um lago represado por detritos na região começou a transbordar.

O Nepal dispõe de uma capacidade excepcional para retirar pessoas de alguns dos ambientes mais hostis do planeta. Mas eficiência em alta montanha não significa capacidade ilimitada diante de um desastre de massa.

No Himalaia, o verdadeiro limite do resgate não está no recorde de altitude de um helicóptero. Está em quantas pessoas podem ser localizadas, retiradas e atendidas antes que o clima, o terreno e o tempo fechem a janela de sobrevivência.