Análise: Fogo e El Niño ameaçam a fábrica de chuva amazônica
Incêndios avançam enquanto o Pacífico se aquece; pesquisas mostram como a perda florestal pode reduzir a umidade que abastece outras regiões

O que os incêndios no Amazonas têm a ver com a chuva que abastece lavouras, reservatórios e cidades do Centro-Sul? A resposta está na capacidade da floresta de devolver água à atmosfera. A crise preocupa não apenas pela fumaça: coincide com um El Niño que pode alcançar intensidade recorde e se soma à degradação acumulada da vegetação.
Segundo o Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), órgão federal vinculado ao Ministério da Defesa, o Amazonas registrou 1.380 focos entre 1º e 10 de outubro, ante 372 no mesmo período de 2025, aumento de 271%. O fogo atinge municípios do sul, como Apuí e Lábrea, e do centro-leste, como Autazes e Itacoatiara. No Lago do Canaçari, as chamas iniciadas em 19 de setembro permaneceram ativas por semanas. A fumaça levou à suspensão de aulas em Manaus e 36 municípios tiveram emergência reconhecida.
O INPE registrou 3.726 focos em setembro, contra 942 em 2025 e 6.879 em 2024. Essa comparação evita tratar o agravamento recente como recorde histórico. INPE e Censipam empregam metodologias distintas; suas contagens não devem ser somadas.
O próximo fator de preocupação vem do Pacífico. A Organização Meteorológica Mundial prevê anomalia média de 3,7 °C na região Niño 3.4 entre outubro e dezembro, acima do recorde anterior de 2,6 °C. O pico é esperado para dezembro, com probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027. Trata-se de temperatura do oceano, não de aquecimento de 3,7 °C no ar amazônico.
El Niños intensos favorecem condições mais quentes e secas em partes da Amazônia, embora não produzam o mesmo efeito em toda a região. Com menos umidade na vegetação, incêndios iniciados por ação humana encontram condições melhores para se espalhar. A duração e a abrangência da estiagem em 2027 dependerão também do Atlântico e da circulação atmosférica.
O dano, porém, pode sobreviver ao El Niño. O artigo “Evapotranspiration declines prolonged by deforestation and fire in South American biomes” publicado este ano na Nature Geoscience, mostra que incêndios e desmatamento reduzem a evapotranspiração e que sua combinação com a seca intensifica e prolonga as perdas de umidade.
É essa conexão que torna o problema continental. A floresta usa água do solo e libera vapor pelas folhas. Somada à umidade do Atlântico, essa água alimenta os chamados rios voadores, transportados pelos ventos para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e para a bacia do Prata. Os ventos podem seguir soprando com menos contribuição de vapor de uma floresta degradada.
Em janeiro de 2026, Jiangpeng Cui e coautores publicaram na Nature Communications uma análise de 1980 a 2019: as chuvas anuais caíram entre 8% e 11% no sul da bacia amazônica, e de 52% a 72% dessa redução foi atribuída principalmente ao desmatamento. Esse cálculo é sobre perda de cobertura florestal, não sobre os incêndios de outubro.
Ainda não é possível quantificar quanto o fogo atual reduzirá as chuvas fora da Amazônia. Mas sabemos por que proteger a floresta importa a quem mora longe dela: a redução continuada da reciclagem de água pode aumentar a vulnerabilidade da agricultura, do abastecimento e da geração hidrelétrica. O risco não é o desaparecimento dos ventos; é a perda progressiva da umidade que eles transportam e da chuva que essa umidade ajuda a formar.


