Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Desastre das chuvas no NE não é natural, é falha de gestão

Governadora Raquel Lyra destacou que esses eventos se repetem ano após ano e exigem obras estruturais e planejamento contínuo, e não apenas respostas emergenciais

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Números mostram que impacto climático no Nordeste é, sobretudo, resultado de vulnerabilidade estrutural e ausência de prevenção. A frase da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, de que “não adianta dizer que foi desastre natural” não é retórica política. É diagnóstico técnico. E os dados confirmam: no Brasil, o desastre começa muito antes da chuva.

Ao comentar os impactos recentes das chuvas, a governadora destacou que esses eventos se repetem ano após ano e exigem obras estruturais e planejamento contínuo, e não apenas respostas emergenciais. Esse ponto é central. O fenômeno climático pode ser natural; o desastre, não. Ele emerge da combinação entre evento extremo e vulnerabilidade social — conceito já consolidado na literatura internacional e também observado no próprio Brasil.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Entre 2015 e 2024, o Nordeste registrou cerca de 302 mortes associadas a desastres naturais, frente a 1.985 no Brasil. Mais revelador é o impacto social: 1,15 milhão de desalojados ou desabrigados na região, dentro de um total nacional de 4,8 milhões. Quando ampliamos o olhar, são 80 milhões de pessoas diretamente afetadas no Nordeste, em um universo de 113 milhões de atingidos no país, uma participação desproporcional frente ao peso econômico da região.

Esse descolamento entre impacto e capacidade econômica expõe o verdadeiro risco: o desastre como multiplicador de desigualdade. Em termos de mercado, trata-se de um problema de alocação ineficiente de capital público. Recursos continuam concentrados em resposta — resgate, reconstrução, assistência — quando o retorno social mais alto está na prevenção: drenagem urbana, contenção de encostas, ordenamento territorial e sistemas de alerta.

A evidência histórica reforça essa leitura. Grandes tragédias no Brasil, como a Região Serrana do Rio em 2011, não foram eventos imprevisíveis, mas episódios de risco conhecido e negligenciado, com centenas de mortes associadas à ocupação de áreas vulneráveis e à ausência de infraestrutura adequada. O padrão se repete, apenas muda a geografia.

Há, portanto, uma distorção clássica de política pública: o curto prazo domina o orçamento. Obras estruturais, menos visíveis politicamente e mais intensivas em planejamento, são postergadas. O resultado é um ciclo perverso: cada evento extremo gera custo fiscal elevado, pressão sobre seguros, impacto no crédito imobiliário e perda de produtividade regional.

Sob a ótica macro, o Brasil enfrenta um risco crescente de “normalização do desastre”. Com a intensificação de eventos extremos associada às mudanças climáticas, a frequência desses episódios tende a aumentar. Sem intervenção estrutural, o país passa a operar com um nível crônico de perdas humanas, fiscais e econômicas.

A fala de Raquel Lyra, nesse contexto, funciona como um ponto de inflexão. Ela desloca o debate da meteorologia para a governança. E esse é o único caminho possível. Porque, no limite, a diferença entre uma chuva intensa e uma tragédia está na capacidade do Estado de antecipar, ordenar e proteger.

O que está em jogo não é apenas adaptação climática. É eficiência econômica e, sobretudo, preservação de vidas.