Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Parque do Jundu: a engenharia natural protegendo a orla de Santos

Projeto resgata vegetação nativa para conter erosão e organizar a dinâmica da praia

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A implantação do Parque do Jundu, na orla de Santos, representa mais do que a criação de um novo espaço urbano. Trata-se da reintrodução de um elemento ecológico essencial, historicamente suprimido pela urbanização da faixa costeira, e que agora passa a ser reconhecido como parte da própria “engenharia” natural das praias.

O jundu corresponde a uma vegetação nativa característica do litoral brasileiro, inserida no ecossistema de restinga, que por sua vez integra o bioma da Mata Atlântica.

A palavra deriva do tupi-guarani nhun’du, cujo significado remete a “vegetação rasteira junto à faixa de praia”. Essa vegetação é composta por espécies adaptadas a condições extremas: solos arenosos, alta salinidade, ventos constantes e baixa disponibilidade de nutrientes.

Segundo a Prefeitura de Santos, a recuperação dessa vegetação será por meio de um conjunto de ações já iniciadas: limpeza da área, retirada de espécies invasoras, preparo do solo e mapeamento ambiental. A etapa seguinte envolve o plantio de espécies nativas de restinga, com desenho que favoreça a formação de uma cobertura vegetal contínua e funcional. 

O funcionamento dessa solução é relativamente simples, mas altamente eficaz quando bem implementado. O jundu atua como um sistema natural de estabilização costeira. Suas raízes ajudam a fixar a areia, reduzindo o transporte de sedimentos pelo vento. A vegetação também cria uma rugosidade superficial que diminui a velocidade dos ventos ao nível do solo, o que contribui para a deposição de partículas arenosas.

Ao mesmo tempo, essa cobertura vegetal funciona como uma zona de amortecimento frente à ação das ondas, especialmente durante ressacas. Não se trata de bloquear o mar, mas de reorganizar a interação entre água, vento e sedimentos, favorecendo a manutenção da faixa de areia e reduzindo processos erosivos.

Há ainda um componente estrutural importante: o jundu contribui para a formação e manutenção de microdunas. Essas elevações naturais funcionam como barreiras dinâmicas, que se ajustam ao longo do tempo às variações das condições costeiras. Diferentemente de estruturas rígidas, esse tipo de sistema possui capacidade de adaptação contínua.

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No caso específico de Santos, essa abordagem ganha relevância adicional. A cidade apresenta trechos com redução da faixa de areia e está sujeita a eventos recorrentes de ressaca, em um contexto de mudanças climáticas e elevação do nível do mar. Ao mesmo tempo, a intensa urbanização da orla limita a capacidade natural de resposta do sistema costeiro.

Nesse cenário, a recuperação do jundu cumpre uma dupla função. De um lado, restabelece processos ecológicos fundamentais que haviam sido interrompidos. De outro, contribui para melhorar a resiliência da praia, organizando a dinâmica sedimentar e reduzindo a vulnerabilidade a processos erosivos.

É importante observar que a efetividade dessa solução depende de alguns fatores críticos. A continuidade da cobertura vegetal, o controle do pisoteio, a manutenção das áreas recuperadas e a integração com o uso urbano da orla são elementos determinantes para o seu desempenho ao longo do tempo.

O Parque do Jundu, portanto, não é apenas um projeto paisagístico. Ele representa a reintrodução de um mecanismo natural de regulação costeira, baseado no funcionamento do próprio ecossistema. Em um ambiente altamente transformado como o de Santos, essa reconexão com processos naturais é, em si, uma estratégia técnica consistente e necessária.