Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Copa do Mundo 2026: o clima pode ser o rival invisível do Brasil

Calor, umidade e tempestades devem influenciar a Copa antes mesmo de a bola rolar

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A Copa do Mundo de 2026 começará para o Brasil com um adversário que não aparece na escalação oficial, mas pode influenciar diretamente o desempenho das equipes: o clima.

Os três compromissos da Seleção Brasileira na fase de grupos serão disputados em regiões com características meteorológicas bastante distintas. Se a estreia em Nova Jersey tende a ocorrer em condições relativamente confortáveis, os desafios aumentam significativamente na Filadélfia e atingem seu ponto máximo em Miami, onde calor, umidade e tempestades poderão se tornar protagonistas.

A partida contra o Marrocos, marcada para o MetLife Stadium, deverá ser disputada sob temperaturas moderadas para os padrões do verão norte-americano. O cenário previsto indica máximas próximas de 26 °C e possibilidade de chuva no final do dia. Trata-se, entre os três jogos iniciais, do ambiente mais favorável ao desempenho físico dos atletas.

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A situação muda na Filadélfia. O início do verão costuma trazer temperaturas próximas de 30 °C combinadas com aumento da umidade do ar. Embora esses valores não configurem uma situação extrema, eles elevam o desgaste fisiológico, reduzem a capacidade de recuperação durante a partida e exigem atenção redobrada das comissões técnicas. Durante a noite, no horário do jogo, o clima deverá ser quente e a umidade do ar elevada.

O maior teste climático, entretanto, deverá ocorrer em Miami. A cidade entra em junho sob influência da estação chuvosa da Flórida, caracterizada por forte calor, elevada umidade e tempestades convectivas frequentes. Nesses ambientes, o desconforto térmico é determinado menos pela temperatura do ar e mais pela dificuldade do organismo em dissipar calor através da transpiração.

Não por acaso, o estudo “Extreme heat risk and the potential implications for the scheduling of football matches at the 2026 FIFA World Cup”, publicado em 2025 no International Journal of Biometeorology, aponta o calor úmido como uma das principais preocupações para atletas, árbitros e organizadores.

Em determinadas condições, a sensação térmica pode superar com folga os valores registrados pelos termômetros, ampliando os riscos de fadiga e comprometendo o rendimento físico ao longo dos 90 minutos.

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Há ainda um segundo fator de atenção: os raios. Diferentemente do que ocorre em muitas competições ao redor do mundo, os Estados Unidos adotam protocolos rigorosos de segurança para tempestades elétricas. Caso sejam detectadas descargas atmosféricas nas proximidades do estádio, a partida pode ser interrompida até que as condições sejam consideradas seguras para atletas e torcedores.

Esse risco é particularmente relevante em Miami, onde tempestades de verão costumam se desenvolver rapidamente durante o período da tarde e início da noite. Dependendo da evolução das condições atmosféricas, atrasos temporários ou interrupções não podem ser descartados.

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O futebol moderno investe bilhões em tecnologia, preparação física e análise de desempenho. Ainda assim, continua sujeito a fatores que escapam ao controle humano. A meteorologia é um deles. Em um torneio decidido por detalhes, alguns graus a mais de temperatura, níveis elevados de umidade ou uma tempestade no momento errado podem influenciar tanto quanto uma boa substituição ou uma estratégia tática eficiente.

Quando a bola começar a rolar nos Estados Unidos, a disputa não será apenas entre seleções. Em alguns momentos, será também entre atletas e atmosfera.