Designação de terrorismo pelos EUA pode elevar percepção de risco do Brasil
Medida do governo americano pode tornar o investimento no Brasil mais arriscado e, no limite, impactar os juros

A classificação de grupos criminosos como facções terroristas pelos EUA pode afetar bancos e elevar a percepção de risco do país, com impactos sobre os juros. É o que avaliam economistas consultados pela CNN.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou nesta quinta-feira (28) o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). O órgão também afirmou que irá designar ambos os grupos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) a partir de 5 de junho de 2026.
A classificação como SDGTs permite que sejam adotadas medidas como: congelamento de ativos e bens nos EUA; proibição de negócios entre pessoas e empresas americanas com os grupos; punições a quem financia ou apoia o PCC e CV; e novas sanções contra pessoas e empresas ligadas às facções.
Já a designação como FTO vai além das sanções financeiras e torna crime fornecer apoio material às organizações, pode gerar restrições migratórias e deportações e dá base legal para investigações e processos criminais.
Um banco que faz negócios com uma empresa com algum vínculo com os grupos terroristas, por exemplo, pode sofrer uma punição por parte do governo americano.
Diante dessas implicações, uma fonte do governo brasileiro relata que bancos já haviam realizado uma reunião com integrantes do governo na manhã desta quinta-feira para demonstrar preocupação depois do encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump, antes mesmo do anúncio do Departamento de Estado.
O economista Murilo Viana avalia que a medida dos EUA pode elevar a percepção de risco sobre o Brasil, levando os investidores a exigirem um maior prêmio de risco, o que pode impactar os juros básicos. "Um setor da economia com presença relevante do crime organizado, como o de combustíveis, pode ter mais dificuldade para captar recursos - e os bons operadores do setor também podem ser prejudicados também", diz.
Viana lembra ainda que alguns fundos estrangeiros têm regras que proíbem o aporte de recursos em regiões com presença de terrorismo e em locais sancionados, outro fator que pode levar a medida dos EUA a afugentar o capital do país.
Marcel Campos, analista bancário, compara a medida atual com a aplicação das sanções da Lei Magnitsky sobre o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa. "Os EUA podem prejudicar os bancos brasileiros que descumprirem, sabendo ou não, as regras americanas. Por exemplo, o Banco do Brasil ser usado pra transacionar dinheiro do crime, algo comum no processo de lavagem de dinheiro", diz.
Mas ele acredita que o impacto pode ser limitado. "A depender da forma como a medida for aplicada, talvez não exista impacto algum, nem pequeno", avalia Campos.
Se o governo americano, porém, levar a cabo investigações e adotar punições sobre os bancos brasileiros, alguns impactos podem ser esperados. Os especialistas citam quatro consequências possíveis:
- Os bancos correm risco de ficar mais isolados internacionalmente. Instituições americanas e europeias podem simplesmente cortar relações com bancos brasileiros por precaução, com medo de "contaminação". Isso afeta principalmente bancos menores e fintechs.
- O compliance se torna muito mais rigoroso. Os bancos passam a ter que monitorar não só lavagem de dinheiro, mas financiamento de terrorismo, o que é mais complexo. As instituições terão de checar listas de sanções internacionais, como as da OFAC americana, e rastrear quem está por trás de cada conta.
- Haverá mais obrigações com o COAF, o órgão responsável pela inteligência financeira no Brasil. Os bancos terão que reportar movimentações suspeitas com mais frequência e agilidade. Quem falhar pode virar alvo de investigação conjunta com autoridades federais ou agências internacionais.
- As instituições podem ter mais custo para operar. Para se adequar aos pontos anteriores, os bancos podem precisar fazer investimentos mais pesados em tecnologia, como inteligência artificial, análise de dados, para detectar redes de laranjas e empresas de fachada usadas pelas facções para movimentar dinheiro.



