Entenda por que Trump quer o território da Groenlândia para os EUA

Presidente americano nomeou governador da Louisiana como enviado especial para Nuuk, atraindo novas críticas do país e da Dinamarca

Soren Sirich Jeppesen, Johan Ahlander, Alessandro Parodi, Stine Jacobsen e Jacob Gronholt-Pedersen, da Reuters
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reafirmou nesta semana que Washington precisa da Groenlândia para a segurança nacional.

Ele também afirmou que um enviado especial recém-nomeado "lideraria a iniciativa".

A ação do líder americano atraiu fortes críticas da Dinamarca e da Groenlândia.

Por que Trump quer a Groenlândia?

A localização estratégica e os recursos da Groenlândia poderiam beneficiar os EUA.

A região fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, o que é vital para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos EUA.

Os Estados Unidos expressaram interesse em expandir sua presença militar na ilha ártica, incluindo a instalação de radares para monitorar as águas entre a ilha, a Islândia e a Grã-Bretanha, utilizadas por navios da marinha russa e submarinos nucleares.

Trump disse a repórteres na segunda-feira (22): "Precisamos da Groenlândia para a segurança nacional, não para minerais... Se você olhar para a Groenlândia, para cima e para baixo na costa, verá navios russos e chineses por toda parte."

Dados de navegação mostram que a maior parte da navegação chinesa em águas árticas ocorre no Ártico do Pacífico e na Rota Marítima do Norte, perto da Rússia.

A maior parte da navegação russa no Ártico ocorre ao longo da costa da Rússia, embora analistas afirmem que submarinos russos frequentemente navegam pelas águas entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido.

De forma mais ampla, o Ártico está se tornando cada vez mais militarizado, com os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a China e a Rússia expandindo suas atividades na região.

A ilha, cuja capital, Nuuk, está mais próxima de Nova York do que a capital dinamarquesa, Copenhague, possui riquezas em minerais, petróleo e gás natural.

Mas, o desenvolvimento tem sido lento e a mineração recebeu investimentos americanos muito limitados.

Qual é a presença atual dos EUA na ilha?

As forças armadas americanas mantêm uma presença permanente na base aérea de Pituffik, no noroeste da Groenlândia.

Um acordo de 1951 entre os EUA e a Dinamarca concedeu a Washington o direito de circular livremente e construir bases militares na Groenlândia, desde que Copenhague e a Groenlândia sejam notificadas.

Historicamente, a Dinamarca tem acomodado os EUA porque Copenhague não tem capacidade para defender a Groenlândia e devido às garantias de segurança americanas à Dinamarca por meio da Otan, segundo Kristian Soeby Kristensen, pesquisador sênior do Centro de Estudos Militares da Universidade de Copenhague.

Qual é o status da Groenlândia atualmente?

A ilha, antiga colônia da Dinamarca, tornou-se um território formal do reino nórdico em 1953 e está sujeita à Constituição dinamarquesa.

Em 2009, a ilha recebeu ampla autonomia de autogoverno, incluindo o direito de declarar independência da Dinamarca por meio de um referendo.

Segundo a lei de 2009, o parlamento da Groenlândia, Inatsisartut, pode invocar uma disposição que permitiria à Copenhague e à Nuuk iniciar negociações para alcançar a independência total.

O povo da Groenlândia precisaria aprovar a independência em um referendo, e um acordo de independência entre a Dinamarca e a Groenlândia também exigiria o consentimento do parlamento dinamarquês.

O que a Groenlândia deseja?

As relações entre a Groenlândia e a Dinamarca têm sido tensas após revelações de maus-tratos históricos aos groenlandeses sob o domínio colonial.

No entanto, o interesse de Donald Trump pela ilha levou Copenhague a se esforçar mais para melhorar os laços com Nuuk.

As pesquisas mostram que a maioria dos 57 mil habitantes da Groenlândia apoia a independência.

Mas, muitos groenlandeses alertam contra ações precipitadas, temendo que a situação da Groenlândia piore e que ela se exponha aos EUA se buscar a independência da Dinamarca muito rapidamente.

A economia da Groenlândia depende da pesca, que representa mais de 95% das exportações, e dos subsídios anuais da Dinamarca, que cobrem aproximadamente metade do orçamento público.

O que acontece se a Groenlândia se tornar independente?

Se a Groenlândia se tornasse independente, poderia optar por se associar aos Estados Unidos sem se tornar território americano.

A ilha poderia formar uma chamada "associação livre" com Washington, que substituiria os subsídios dinamarqueses pelo apoio e proteção dos EUA em troca de direitos militares, um modelo semelhante ao das Ilhas Marshall, Micronésia e Palau.

Segundo Ulrik Pram Gad, especialista em Groenlândia, a ideia do presidente americano de comprar a Groenlândia baseia-se numa incompreensão do direito internacional e do princípio da autodeterminação, que garante aos povos o direito de escolher o seu próprio estatuto político.

Quais são as medidas de Trump para pressionar a Groenlândia?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como seu enviado especial para a Groenlândia.

Essa medida gerou novas críticas da Dinamarca e da Groenlândia em relação ao interesse de Washington.

Landry apoia publicamente a ideia de a Groenlândia se tornar parte dos EUA.

O que a Dinamarca e a Groenlândia dizem sobre tudo isso?

Quando Trump se ofereceu para comprar a ilha durante o seu primeiro mandato presidencial, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, considerou a proposta "absurda".

Frederiksen e o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmaram numa declaração conjunta na segunda-feira (22) que a Groenlândia pertence aos groenlandeses.

"Não se pode anexar outro país. Nem mesmo com o argumento da segurança internacional", declararam.

O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, convocou o embaixador dos EUA devido à nomeação do enviado.

Posteriormente, Rasmussen afirmou que o representante da Dinamarca e da Groenlândia havia "traçado uma linha vermelha" com o embaixador.