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    Priscila Yazbek
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    Priscila Yazbek

    Correspondente em Paris, Priscila é apaixonada por coberturas internacionais e econômicas — e por conectar ambas. Ganhou 11 prêmios de jornalismo

    Análise: Ultradireita sai fortalecida na França, apesar de vitória da esquerda

    Reunião Nacional, de Marine Le Pen, tem o maior número de votos e possível paralisia na Assembleia pode favorecer ultradireita para 2027

    Fachada da Assembleia Nacional da França, em Paris
    Fachada da Assembleia Nacional da França, em Paris 01/07/2024 REUTERS/Sarah Meyssonnier

    Depois da vitória na primeira rodada das Eleições Legislativas de 2024, a virada da esquerda no segundo turno na França deixou um gosto amargo para a ultradireita.

    Mas não fossem a alta expectativa deixada pelo primeiro turno e as pesquisas que previam a vitória do Reunião Nacional, de Marine Le Pen, a ultradireita poderia estar comemorando agora.

    Em termos absolutos, o Reunião Nacional ficou com 8,7 milhões de votos no segundo turno (32,05%), contra 7,0 milhões da coalizão de esquerda Nova Frente Popular (25,68%) e 6,3 milhões do grupo centrista de Emmanuel Macron (23,14%).

    Foi o partido mais votado, mas ficou em terceiro lugar em número de assentos porque o centro e a esquerda se juntaram na chamada Frente Republicana e pediram para candidatos que ficaram em terceiro lugar no primeiro turno desistirem da disputa para unir forças para barrar a ultradireita no segundo turno.

    O Reunião Nacional também passou de 88 assentos para 143, ampliando sua participação na câmara baixa do Parlamento francês de 15,25% para 24,78%.

    Não à toa, Marine Le Pen disse no domingo (8): “Eu tenho muita experiência para ficar desapontada com um resultado em que dobramos nosso número de deputados”.

    Em entrevista ao Novo Dia, da CNN, Kai Enno Lehmann, professor de Relações Internacionais da USP, lembrou que este é o melhor resultado da ultradireita na França desde a Segunda Guerra Mundial.

    “Se eu fosse Le Pen, pensaria que sair sem vitória nesta eleição talvez não tenha sido tão ruim. Nós teremos na França, imagino eu, um período agora de muitas negociações sem governo de fato. Para o discurso dela em 2027 pode ajudar. Ela pode dizer: ‘Olha, temos de novo o caos e é preciso um mandato decisivo para acabar com essa paralisia e com esse caos'”, diz Lehmann.

    O professor avalia que a vitória da ultradireita apenas não aconteceu por causa do chamado voto tático, quando o eleitor vota contra um grupo ou partido, em vez de votar a favor de outro.

    “As pessoas votaram no candidato para derrotar a extrema direita em vez de votar a favor da esquerda. Isso é algo que Le Pen, já visando as eleições presidenciais, vai ter que enfrentar. ‘Como eu consigo superar essa tendência de votar taticamente contra o meu partido?’ Porque se isso persistir, ela nunca vai ganhar eleições, então ela precisa ver como superar essa rejeição”, diz.

    Ao dissolver a Assembleia, Macron prometeu um grande “momento de esclarecimento”. Mas membros do seu próprio campo centrista dizem que agora existe apenas um grande borrão ou “um grande momento de indeterminação” nas palavras de Édouard Philippe, membro do Republicanos, de centro-direita, e ex-primeiro ministro de Macron.

    Com o resultado das eleições, a Assembleia agora tem três blocos principais – de centro, esquerda e ultradireita – sem a maioria absoluta, de mais de 289 assentos.

    A coalizão de esquerda, que ficou em primeiro lugar em número de assentos, com 182 deputados, vai buscar indicar um primeiro-ministro e implementar o programa apresentado durante a campanha.

    Porém, sem a maioria absoluta, precisará fazer alianças para avançar em projetos ou, no pior dos casos, para evitar que os outros dois campos não se juntem para apresentar uma moção de censura e tirar o primeiro-ministro do poder.

    Um período de paralisia da Assembleia, bloqueio institucional e de ondas de moções de censura é aventado por muitos estrategistas políticos.

    Se o cenário de ingovernabilidade se concretizar, pode ser um prato cheio para a ultradireita dizer nas eleições presidenciais de 2027 que a esquerda e o centro tiveram sua chance e nada fizeram.

    Ao comentar os resultados neste domingo, Le Pen disse: “A maré está subindo. Desta vez, não subiu alto o suficiente, mas continua subindo e nossa vitória só está adiada.” Caberá ao centro e à esquerda encontrar uma saída de governabilidade para evitar que a profecia da líder de ultradireita se concretize.