Analista vê brecha para recuo dos EUA em tarifa sobre o café
Um terço do café importado nos EUA vem do Brasil; temor sobre impacto na inflação pode favorecer negociações

Diante da relevância do café brasileiro para o mercado americano, o produto estaria entre os itens passíveis de recuo das tarifas do governo Trump na visão do time de análise do Rabobank, banco holandês com atuação global voltado para o agronegócio.
"Outros produtos brasileiros foram isentos da tarifa, o que mantém viva a expectativa de uma possível revisão ou negociação específica para o café", afirma Guilherme Morya, analista setorial de café do Rabobank.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que se reuniria com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, para discutir as tarifas impostas ao Brasil nesta semana.
O Brasil representa cerca de 30% das exportações globais de café e aproximadamente um terço das importações americanas. Em 2024, foram exportadas 8,1 milhões de sacas de 60 kg aos EUA.
"Dada essa relevância, é muito improvável que o café brasileiro seja totalmente substituído, já que ele compõe parte essencial dos blends consumidos pelos americanos", diz Morya.
Enquanto Donald Trump oficializava as tarifas na semana passada, Scott Bessent disse que os países "poderiam continuar negociando" após a entrada em vigor das novas taxas e afirmou que esperava "um agosto agitado".
O presidente americano fez das tarifas um dos pontos centrais do seu governo, por isso não se espera que ele baixe o tom ao defender sua nova política.
Para Trump não ser acusado de voltar atrás (e se afastar da sigla TACO -Trump Always Chickens Out, Trump sempre amarela), caberá a Bessent negociar para amenizar os impactos mais deletérios das tarifas sobre a economia americana.
Morya afirma que os efeitos de longo prazo ainda são incertos e dependerão da duração das tarifas e das negociações. "A tendência é que a indústria americana consuma os estoques atuais de café antes de realizar novas compras sob a nova tarifa — ou na expectativa de uma mudança na política comercial até lá", afirma.
O analista acredita que no curto prazo, a busca dos EUA por outras origens pode abrir oportunidades para o Brasil em outros mercados, à medida que esses países redirecionem sua oferta para os americanos.
O movimento já está acontecendo. No último final de semana, a China anunciou que aprovou 183 novas empresas brasileiras de café para exportar produtos para o mercado chinês.
A abertura para negociações das autoridades em Washington também deve estar ligada ao impacto dos preços na inflação. Quanto maior o impacto do produto na cesta de consumo americano, mais flexível a equipe de Trump pode ser.
"O consumo já vinha sendo pressionado por fatores econômicos e inflacionários, e o aumento de 50% nos custos pode tornar o café menos acessível ao consumidor final, avalia o analista do Rabobank.
O principal dado de inflação observado pelo banco central americano para tomar sua decisão de juros, o núcleo do PCE, subiu para 2,8% ao ano em junho, acima da meta de 2%. Os preços que mais pressionaram o resultado foram itens importados. As tarifas também já começaram a pesar no mercado de trabalho, entre os meses de maio e julho.
Um diretor de uma grande gestora brasileira que atua nos Estados Unidos afirma que o presidente americano é "narcisista" e se perceber que as tarifas estão afetando sua popularidade, vai recuar.
Portanto, o futuro das exportações brasileiras aos Estados Unidos pode depender do quanto a política de Trump pode ser um tiro no pé ou não.



