Análise: Brasília se transformou em um grande balcão de negócios
Câmara e Senado aprovaram em votações rápidas mudanças nas carreiras de servidores do Legislativo, com possibilidade de salários de até R$ 77 mil
O Congresso Nacional aprovou na última terça-feira (3) um projeto que beneficia servidores do Legislativo com reajustes salariais e a possibilidade de ganhos acima do teto constitucional. Em votações consideradas rápidas e sem ampla discussão, tanto a Câmara quanto o Senado deram aval às mudanças nas carreiras de seus funcionários.
O pacote aprovado inclui a possibilidade de servidores receberem indenização por dias de folga não usufruídos, com valores que não entram no cálculo do teto constitucional - atualmente fixado em R$ 46.366,19, equivalente ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Com esse mecanismo, as remunerações podem chegar a até R$ 77 mil mensais.
Rita Mundim, colunista do CNN Money, afirma que "Brasília se transformou em um grande balcão de negócios, entre as castas dos poderes, que resolvem o que eles vão ganhar, como que eles vão ganhar, quanto que eles vão trabalhar e mandam a conta para nós."
Mundim destaca que o impacto fiscal dessa medida para os cofres públicos será de aproximadamente R$ 5,3 bilhões. A relatora do projeto no Senado indicou que o orçamento comporta esse aumento de despesas, apesar do desequilíbrio fiscal recorrente nas contas públicas brasileiras.
Disparidade salarial
O caso reacende a discussão sobre a disparidade salarial entre servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada no Brasil. Segundo dados do censo de 2022 citados durante a discussão do projeto, o salário médio de um funcionário público, corrigido pela inflação, seria de R$ 4.741, enquanto um trabalhador do setor privado receberia em média R$ 2.761 - uma diferença de 72%.
Para Rita Mundim, os projetos demonstram um desvio de atenção em relação a mudanças que poderiam melhorar a qualidade dos serviços públicos. "O foco tem que ser na produtividade do funcionário público para entregar serviço de qualidade à população", afirma a colunista.
A aprovação ocorre em um momento em que o país discute a necessidade de uma reforma administrativa e enfrenta desafios fiscais significativos, com uma dívida pública que ultrapassa os R$ 10 trilhões e pagamento anual de aproximadamente R$ 1 trilhão em juros.



