Coronavírus: quarentena faz demanda em iFood, Rappi e vendas online dispararem


Manuela Tecchio* do CNN Brasil Business, em São Paulo
20 de março de 2020 às 13:42 | Atualizado 23 de março de 2020 às 08:54
Entregador do Rappi

 

Foto: Luisa Gonzalez/Reuters

Depois que autoridades da saúde passaram a recomendar quarentena em combate à pandemia de coronavírus no mundo, já é possível notar uma redução da circulação de pessoas nas ruas de grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro. A situação deve ainda se agravar à medida em que os governos das principais capitais do país decretam o fechamento do comércio e estabelecimentos de serviço.

O isolamento, ainda que parcial, já gerou impacto direto em aplicativos de entrega e sites de compras online, que apresentaram aumentos expressivos na demanda. O movimento acompanha a mesma onda que atingiu os Estados Unidos e fez com que a Amazon, uma das gigantes do setor, contratasse 100 mil funcionários para conseguir dar conta das entregas.

No Brasil, as vendas online também passaram a sentir os impactos. Dados da Compre e Confie, empresa do ramo de antifraude no comércio online, mostram que a alta das vendas totais foi de 40% nos primeiros 15 dias do mês. Só os itens de saúde tiveram crescimento de 124%. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), desde o fim de semana, algumas lojas virtuais registraram alta de mais de 180% em transações nas categorias de alimentos e saúde. 

Já nos famosos aplicativos, os que são voltados à conveniência e alimentação lideram a alta, embora eletrônicos, tenham se destacado nas buscas. Um exemplo são os notebooks, que tiveram um crescimento de 15% nas buscas. Houve também um aumento geral de 32% no número de usuários que fizeram sua primeira compra online, considerando todo o comercio eletrônico.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira Online to Offline (ABO2O), Vitor Magnani, o aumento da procura de produtos eletrônicos está diretamente relacionada ao grande número de trabalhadores que agora entra em sistema de home office e empreendedores que precisam de equipamentos para trabalhar em casa. 

“Nesses primeiros dias, já identificamos problemas de transferência digital. São autônomos que ofereciam produtos e serviços apenas fisicamente e agora sofrem para estarem presentes no online com a velocidade necessária. Nem todos conseguem, especialmente pequenos e médios.”

Menos gente na rua, mais pedidos online

Para evitar o contágio e a propagação da doença, muitos consumidores passaram a substituir as idas aos supermercados, pelos "corredores digitais". É o que mostra um levantamento do iFood. Segundo dados da startup, pedidos por materiais de limpeza e álcool gel apresentaram um aumento de 435% em relação ao mesmo período da semana passada, quando a capital paulista já apresentava os primeiros casos da doença.

Ao mesmo tempo, alimentos e bebidas menos perecíveis também se destacaram nas buscas. Caso dos peixes enlatados, com alta de 91%, arroz e feijão, que subiram 45% e sucos industriais, com 40% de aumento. 

No último final de semana, houve também um crescimento de 73% no consumo de lanches e refeições que não são considerados pratos principais, em comparação a outras sextas e sábados de 2020. São itens como sorvetes, congelados e produtos de padarias.

Embora a demanda tenha aumentado, o iFood ainda não informou se haverá um aumento na sua base de entregadores.

Já entre os clientes do aplicativo espanhol Rappi, o número de pedidos triplicou nas últimas duas semanas em relação à quinzena anterior. Houve um aumento geral na América Latina, de cerca de 30% nas compras, principalmente em setores como farmácia, restaurantes e supermercado. “As pessoas se sentem mais seguras fazendo um pedido via Rappi e evitando concentrações massivas de pessoas”, disse a assessoria da marca.

Entregas personalizadas

Para evitar o contágio e fortalecer as vendas pelos aplicativos, tanto o iFood quanto o Rappi passaram a incluir um serviço personalizado em sua entrega, o chamado: “entrega sem contato”. 

O novo "serviço" é disponibilizado no momento em que o usuário faz compra e possibilita que o pedido seja entregue em alguma superfície ou na porta do cliente, evitando, assim, qualquer tipo de contato físico. 

Todas as companhias afirmaram estar orientando tanto funcionários quanto entregadores e parceiros a seguir as normas de prevenção recomendadas pelas autoridades de saúde e distribuir materiais de prevenção, como luvas, máscaras e álcool gel. 

Efeito Amazon

Nesta segunda-feira (16), a Amazon anunciou a contratação de 100 mil funcionários para suprir o aumento expressivo da demanda nos Estados Unidos. Enquanto diversos setores da economia brasileira estimam demissões, principalmente na área de serviços físicos, as empresas de e-commerce e aplicativos podem ir na direção contrária. 

Segundo Vitor Magnani, o efeito Amazon pode, sim, se repetir nas empresas brasileiras. Em sua análise, porém, ele explica que mesmo com toda a demanda, a contratação de novos empregados depende de outros fatores, como a viabilidade das vendas. 

“Os dados não são conclusivos, mas pode sim ter um aumento. Entretanto, o setor está preocupado com as restrições de entregas e abastecimentos em alguns estados, que estão começando a restringir fronteiras”, diz.

O presidente da ABComm, Maurício Salvador, o setor está preparado para aumentos sazonais, como ocorre na época da Black Friday, mas admite que algumas lojas virtuais "já estão comunicando em seus sites possibilidade de atrasos e substituição de produtos por conta da ruptura de estoques."

 

*Com colaboração de Diego Viñas e Agência Estado