Teremos um mundo antes e outro depois do coronavírus, diz presidente da Eurasia


Paula Bezerra Do CNN Business, em São Paulo
25 de março de 2020 às 10:39 | Atualizado 25 de março de 2020 às 15:14
Ian Bremmer, presidente da Eurasia

Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, afirma que o grande perigo para o Brasil após a pandemia, será a continuidade do processo de reformas econômicas

Foto: Richard Jopson/Erasia

“Há muita concorrência, mas o líder global mais ineficaz ao combater o coronavírus é o presidente Jair Bolsonaro.” A dura crítica ao presidente brasileiro foi quase um desabafo de Ian Bremmer, presidente da consultoria americana Eurasia, considerada uma das mais importantes do mundo em análises de risco. Na noite do domingo (22), Bremmer não pode deixar de comentar os últimos pronunciamentos de Bolsonaro —principalmente em relação ao trato com os governadores do Brasil. “Neste fim de semana, ele está criticando todos os governadores que acionaram medidas de bloqueio. Desta maneira, ele afetará seriamente seu mandato”, completou o CEO.  

O duro tom à postura do presidente brasileiro não é à toa: Bremmer acredita que o Brasil está bem atrás dos outros países no combate à COVID-19. Na noite de terça-feira (24), por exemplo, Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional desencorajando o isolamento social, fechamento de escolas e comércios - indo na contratamão das orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde do Brasil.

"Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de 'terra arrasada', com proibição do transporte, fechamento do comércio e confinamento em massa. O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o de pessoas com mais de 60 anos. Então, por que fechar escolas?", afirmou o presidente durante o pronunciamento. 

A Eurasia, assim como outras entidades internacionais, está preocupada e cautelosa com os rumos que a pandemia pode tomar. Com mais de 380 mil casos de coronavírus no mundo e 16 mil mortos até agora, inúmeros governos passaram a anunciar medidas econômicas e sociais para conter os avanços da doença — e os impactos à população e ao funcionamento de seus países e mercados financeiros. 

A injeção de estímulos econômicos, porém, não tem sido o suficiente para afastar a iminente sombra da recessão global. Órgãos internacionais, como o Fundo Monetário Mundial (FMI), já projetam recessão econômica para 2020 — pior que a de 2008, segundo o FMI. 

Riscos causados pelo coronavírus

Na última semana, a consultoria liderada por Ian Bremmer revisou a publicação anual “Top Risks 2020”. Divulgada desde 1998, o estudo traz os principais temas que avaliam como risco geopolítico e econômico, para que analistas de mercados e instituições possam ficar atentos com os rumos da sociedade. Em 2020, porém, a análise teve que ser atualizada com apenas dois meses de publicação. 

Dos 10 riscos avaliados pela consultoria, ao menos seis foram pontuados como “grau de risco maior” e/ou “grau de risco significativamente maior” por conta do coronavírus. 

Segundo Ian Bremmer, as crises econômica e de saúde podem durar meses. Os verdadeiros impactos, no entanto, virão depois. “Veremos um mundo antes e outro depois do coronavírus”, diz em entrevista concedida ao CNN Business.

Para ele, a pandemia deixou o cenário como se “estivéssemos desligando a economia mundial por alguns meses.” Além disso, destaca a apatia de países como os europeus e os Estados Unidos, e credita a liderança do problema para a China.

Confira, a seguir, trechos da conversa:

CNN Business – No Brasil, parte da população está descontente com o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro.
Ian Bremmer – É que, até o momento, o chefe do governo brasileiro não está lidando muito bem com a pandemia. E isso não ocorre apenas no Brasil. Muitos outros países também estão errando, como os governos do presidente americano Donald Trump e o do Andrés Manuel López Obrador, no México.  

E qual será o impacto da pandemia para o Brasil? 
É possível reverter o cenário, se os governantes passarem a levar o problema a sério e, em breve, começarem a trabalhar com uma estreita colaboração com o Congresso. O grande perigo para o Brasil é que, no médio prazo, toda a situação dificultará claramente a continuidade do processo de reformas econômicas. A agenda de reformas terá que ficar para depois, e dentro de um ambiente global que será ainda mais desafiador. Você ficará ainda menos otimista em relação ao seu país. 

A Eurasia trabalha com o risco do Bolsonaro sofrer impeachment?
Nós não estamos trabalhando com um cenário de impeachment no Brasil neste momento. 

Na análise realizada pela Eurasia, vocês avaliaram que o mundo, agora, “encara a primeira recessão geopolítica” e que “o ‘timing’ não é nada bom”. O sr. poderia explicar um pouco mais do porquê dessa afirmação?
Temos recessões econômicas e, desde a Segunda Guerra Mundial, elas acontecem aproximadamente a cada sete anos. Estamos entrando em uma agora. Mas também temos recessões geopolíticas e essas acontecem com muito menos frequência. Elas ocorrem quando a ordem geopolítica ‘se perde’ e o equilíbrio de poder não reflete mais o direcionamento que temos, e que costumam acontecer no mundo. 

Quais seriam as razões para isso acontecer?
Isso tudo aconteceu por três razões. A primeira é porque, dentro da democracia, grande parte da população acredita que as instituições não são mais legítimas e não refletem mais os interesses dela. Já a segunda, é porque agora temos alianças internacionais fragilizadas e fracas. Os americanos já não querem mais ser o "policial global" ou o arquiteto do comércio internacional e muito menos líder dos valores globais. Na Europa, há toda questão com o Brexit. E os chineses, agora, estão promovendo uma arquitetura econômica competitiva (para competir com os EUA). Por fim, grupos como FMI, Banco Mundial e o G7 estão sem sintonia com as atuais lideranças mundiais. E é por isso que esta é uma recessão geopolítica muito mais problemática. É bem diferente de quando aconteceu o atentado de 11 de setembro, por exemplo.

O  sr. citou o comportamento da China e a desglobalização. A relação Estados Unidos e China já estava estremecida. Agora, com a pandemia, a tendência é piorar? 
Sim. Já tivemos uma profunda desglobalização no setor de tecnologia entre os Estados Unidos e a China. Agora, é claro que vai se aprofundar muito mais, trazendo impactos para a fabricação e para a cadeia produtiva. E isso acontecerá por dois motivos. O primeiro, é que estamos em um momento de bonança econômica em termos de cadeia produtiva. Isso é ótimo para a eficiência, mas ruim em momentos de crise e choque, como o de agora. O que precisamos é de alternativas em cadeias de suprimentos, para garantir mais resiliência em tempos de crise e deixar o produto mais próximo do cliente. O segundo motivo, é justamente a relação entre os dois países, que está cada vez pior, com trocas de acusações sobre a motivação e reflexos da pandemia, entre outras coisas. 

E como isso impactará o comércio mundial? 
Já estamos sentindo grandes impactos. Temos uma alta pressão sobre os caixas dos grandes varejistas. Além deles, há empresas dos setores de turismo, como os hotéis, que estão sofrendo. É como se você estivesse desligando a economia mundial por alguns meses. Primeiro, aconteceu na China. Agora, nos Estados Unidos, na Europa e em vários dos mercados emergentes. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. Sem contar a guerra do petróleo, envolvendo a Rússia e a Arábia Saudita. 

Qual a principal diferença entre a crise de 2008 e a de agora?
A crise de 2008 começou no setor financeiro e depois teve efeitos sobre a economia global, em um cenário em que a política era resiliente. Já a crise de 2020 começa em uma economia real fechando as cadeias de suprimentos e a demanda dos consumidores por causa de uma doença. O mundo político, agora, parece resiliente e o setor financeiro mais robusto. Mas, em 2008, os americanos assumiram a liderança em resposta, juntamente com seus discrepantes. Hoje esse papel está a cargo da China. Americanos e europeus parecem mais fracos. 

Quais serão as dimensões do impacto do coronavírus para o mundo?
O coronavírus e a crise causada por ele pode durar alguns meses, mas o mundo que encontraremos depois disso será muito diferente. Veremos um mundo antes e outro depois do coronavírus.

E para os mercados emergentes? 
É claro que os emergentes serão mais afetados pela crise, até porque eles não têm muita resiliência, nem muito dinheiro. Além disso, será mais difícil obter capital, pois, em um ambiente arriscado, os investidores aplicam o dinheiro em ativos mais seguros. Eles vão colocar o dinheiro em países como os Estados Unidos. As crises financeiras que assistimos no Líbano e na Argentina, por exemplo, irão se espalhar para outros países emergentes. No Brasil será um pouco diferente, porque é um mercado emergente mais forte. E você tem um governo que está comprometido com reformas econômicas importantes.