Inflação de 2020 deve ser a mais baixa em 22 anos – e por que isso não é bom


Juliana Elias do CNN Business, em São Paulo
15 de abril de 2020 às 08:30 | Atualizado 15 de abril de 2020 às 12:11
Mulher faz compras no supermercado

Mulher faz compras em um supermercado de São Paulo (11.JAN.2017): inflação muito baixa reflete também um crescimento baixo com demanda reprimida

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

O choque do coronavírus na economia deve fazer o Brasil ter, em 2020, a segunda inflação mais baixa já registrada em todo o Plano Real, criado em 1994 – as projeções para o ano estão na casa de 2,5%, o que só perderia para 1998 (1,65%). O choque também torna real a chance de o índice de preços ficar menor do que o limite mínimo da meta a ser perseguida pelo Banco Central, que é de exatos 2,5%. Nos 21 anos desde que o Brasil possui um sistema de metas para a inflação, isso só aconteceu uma vez, em 2017 (veja curiosidades sobre o histórico do regime de metas no Brasil ao final do texto).

Para um país que veio de décadas de hiperinflação, a perspectiva de inflação baixa é, a princípio, uma notícia boa. O problema é que inflação muito baixa, e por muito tempo, começa a flertar com o outro lado da mesma moeda – a deflação, ou a queda generalizada de preços –, o que é igualmente ruim para o país. É o que muitos chamam de “japonização” da economia, em referência ao estado de inflação e crescimento muito baixos em que o Japão está preso há décadas.

"Inflação muito alta corrói o poder de compra e compromete o crescimento, que foi o que aconteceu no Brasil em 2014; mas inflação muito baixa reflete também um crescimento baixo com demanda reprimida”, diz Paulo Picchetti, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) especializado em inflação e em ciclos econômicos. 

“Em uma deflação, as pessoas empobrecem, os salários não crescem, a receita das empresas cai e elas param de investir”. Isso, explica, coloca o país em uma espiral de recessão que só retroalimenta mais recessão, o que não é exatamente bom.

Quer dizer, inflação persistentemente baixa pode até criar pechinchas, mas são pechinchas que ninguém consegue comprar - ela já é o sintoma de uma economia onde as pessoas pararam de consumir. Isso faz com que as fábricas, comércios e serviços, na dificuldade de vender, vão deixando de aumentar seu preços.

Há três anos abaixo da meta

O Brasil não está no terreno da deflação, mas já vem há três anos tendo dificuldade de dar um pouco mais de ânimo tanto para seus preços quanto para seu PIB. Na maior parte do tempo desde 2017, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação, rodou na casa dos 3%, bastante abaixo da média histórica (que era de 6,8% até 2016) e também fora do alvo da meta estipulada pelo BC, que foi de 4,5% a 4% nesse período. Nesses mesmos três anos, o PIB do país cresceu pouco mais de 1% ao ano.

Para 2020, a meta de inflação estipulada é de 4%, sendo toleradas oscilações dentro de uma banda que vai de 2,5% a 5,5%. Já as projeções de mercado para o IPCA são de 2,51% ao fim de 2020, em média – quer dizer, no limite do piso da meta. Alguns economistas já falam até em um resultado mais próximo do 2% ou mesmo abaixo dele, por conta dos descontos forçados que ainda devem vir com a crise do coronavírus. 

“Há um consenso internacional de que inflação abaixo de 2% não é desejável, porque o país fica muito suscetível à deflação caso haja um choque como o de agora, e porque o Banco Central vai perdendo margem de atuação”, diz o economista José Luiz Oreiro, professor da Universidade de Brasília.

Quer dizer, se a inflação seguir caindo, mas os juros já estiverem baixos, o Banco Central vai ficando sem ter o que cortar – é o que já acontece atualmente na Europa e nos Estados Unidos, que estão com juros a zero ou negativos e, mesmo assim, sem crescimento econômico.

Para países emergentes, essa “inflação mínima” tolerável deveria ser maior, próxima dos 5% na opinião de Oreiro. “São economias mais suscetíveis a choques externos, a fuga de capitais, e que precisam fazer ajustes com mais frequência”, diz.

Meta nunca cumprida

O sistema de metas para a inflação foi um padrão estabelecido em diversos países no final dos anos 1990 e usado até hoje para moderar os preços. A ideia é ter um alvo de referência para que a inflação não dispare e fique fora do controle, e nem perca força demais com crescimento muito baixo. É papel do Banco Central tentar manter o país no centro dessa meta por meio, principalmente, da taxa de juros, a Selic, que é definida por ele: juros baixos estimulam o crédito e o consumo e fazem a inflação subir, enquanto juros altos servem para o oposto.

No Brasil, a meta tem um alvo central (hoje em 4%) e pequenas bandas de tolerância para mais e para menos. Essas margens de tolerância já foram criadas para comportar os choques externos que possam desviar a rota do centro (como disparadas de preços internacionais ou pandemias). Por isso, não deveria haver desculpas para descumpri-las. O objetivo deve ser sempre estar o mais próximo possível do alvo – coisa que praticamente nunca aconteceu nestes 21 anos de regime de metas no Brasil. Nos 18 primeiros, o IPCA passou praticamente inteiros acima da faixa central. Nos 3 últimos, foi quase o tempo todo abaixo.

A cada vez que o país fecha o ano com o IPCA furando o teto ou o piso de tolerância, o presidente do Banco Central deve fazer uma carta aberta explicando as razões por não ter cumprido sua missão. Desde 1999, isso aconteceu cinco vezes, sendo que as quatro primeiras foram por estouros para cima: 2001, 2002, 2003, 2015 e 2017. 

Juros em níveis normais

O fato é que foi só após esse triênio atípico de inflação baixa que o Brasil começou a convergir para níveis similares ao de outros países tanto em termos de preços quanto de juros.  

“Até 2015, o Brasil sempre ficava no topo da lista dos maiores juros reais do mundo, revezando o primeiro lugar com a Rússia, a Turquia ou a China”, diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset. “De 2016 para frente, nossos juros caíram muito, e esse quadro começou a mudar”. A Infinity faz mensalmente o ranking dos maiores juros reais (o rendimento do juro descontada a inflação) em um grupo de 40 países. Atualmente, o Brasil é o 9º da lista. 

A Selic, taxa de juro básica do país, saiu de 14,25% em 2015 para 3,75% em março, o menor nível de sua história – e isso só foi possível porque a inflação também despencou. Mais longe no tempo, nos anos 1990 e início dos 2000, a Selic chegou a ser maior que 20%.

Comparado a países desenvolvidos, como Japão, França ou Alemanha, que já têm juros negativos, o Brasil ainda destoa. Mas no grupo de emergentes já deixou de ser uma aberração. Levantamento feito pela Infinity Asset a pedido do CNN Business mostrou que, em um grupo de 12 das principais economias em desenvolvimento, o Brasil, que foi o primeiro por anos, está hoje na 9ª posição, tanto em nível de juros quanto de inflação.

Fatos sobre o regime de metas no Brasil

O regime de metas para inflação foi implantado no Brasil em julho de 1999, poucos meses depois de o país abandonar o regime de câmbio fixo e rever os papéis do Banco Central na economia.

O CNN Business fez um levantamento para verificar em quantos meses, desde janeiro de 2000, a inflação de fato realizada (considerado o IPCA acumulado em 12 meses) ficou dentro da meta estipulada à época. Nos 243 meses de lá até março de 2020, em apenas um a variação do índice de preços acertou exatamente o alvo: julho de 2009.

Veja outras curiosidades sobre o período: 

- O A meta a ser perseguida pelo Banco Central já foi revista algumas vezes. A primeira e mais alta (considerado o centro) foi de 8%, em 1999. A mais baixa foi de 3,25%, em 2003, revisada em poucos meses. O período mais longo sem alterações foi de 2005 a 2018, com o alvo mantido em 4,5%.

- A inflação ficou acima do centro da meta em 184 meses dos 243 considerados (75,7% do total)

- A inflação ficou abaixo do centro da meta em 58 meses dos 243 considerados (23,8% do total). Destes, 30 foram nos 10 anos até 2010 e 28 nos três anos de 2017 a início de 2020. Nenhum mês entre 2011 e 2016 registrou inflação abaixo do centro da meta.

- Dos 243 meses analisados, a inflação ficou a menos de 0,25 ponto do centro da meta, para mais ou para menos, em apenas 24 (9,9% do total)

- 2009, 2010 e 2018 foram os anos com mais meses próximos do centro da meta: quatro meses cada (considerada a distância máxima de 0,25 ponto para mais ou para menos)

- Em apenas um mês, de todos os 243, a inflação ficou exatamente no centro: julho de 2009 (meta e inflação de 4,5%). A inflação ficou a menos de 0,1 ponto do alvo em outros 13 momentos. 

- A inflação descumpriu e furou o teto da meta em 80 meses (32% do total); todos eles anteriores a 2016

- Os dois períodos mais longos de IPCA acima do teto foram de fevereiro de 2001 a dezembro de 2003 (35 meses) e de janeiro de 2015 a novembro de 2016 (23 meses)

- A inflação descumpriu e ficou abaixo do piso da meta em 12 meses (4,9% do total); todos eles posteriores a 2017, sendo 11 em sequência (de julho de 2017 a maio de 2018)

- A inflação mais alta registrada foi de 17,24%, em maio de 2003 (a meta era de 4%, com piso de 1,5% e teto de 6,5%)

- A inflação mais baixa registrada foi de 2,46%, em agosto de 2017 (a meta era de 4,5%, com piso de 3% e teto de 6%)