FGTS já rende mais do que poupança, Tesouro Selic, CDB e LCA


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
23 de junho de 2020 às 11:16 | Atualizado 23 de junho de 2020 às 11:19
Notas de real
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O mais recente corte da Selic, a taxa básica de juros do país, para 2,25% ao ano, conseguiu realizar uma proeza que jamais tinha sido imaginada antes no país: tornou o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) uma das aplicações de renda fixa mais rentáveis que existem. 

Isso acontece porque a remuneração dada pelo FGTS a todo o dinheiro do trabalhador que fica depositado ali é fixa, de 3% ao ano mais a TR, uma taxa de referência do sistema financeiro que está atualmente zerada. Até bem pouco tempo, esses 3% tinham pouca representatividade perto de uma Selic que passava dos 6% ou 10% ao ano e sequer cobriam a inflação, que ficou acima dos 4% por praticamente todos os anos desde o Plano Real.

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Por outro lado, boa parte das principais opções de investimentos de renda fixa do mercado acompanham a Selic e, portanto, também caem com ela – é o caso de investimentos como a poupança e o Tesouro Selic, que são diretamente atrelados a ela, e de CDBs, LCAs e LCIs que acompanham o CDI, uma taxa do sistema bancário que replica de perto a Selic. 

Na semana passada, porém, o Banco Central anunciou um novo corte de 0,75 ponto percentual na taxa básica, o que a reduziu dos 3% ao ano para os 2,25% atuais - é o menor nível de sua história e, também, a primeira vez em que fica menor do que os juros pagos pelo Fundo de Garantia às contas dos trabalhadores. A poupança, por exemplo, remunera sempre 70% da Selic, o que significa que o rendimento anual dela passou a ser agora 1,57% – ou praticamente a metade dos 3% do FGTS.

“O FGTS se tornou uma aplicação espetacular”, diz o coordenador do Laboratório de Finanças do Insper, Michael Viriato. “É um fundo de renda fixa, de baixíssimo risco, com rentabilidade garantida e que está rendendo mais que as outras alternativas mais simples.”

Viriato lembra ainda que, desde 2017, o fundo passou a distribuir anualmente parte de seus lucros aos cotistas  – “isso pode dar um rendimento total superior a 6%, e isento de impostos”, diz. Na distribuição dos resultados de 2018, por exemplo, 100% dos R$ 12,2 bilhões de lucro foi repartido proporcionalmente entre todos as contas do FGTS, o que ampliou o rendimento total do trabalhador naquele ano dos 3% fixos para 6,18%. 

O FGTS é um fundo composto por um dinheiro depositado pelas empresas a seus funcionários e é administrado pela Caixa Econômica Federal. Os recursos são usados, entre outras coisas, para financiamentos a obras de saneamento, habitação e infraestrutura, e é dessas atividades que vêm os lucros.

133% do CDI 

De acordo com cálculos feitos por Viriato, com a Selic 2,25% e o FGTS a 3%, o fundo do trabalhador passa a render mais – bem mais – do que praticamente qualquer outra aplicação tradicional de renda fixa. 

No caso do 1,57% da poupança, por exemplo, o FGTS já entrega o dobro. Tanto a poupança quanto o FGTS são livre de Imposto de Renda (IR).

O Tesouro Selic é uma opção do Tesouro Direto que remunera exatamente a Selic, 2,25% ao ano, portanto. Mas ele sofre redução de IR sobre o rendimento e ainda paga uma taxa anual de custódia de 0,25% para a B3. Com tudo isso, o rendimento líquido máximo deste título passa a ser de 1,7% ao ano – é um pouquinho mais que os 1,6% da poupança e bastante menos que os 3% do FGTS.
 
É o mesmo caso de um CDB que pague 100% do CDI. Com o corte da Selic, o CDI também passa a ficar próximo de 2,25%. O rendimento líquido máximo dele será de 1,9% ao ano.

Tanto CDBs quanto títulos públicos pagam IR, em uma tabela regressiva que vai de 22,5% do rendimento, para quem resgata antes de 6 meses, a 15%, para prazos superiores a 2 anos. As contas do rendimento líquido levaram em consideração a menor alíquota. 

As LCAs e LCIs são isentas de IR, o que significa que se remunerarem 100% do CDI pagarão 2,25% limpos ao ano para o investidor – ainda abaixo do FGTS. 

De acordo com Viriato, a remuneração atual de 3% no FGTS passa a ser o equivalente a 133% do CDI, totalmente livre de impostos. Teria que ser essa a remuneração de uma LCA ou LCI para se equiparar a ele. 

No caso dos CDBs, a remuneração deve ser de pelo menos 158% do CDI, com um prazo superior a 2 anos, para se equiparar ao que o FGTS está pagando – taxa que praticamente inexiste no mercado atualmente, mesmo entre bancos médios.

Só tirar em caso de dívida ou demissão

A grande desvantagem do FGTS em relação aos demais é que a liquidez dele, ou seja, a facilidade com que a pessoa pode resgatar seu dinheiro, é baixíssima. 

Ele só pode ser acessado em situações muito específicas pré-definidas, como em caso de demissão sem justa causa, doença grave ou na compra de um imóvel. Isso faz do fundo de garantia, por natureza, um investimento de longuíssimo prazo

Uma medida feito pelo governo para aliviar as dificuldades financeiras em meio à pandemia de coronavírus irá permitir aos trabalhadores sacarem R$ 1.045 do que tiverem em conta, a partir de 29 de junho. Outra medida, do ano passado, também criou a modalidade do saque-aniversário, que permite resgates anuais a quem aderir a modalidade.

Nas duas situações, Viriato, do Insper, não recomenda retirar o dinheiro da conta, dado o rendimento atual, a não ser que seja extremamente necessário. “Só vale para quem estiver endividado, para pagar a dívida, que certamente tem juros maiores, ou para quem for comprar um imóvel, que também terá taxas mais altas no financiamento.”

Viriato também sugere o resgate emergencial de R$ 1.045 para quem estiver passando por dificuldades para pagar as contas básicas do dia a dia. Já a quem está sendo demitido, e tem o direito de resgatar todo o saldo da conta, o saque também é recomendado. “Neste caso são pessoas que vão ter que se segurar e passar por um período de transição até o próximo emprego, e é um dinheiro que se torna necessário”, disse. 

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