Taxa sobre Tesouro Direto já tira até 11% do rendimento; veja para onde 'fugir'


Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
02 de julho de 2020 às 10:33 | Atualizado 02 de julho de 2020 às 18:27
Homem olha para gráfico de investimento

Com queda na Selic, taxa de administração da Selic já abocanha quase 12% dos ganhos 

Foto: Frank Busch/Unsplash

Com a queda paulatina na taxa básica de juros do país, a Selic, caem também os rendimentos dos títulos públicos, que a acompanham de perto. Isso está fazendo com que o retorno cada vez menor dos investidores perca uma parcela cada vez maior com uma taxa fixa de custeio que é descontada de todos as aplicações em títulos públicos – a taxa de custódia da B3. 

Ela é a responsável por fazer com que os ganhos líquidos dados pela principal opção do Tesouro Direto, o Tesouro Selic, já sejam menores do que o da a poupança, de CDBs equivalentes e de alguns fundos de renda fixa, a depender da taxa de administração deles. 

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A taxa de custódia dos títulos públicos é uma cobrança de 0,25% ao ano feita sobre o valor total aplicado, destinada a pagar o serviço de armazenamento e de gestão de dados prestado pela B3 ao Tesouro. A B3 é a dona da bolsa de valores brasileira e também detém alguns dos principais sistemas de custódia e armazenamento do sistema financeiro brasileiro. A taxa já foi reduzida em outros momentos de queda da Selic e, em nota ao CNN Business, tanto o Tesouro Nacional quanto a B3 não descartaram novas revisões.

O peso da taxa é especialmente sensível para o Tesouro Selic, a opção dos títulos públicos que remunera exatamente a Selic – a taxa básica, que começou 2020 em 4,50% ao ano, já foi cortada à metade e está atualmente em 2,25%. A remuneração do Tesouro Selic é sempre muito próxima disto. O problema é que 0,25 desses juros é abocanhado integralmente pela B3, deixando pouco menos de 2% do lucro para o investidor, ainda sujeito a desconto de imposto de renda.

A queda pela metade nos juros, só neste ano, já fez o peso da taxa de custódia sobre o Tesouro Selic dobrar: em janeiro, com a Selic a 4,5%, ela retirava o equivalente a 5,8% do rendimento; agora, com a Selic a 2,25%, tira 11,9%. Nunca essa proporção foi tão alta. 

Quem tem R$ 10.000 aplicados no Tesouro Selic, por exemplo, chegaria a R$ 10.225 ao fim de um ano, ou rendimento de R$ 225. Só que R$ 25,56 disso fica com a B3 – a taxa de 0,25% é cobrada sobre o valor total, quer dizer, sobre os R$ 10.225. Ela é aplicada em duas parcelas, semestralmente, sempre em janeiro e julho. 

A taxa da B3 até já foi mais alta – ela foi reduzida de 0,3% para os atuais 0,25% em janeiro de 2019. Mas, como os juros eram ainda maiores, o desconto passava bem mais desapercebido. Em 2018, por exemplo, com a Selic a 6,5%, a taxa ainda de 0,3% levava 4,9% dos lucros. Em 2016, quando a Selic bateu 14,25%, o peso da cobrança sobre o rendimento era de apenas 2,4%. 

Os demais títulos oferecidos pelo Tesouro Direto também estão sujeitos à mesma cobrança, mas eles não acompanham diretamente a Selic, embora eles sigam as tendências de alta e de baixa. Com prazos mais longos e menos flexíveis, eles oferecem também juros maiores do que a Selic, o que ainda diluiu um pouco mais o peso dos 0,25% da taxa de custódia.

“A taxa de custódia tem como objetivo remunerar a B3 pelos serviços prestados ao Programa Tesouro Direto, como a implementação de melhorias e manutenção dos sistemas necessários ao funcionamento do programa, o fomento ao canal de distribuição por meio do programa de incentivos para as instituições financeiras que oferecem o produto, entre outros”, informou o Tesouro, em nota.

“O Tesouro Nacional e a B3 estão sempre atentos às possibilidades de reduções estruturais da taxa de custódia cobrada pela B3, ou seja, as reduções são sempre realizadas de forma definitiva, como ocorreu em janeiro de 2019”, acrescentou.

Perguntada sobre a manutenção ou possibilidade de redução da cobrança, a B3 também informou, por meio de nota, que “a B3 e o Tesouro Nacional estão sempre atentos a melhorias no programa Tesouro Direto”.

Os títulos públicos podem sofrer, ainda, a cobrança de uma taxa adicional de administração aplicada pela corretora ou banco por onde o investidor faz a compra. Boa parte deles já zeraram essa taxa nos últimos anos, mas ainda há alguns que cobram e é importante checá-la na instituição antes de fazer a aplicação. Essa informação também é encontrada na página do Tesouro Direto

Para onde fugir?

O planejador financeiro José Raymundo de Faria Júnior, certificado pela Planejar, explica que o Tesouro Selic é uma opção mais adequada para a reserva de emergência, isto é, a parte do dinheiro que precisa ser usada com maior frequência ou que tem que estar livre para resgate a qualquer momento. Isso porque ele é a única das opções dos títulos públicos que permite resgate antes da data de vencimento sem risco de perder dinheiro.

Para prazos mais longos, de um anos ou mais, é possível encontrar outras opções de renda fixa que remuneram melhor, inclusive dentro do próprio Tesouro Direto.

Por essa razão, o ideal é comparar o Tesouro Selic a outras opções que também oferecem liquidez diária ou prazos curtos de vencimento. A poupança é seu concorrente mais direto. “Ela já está rendendo mais ou menos a mesma coisa que o Tesouro Selic”, diz Faria.

A poupança remunera 70% da Selic, enquanto o título do Tesouro paga 100% do juro básico, mas a poupança é livre de impostos e taxas. Os títulos públicos pagam imposto de renda sobre o rendimento (veja a tabela de IR ao fim).

Mesmo no cenário de prazo mais longo e imposto mais baixo o Tesouro Selic perde para a poupança: a remuneração dele, já descontada dos impostos e da taxa da B3, ficaria em 1,6% ao ano, o mesmo que da poupança.

CDBs que remuneram 100% ou mais do CDI, e que tenham liquidez diária também saem na vantagem. O CDI é uma taxa praticamente idêntica à Selic e os CDBs também pagam as mesmas taxas de imposto de renda que os títulos públicos. Quer dizer, se um CDB paga 100% do CDI, sua remuneração final será sempre igual à do Tesouro Selic, mas com a vantagem de não ter o desconto de 0,25% pela taxa de custódia à B3. CDBs são emitidos por bancos e não possuem esse tipo de cobrança. 

Faria, da Planejar, destaca ainda a opção de investimentos em fundos DI, que são fundos de renda fixa que acompanham o CDI. Fundos de investimento cobram uma taxa de administração, que também é aplicada sobre o valor total investido, e é para elas que o investidor tem que olhar para saber o que vale mais a pena – elas têm que ser menor do que os 0,25% aplicados pela B3 para valer a pena,

“Há muito fundo que cobra 0,3% ao ano ou mais, aí não compensa, mas já há fundos DI com taxa de administração zero, com liquidez diária e com valores bem baixos de entrada”, diz. “Se a taxa for zero, é uma opção que sempre vai ganhar das outras.”

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