Retorno do futebol: perda bilionária, estádios vazios e briga por direitos de TV


André Jankavski e Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo
08 de julho de 2020 às 20:09
Flamengo e Palmeiras se enfrentam pelo Campeonato Brasileiro de 2019

Flamengo e Palmeiras se enfrentam: clubes podem passar a ser dominantes no futebol brasileiro por problemas financeiros dos rivais

Foto: Amanda Perobelli - 1º.dez.2019/Reuters

A bola voltará a rolar em São Paulo a partir do dia 22 de julho. O governador do estado, João Doria, atendeu a Federação Paulista de Futebol (FPF) e permitiu o retorno do Campeonato Paulista nessa data, desde que os estádios não tenham nenhum torcedor. O Paulistão será o segundo campeonato regional a voltar – o primeiro foi o torneio do Rio de Janeiro. Mesmo assim, o futebol brasileiro precisará enfrentar um cenário com perda bilionária em 2020.

Dois estudos comprovam essa situação. Um levantamento realizado pela consultoria de marketing esportivo Sports Value estima que as receitas dos 20 clubes da primeira divisão do futebol brasileiro devem cair de R$ 6,1 bilhões, em 2019, para um valor entre R$ 3,6 bilhões e R$ 4,3 bilhões.

Já a consultoria EY é um pouco mais otimista (mas não tanto): o impacto da Covid-19 fará com que a receita fique entre R$ 4 bilhões e R$ 4,6 bilhões.

Ou seja, no cenário mais pessimista, o mercado do futebol no Brasil deverá ficar quase 40% menor do que o ano passado. Para se ter uma ideia do tamanho do rombo, a última vez que a receita dos 20 maiores clubes do Brasil ficou abaixo dos R$ 4 bilhões foi em 2011.

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“É uma perda astronômica e sem precedentes e o futebol brasileiro não entendeu que há um mercado a se explorar”, diz Amir Sommoggi, sócio fundador da Sports Value.

O cenário consolidado no fim do ano não deve ser tão diferente dessas previsões. Para realizar os cálculos, a EY considerou volta dos campeonatos estaduais em julho, o início do campeonato brasileiro em agosto e a volta dos continentais, como a Libertadores, no último trimestre. Os estádios, claro, não teriam torcida em nenhum desses momentos.

E isso fará com que a queda seja generalizada em todas as áreas de faturamento dos clubes. Porém, o principal tombo deverá ser na diminuição da receita com transferência de atletas. Com o mercado parado, os clubes podem ter uma redução de até R$ 800 milhões em vendas. Com estádios vazios, as bilheterias trarão um prejuízo entre R$ 306 milhões e R$ 410 milhões, segundo a Sports Value. 

O futebol também começará viver aquele jargão bem repetido atualmente: o “novo normal”. E, em alguns casos, será bem diferente. Um exemplo é a MP 984, que mudou as regras sobre direito de transmissão de eventos esportivos. Além disso, também flexibilizou contratos de jogadores de futebol com os clubes.

O que muda?

O documento assinado pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 18 de junho define que o clube mandante do jogo passa a ter direito exclusivo de vender a exibição das imagens da partida para uma emissora de televisão ou outra plataforma de mídia. Até então, a Lei Pelé previa que os direitos pertenciam aos dois clubes envolvidos na partida.

Na visão de especialistas, isso pode dar uma outra cara para o futebol brasileiro e mais independência aos clubes. Mas a forma como foi realizada – por meio de uma Medida Provisória, que tem 120 dias de prazo de validade e depende da aprovação do Congresso – não foi bem vista. O Flamengo, que encampa a campanha em Brasília, foi visto como privilegiado, na visão de Sommoggi.

“O isolacionismo do Flamengo é péssimo. Assim como a negociação individual dos direitos da TV em voga no Brasil é péssima para a união dos clubes e a possível criação de uma liga”, diz Sommoggi.

As principais ligas europeias têm a comercialização dos direitos de transmissão feita coletivamente. Ou seja, as partes interessadas em transmitir a Liga dos Campeões, Premier League (Inglaterra) e La Liga (Espanha), por exemplo, precisam negociar diretamente com as entidades que organizam os campeonatos.

O mesmo acontece nas ligas dos principais esportes norte-americanos. NBA (baquete), NFL (futebol americano) e MLB (beisebol) vendem os direitos de transmissão em pacotes com todos os times.

Partida entre Los Angeles Clippers e Los Angeles Lakers pela NBA

Partida entre Los Angeles Clippers e Los Angeles Lakers pela NBA: liga americana de basquete vende direitos de transmissão em pacotes que envolvem todas as equipes

Foto: Kirby Lee/USA Today Sports/Reuters

Para Pedro Daniel, da EY, o ideal seria que, em algum momento, os campeonatos de futebol no Brasil seguissem o mesmo modelo praticado lá fora. Segundo ele, esta é a melhor forma do mercado como um todo crescer.

Duas tentativas de independência dos times já foram frustradas por aqui. O Clube dos 13, que reuniu dirigentes dos clubes de maior expressão no Brasil, tentou criar uma entidade para representar os interesses das agremiações coletivamente. Outra iniciativa, esta mais recente, foi a Primeira Liga, que surgiu motivada por insatisfação dos clubes com os campeonatos estaduais.

Brasil a preço de banana

Se atualmente os clubes brasileiros estão sofrendo com a falta de receitas vinda das vendas para clubes do exterior, isso pode mudar em breve. O motivo é óbvio: assim como no Brasil, os clubes lá de fora estão perdendo dinheiro. Para reforçarem seus elencos, precisarão gastar menos – e o mercado brasileiro nunca esteve tão barato.

Nesse cenário, o câmbio é um fator decisivo. Com o real barato, vale a pena para os clubes europeus e asiáticos investirem no mercado brasileiro. O preço dos atletas locais também deve ser um atrativo com o mercado internacional pensando na substituição de bens – os jogadores europeus podem ser caros demais, pelo menos nesse primeiro momento.

“Os atletas do Brasil não são de primeira linha. Os clubes contratam primeiro na Europa. Como o Brasil está na segunda, até terceira linha, os atletas podem ser vistos como bens substitutos. E aí, pode ser que os brasileiros sejam beneficiados”, explica Pedro Daniel, diretor-executivo da consultoria EY.

Porém, isso pode trazer impactos esportivos para o futebol brasileiro. Afinal, se os nossos melhores jogadores poderão ser vendidos a preços baixíssimos para o mercado exterior, a qualidade por aqui ficará comprometida. Logo, as pessoas poderão se interessar menos pelo esporte – e diminuir ainda mais as receitas com outras fontes de renda dos clubes, como os programas de sócio torcedor.

A situação do Corinthians exemplifica bem isso. Em entrevista à CNN, o presidente Andrés Sanchez, afirmou que o faturamento do clube caiu de R$ 40 milhões por mês para R$ 9 milhões. 

“Não só a pandemia, mas com o câmbio desvalorizado qualquer timinho da Europa consegue comprar jogadores do Brasil. Os clubes estão muito mais fragilizados em relação a europeus e árabes do que há seis meses atrás.”

Esse fator poderá trazer uma “espanholização” do futebol – por lá, os times do Real Madrid e do Barcelona praticamente dominam o futebol há anos. Ou seja, clubes em melhores situações financeiras no Brasil devem aumentar ainda mais a distância dos demais, como é o caso de Flamengo, Palmeiras e Grêmio.

Na visão de Daniel, o campeonato brasileiro, marcado pelo alto nível de competitividade, deve ser disputado entre, no máximo, três clubes, afirma o executivo.

Enquanto os campeonatos italiano e alemão, por exemplo, tiveram apenas um campeão – Juventus e Bayern Munique – nas últimas sete edições, o Brasileirão teve quatro vencedores diferentes no mesmo período.

“Aqui, a diferença era muito pequena do primeiro para o décimo colocados (ao fim do campeonato brasileiro). A tendência agora é de centralização em três clubes, no máximo”, afirma Pedro Daniel.

Sócio-torcedor digital

Uma das saídas que os clubes poderiam encontrar para amenizar um pouco a crise é uma transformação digital na relação com os consumidores. Um exemplo ocorreu na Espanha: o Barcelona criou o seu próprio serviço de streaming, o Barça TV+, com diversos conteúdos exclusivos.

O torcedor paga € 3 por mês para ter acesso e a meta do clube espanhol é que o serviço alcance 30 milhões de assinantes – o que daria uma receita de € 1 bilhão ao ano.

“Os clubes precisam entender que eles precisam ter esse contato direto com o torcedor e trazer essas opções para eles, o que ajudaria a compensar as perdas”, diz Sommoggi.

Uma saída seria melhorar os seus programas de sócio-torcedor, que funcionam como uma espécie de programa de fidelidade. “A pandemia forçou uma transformação digital em vários setores, e no futebol não foi diferente”, diz Daniel.

O presidente do Bahia, Guilherme Bellintani, por exemplo, prometeu uma nova modalidade no plano de sócios, voltada para o consumo de conteúdo digital. O cartola falou no Twitter sobre um programa que dará o direito aos assinantes de acompanhar treinos ao vivo e vídeos com bastidores de jogos e viagens. Embarques ao vivo, jogos das categorias de base e entrevistas com os atletas também devem entrar no pacote.

Foi uma saída encontrada pelo executivo para diminuir o prejuízo causado pela Covid-19. Ele mesmo foi um dos defensores da volta responsável ao futebol brasileiro – e, em entrevista à CNN, já afirmou que não enxerga como positiva a volta de torcida ao estádio durante a pandemia. 

Além da promessa, o clube baiano começou a produzir camisas exclusivas para seus sócios. Foi o jeito que o time encontrou de manter a relevância da assinatura mesmo com a suspensão dos jogos, que vão voltar a acontecer sem a presença de público. Os outros clubes optaram por vantagens financeiras, concedendo aos sócios descontos em ingressos para os jogos quando houver participação de público e descontos nas compras de camisas.

Depois de ver queda de R$ 1 milhão na receita em abril, o Internacional lançou uma campanha chamando os torcedores para ajudar o clube em momento de dificuldades financeiras. Deu certo: em junho, a receita cresceu 28% na comparação a maio. O programa do time gaúcho dá desconto em serviços de streaming e, dependendo do plano, o direito de participar da vida política do clube.

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