Uber Eats vai às compras para ser superapp de conveniência – e mais rentável


Paula Bezerra, do CNN Brasil Business, em São Paulo
08 de julho de 2020 às 08:48 | Atualizado 16 de julho de 2020 às 11:45

Diante de um prejuízo líquido de US$ 8,5 bilhões em 2019 e de uma pandemia sem precedentes, a gigante de tecnologia Uber quer seguir à risca sua promessa de se tornar rentável – e ainda mais interessante aos investidores. Isso porque, desde o seu lançamento, a empresa de tecnologia nunca, de fato, deu lucro aos seus acionistas. Com esse cenário à mesa, Dara Khorowshahi, CEO da gigante global de tecnologia, tomou uma decisão óbvia: fortalecer e expandir o negócio de delivery, tornando o Uber Eats mais robusto. 

A medida não foi à toa. Antes mesmo do isolamento social motivado pela Covid-19, o segmento de entregas conquistava cada vez mais consumidores ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, o balanço da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que o setor de delivery tem movimentado ao menos R$ 11 bilhões ao ano. Durante a pandemia, 53% dos restaurantes só operavam pelos apps de delivery.  

Já diante do novo normal imposto pela pandemia, o Uber Eats viu o número de restaurantes, farmácias, lojas de conveniência e outros estabelecimentos crescer 75% na América Latina, um volume 10 vezes maior que o 'antigo normal'. Agora, a empresa acirra a disputa com os concorrentes Rappi e iFood em busca da liderança do mercado. Na terça-feira (07), o braço de alimentação e delivery da Uber anunciou a parceria com a chilena Cornershop para, assim como as concorrentes, também operar no segmento de compras de supermercados. 

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A opção estará disponível em 11 cidades do Brasil – como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, entre outras – tanto por meio do app da Uber, quanto no do Uber Eats. Apesar de ainda ter uma limitação quando comparado com a concorrência, o segmento é uma das grandes apostas da gigante de tecnologia. Isso porque, além do Brasil ser um dos maiores mercados da empresa, o Uber como um todo possui 23 milhões de usuários ativos todos os meses no, além de um grande grupo de pessoas realizando novos cadastros para experimentar os apps. 

“Com a integração da Cornershop nos aplicativos Uber e Uber Eats no Brasil, damos nosso maior passo rumo à consolidação da nossa estratégia de ser uma plataforma essencial para a rotina das pessoas, oferecendo produtos e serviços que fazem parte do dia a dia”, disse Fabio Plein, diretor-executivo do Uber Eats ao CNN Brasil Business. “Vamos avançar juntos na missão de oferecer mais comodidade e oportunidade para os brasileiros."

Além da parceria com a Cornershop, a Uber fez uma oferta na última segunda-feira (06) para comprar a também americana Postmates, em um acordo de US$ 2,65 bilhões. Atualmente, a Uber estima que irá emitir cerca de 84 milhões de ações ordinárias por 100% do patrimônio diluído da Postmates, informou a empresa em comunicado.

Antes de tentar abocanhar a empresa americana de delivery, a Uber também tentou comprar a concorrente GrubHub, mas o negócio não foi para frente - na última hora, a Grubhub aceitou uma proposta de US$ 7,3 bilhões da europeia Just Eat Takeaway. 

Efeito pandemia e aumento em delivery 

Com mais de 9.500 parceiros comerciais ativos - sem contar restaurantes, que tiveram um acréscimo de 97% desde fevereiro de 2020, o Uber Eats viu as compras de itens básicos e de conveniência aumentaram em mais de 176% desde fevereiro.

E se no ápice da companhia a Uber anunciou o desligamento de 3,7 mil funcionários, o Uber Eats tem sido a “tábua de salvação” da empresa, embora não consiga cobrir todas as despesas da companhia. 

“A pandemia acelerou os processos digitais das empresas e fez com que a gente também aumentasse o ritmo para nos adaptarmos ao novo normal”, diz Plein. “O aumento exponencial de clientes e de restaurantes na nossa base, fez com que a gente antecipasse projetos e desenvolvimentos”, afirma o executivo. 

Não à toa, desde o início da quarentena, os aplicativos de entrega obtiveram um aumento exponencial na demanda por alimentos e itens de limpeza, higiene e saúde — com crescimentos que ultrapassaram os 400%, no caso do álcool em gel, por exemplo. 

Segundo o executivo, a pandemia fez com que muitos brasileiros que ainda tinham receio de usar aplicativos para comprar, tivessem neles a única opção para consumo. “Antes, tínhamos um movimento de pessoas que usavam apps apenas para jantar, e que agora usam para lanche, compras na farmácia, lojas de conveniência”, diz. “E essa aceleração e modo de uso tende a se consolidar.” 

Prova disso é que, mesmo com a reabertura do comércio em várias localidades do Brasil, o número de pessoas aderindo ao delivery permanece alto. De acordo com o estudo Barômetro Covid-19, da Kantar, realizada entre 18 a 22 de junho, o número de pessoas que aumentaram as compras por delivery por telefone cresceu 47% em relação ao mês passado. Já pedidos por app, cresceu 48%.

Agora, a companhia que é o segundo maior player do segmento, mira em se consolidar na liderança. Como? Unindo a tecnologia e experiência de entregas do Uber como um todo, seja pelo braço de mobilidade, ou de delivery.  

Sobre o fato da Uber ainda nãos ser rentável, Plein avalia que nos últimos relatórios, a companhia já tem demonstrado que o segmento de mobilidade traz resultados positivos para a empresa. Agora, no longo prazo, a aposta é nessa construção do futuro com mais tecnologia e união entre os negócios, tornando a Uber um aplicativo que traz conveniência para o dia a dia das pessoas. “Queremos ser esse app que traz eficiência: que dá a opção de viagem de carro e a pessoa pode escolher o produto para fazer refeição”, diz.

Breque dos apps 

Embora positivo, o aumento exponencial de pedidos por delivery também acendeu um alerta para a regulamentação do trabalho dos entregadores. Na última semana, a internet e as ruas de ao menos 13 estados e o Distrito Federal foram tomados pelo protesto batizado de #BrequeDosApps. 

Motofretistas de plataformas como UberEats, Rappi, iFood, Loggi e outros, reivindicavam o tabelamento dos preços do quilômetro rodado e da taxa mínima, reajustes anuais dos valores e uma mudança no sistema de bloqueios – que, atualmente, não deixa o entregador trabalhar caso tenha uma avaliação ruim.

A categoria também cobrou das empresas uma ajuda de custo para a aquisição de equipamentos de proteção contra a Covid-19, como máscaras e luvas. As empresas, porém, afirmam que estão fornecendo os equipamentos.

Para Fábio Plein, por se tratar de uma indústria “nova”, é natural que ainda tenham pontos a serem amarrados e ajustados. Segundo o executivo, o formato de trabalho oferecido por apps de delivery tem como natureza a flexibilidade. “Esse tipo de discussão também acompanhou nosso negócio de mobilidade e foi amadurecendo conforme as regulamentações como um todo foram evoluindo”, afirma. 

Além disso, ele acrescenta que o serviço tem um perfil democrático, pois permite que as pessoas gerem renda independente da formação e da disponibilidade. 

“Notamos que em um um momento de crise, mais pessoas buscam esse tipo de oportunidade para geração de renda - seja integral ou complementar”, diz. “Estamos abertos para construir esse debate em conjunto com todos os envolvidos.”

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