Cuidar do meio ambiente pode ser bom para Bolsonaro, diz ex-presidente do BC

A fase de negação do problema, ou de minimizar a importância do compromisso, que fez o presidente neste um ano e meio de governo, pode estar no fim

Thais Herédia
Por Thais Herédia, CNN  
10 de julho de 2020 às 06:41
Vilarejo ianomâmi na floresta amazônica em Roraima: segundo Gustavo Franco, o presidente deveria entender que o assunto meio ambiente pode ser benéfico ao governo
Foto: Bruno Kelly/Reuters

A mobilização em torno do debate ambiental parece ter ganhando uma dinâmica irreversível no Brasil. Provocado pelos investidores internacionais, o governo sente aumentar a pressão por um posicionamento mais contundente na proteção à floresta amazônica e na adoção de uma política ambiental transparente e eficiente. A fase de negação do problema, ou de minimizar a importância do compromisso, que fez o presidente Jair Bolsonaro neste um ano e meio de governo, pode estar chegando ao fim.

“Esse debate nos pega num momento em que estamos descuidados desse assunto. É ruim para o Brasil. Me lembra o tempo em que Brasil não tinha grau de investimento, e o governo do Lula fingia que não sabia o que era e não dava importância. Depois que ganhamos o grau de investimento, o PT viu como era bom, descobriu a virtude dele e o que ele representa”, disse à coluna Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. 

O grau de investimento a que se refere Franco é a nota de “bom pagador” dada pelas agências de classificação de risco. O Brasil alcançou este status em 2008 mas perdeu em 2015 com a explosão dos gastos públicos do governo de Dilma Rousseff. Estamos longe ainda de recuperá-lo e ficou muito claro para o país a importância de se ter este selo, que reforça a percepção de solvência do país. 

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Agora, o carimbo é o da responsabilidade ambiental, da adoção de políticas transparentes, sustentáveis e de longo prazo. O Brasil já havia conquistado posição relevante nos fóruns e acordos internacionais para redução de emissão de gases de efeito estufa. Além de ter recuado na disposição de manter os compromissos, a administração de Bolsonaro recusou recursos externos para preservação da Amazônia. 

Na avaliação de empresários nacionais e investidores estrangeiros, o caldo entornou com a disparada do desmatamento e das queimadas ilegais dos últimos 18 meses. Por isso surgiram as manifestações diretas ao governo federal cobrando ações efetivas contra o avanço da ilegalidade e, no caso dos fundos de investimentos, ameaçando retirar dinheiro do país se não houver uma mudança na condução do tema. 

“Este assunto ganhou temperatura mais alta naquilo que tem de importância nas decisões de investidores financeiros. Estas instituições captam recursos e prometem aos clientes que vão aloca-los em empresas e países que respeitam o meio ambiente. Está mais forte em estatutos do que jamais foi no passado. Isso vai fortalecendo com o tempo e é a uma realidade”, diz o ex-presidente do BC. 

Para Gustavo Franco ainda não chegamos ao ponto de assistir a uma fuga de recursos do país. As mobilizações de cobrança dos empresários e investidores ao governo federal são uma oportunidade para assumir uma política ambiental correta com o mesmo incentivo que o grau de investimento deu no passado. 

“Ao reparar que isso dá prejuízo, isso altera os incentivos a adoção de um tipo de prática que o mundo gosta e quer agora. É do nosso interesse fazer esta mudança. Agora vivemos ainda um negacionismo para, daqui a pouco, ganhar importância”, avalia Gustavo Franco.

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