A volta dos IPOs: O que observar antes de investir em ações de empresas novatas


Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de julho de 2020 às 18:43
B3

Funcionário nos corredores da B3: empresas querem aproveitar janela para ofertas

Foto: Leonardo Benassatto/Reuters

A rápida recuperação do Ibovespa, que subiu quase 60% desde março, abriu caminho para a retomada dos IPOs (sigla em inglês para oferta pública inicial) das empresas na bolsa brasileira.

A estreia da Ambipar, uma empresa de gestão de resíduos, na B3 despertou ainda mais a atenção dos mais de 2 milhões de investidores pessoa física que estão na bolsa. As ações subiram 18% no primeiro dia na segunda-feira (13), coroando um IPO em que a demanda foi muito superior à oferta. 

A incorporadora You Inc., os grupos varejistas Soma (dono das marcas Farm e Animale) e Quero-Quero (de materiais de construção), a construtora Riva 9 (do grupo Direcional) e a empresas de serviços financeiros Boa Vista estão entre os próximos da fila dos IPOs.

Investidores sonham em fazer escolhas certeiras como a da Locaweb. A empresa de tecnologia e serviços na nuvem estreou na B3 no início de fevereiro e acumula uma valorização de 176% desde então: as ações, que foram fixadas a R$ 17,25 no IPO, fecharam a R$ 47,55 na segunda.  

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A Ambipar levantou quase R$ 1,1 bilhão com sua oferta. No início do mês, a mineradora canadense Aura havia captado R$ 785 bilhões com seu IPO na bolsa brasileira. Mas, diferentemente da empresa de resíduos, o preço da ação saiu no piso da faixa indicada no prospecto e passou a cair nos primeiros dias de negociação no pregão. Na última quarta, a queda desde a estreia estava em 8%.

O prospecto é o nome dado ao documento que toda companhia que abre o capital é obrigada a preparar e a disponibilizar no seu site e no da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado.

Mas afinal vale a pena investir em ações de empresas novatas na bolsa brasileira?

Especialistas fazem a ressalva de que o investidor pessoa física não deve entrar na onda de euforia do mercado. "O momento do mercado é positivo e a receptividade tem sido boa nas últimas ofertas, mas nem tudo vale a pena", afirma Glauco Legat, analista-chefe da Necton Corretora.

Ele faz a ressalva de que, mais do que o preço-alvo da ação definido na oferta, é fundamental analisar se a empresa é uma investimento que pode valer a pena. "É preciso estudar o prospecto com calma e buscar entender a estratégia da empresa para o crescimento", aconselha Legat.

Será uma oferta predominantemente primária ou secundária? "É melhor dar preferência para ofertas primárias, porque isso significa que o dinheiro captado será utilizado para investir em novos projetos que podem gerar valor para os acionistas", diz Paloma Brum, analista da Toro Investimentos.

No caso da oferta secundária, os recursos serão embolsados pelos acionistas que vendem os papéis.

Paloma aconselha também que o investidor analise cuidadosamente o segmento de atuação, citando que, com a pandemia, companhias com uma operação online consolidada, de tecnologia ou exportadoras conseguem preservar melhor as suas receitas do que aquelas que dependem do ciclo doméstico.

Legat sugere ainda comparar os resultados e os dados operacionais da companhia novata com os números de empresas do mesmo setor, especialmente se elas já estiverem listadas na B3. 

Lock-up

Sobre o momento de vender, o analista-chefe da Necton recomenda que se pense na ação da empresa estreantes como um investimento de longo prazo, ou seja, a ser mantida no portfólio.

Paloma, da Toro, concorda, mas diz que uma forte valorização da ação nos primeiros dias pode abrir uma janela para lucrar com o IPO, desde que não haja restrição para essa prática (a exigência de carregar o papel por um certo prazo, conhecido como lock-up, tem se tornado comum nas últimas ofertas). 

Onda pré-pandemia  

Antes da chegada da pandemia em março, 2020 prometia ser o melhor ano em número de IPOs desde 2007, quando 64 companhias abriram o capital na bolsa.

Quatro companhias estrearam na B3 nos dois primeiros meses do ano: as incorporadoras Mitre Realty e Moura Dubeaux, a empresa de tecnologia Locaweb e a Priner, de equipamentos e serviços industriais.

As ações da Mitre acumulam queda próxima a 10% desde o seu IPO no início de fevereiro, um pouco melhor do que a queda de 13% do Ibovespa neste ano.

Mais de 20 empresas também haviam iniciado o processo para a abertura de capital. Mas a pandemia interrompeu esse movimento, afastando investidores diante do cenário imprevisível.

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