Com volatilidade menor, empresas voltam a captar na bolsa após choque da Covid


Luísa Melo, do CNN Business, em São Paulo
03 de julho de 2020 às 11:25 | Atualizado 14 de julho de 2020 às 15:52
Via Varejo

 

Foto: Divulgação

Três meses após a onda de pânico trazida pelo coronavírus, empresas começam, enfim, a desengavetar os planos de captar dinheiro na bolsa. Com a redução da volatilidade, companhias listadas voltaram a fazer novas vendas de ações e já há ao menos seis possíveis ofertas públicas iniciais (IPOs) à vista. Analistas vislumbram um movimento ainda mais forte à frente, com adesão de negócios de médio porte.

Nesta quinta-feira (2), a mineradora de ouro Aura Minerals precificou sua estreia na B3. Pelo valor definido para os ativos, levantou R$ 790 milhões. As negociações dos certificados de ações listadas na bolsa do Canadá, os BDRs, começam na próxima segunda (6).

Estão no mesmo caminho as varejistas Quero-Quero e Soma, as construtoras You e Riva 9, a companhia de saneamento Ambipar e a rede farmácias Pague Menos (a última a iniciar o processo, no mês passado). Todas estão com ofertas sob análise da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado no Brasil.

Além delas, 15 empresas chegaram a entrar com o pedido para abrir o capital, mas suspenderam os procedimentos por conta da crise e ainda não decidiram retomá-los. O prazo máximo de interrupção, que era de 60 dias, foi estendido para 180 dias pela CVM em função das incertezas.

Outras, como os bancos BV e Daycoval, preferiram desistir da bolsa – por ora.

Pré-pandemia: 'o ano dos IPOs'

Antes da pandemia, a expectativa era de que 2020 seria "o ano dos IPOs". O otimismo era pautado no inédito cenário de juros baixos e inflação controlada e na esperança de que a economia finalmente começaria a deslanchar depois de três anos de crescimento fraco.

Tudo apontava para que a perspectiva se concretizasse: a atividade econômica parecia reagir, novos investidores não paravam de chegar à B3 em busca de rendimentos acima dos da renda fixa e o Ibovespa rondava os 116 mil pontos até a véspera do carnaval. Foi justamente na volta do feriado que o clima azedou. 

Até então, 9 ofertas já tinham sido feitas na bolsa, sendo 4 lançamentos (IPOs) e 5 subsequentes (follow-ons), em um total de R$ 30,95 bilhões captados. Para se ter ideia, nos dois primeiros meses de 2019, apenas dois follow-ons tinham sido realizados, levantando R$ 4,33 bilhões. Durante todo o ano passado, só ocorreram 5 IPOs.

Mas o coronavírus freou a tendência. Por conta da elevada incerteza, em março e abril, nenhuma nova operação foi feita. A retomada veio com o IPO da firma de gestão de estacionamentos Estapar, em maio, que levantou R$ 300 milhões. Outros R$ 8 bilhões foram captados desde então, em três ofertas subsequentes realizadas pela Via Varejo (que sozinha arrecadou R$ 4,45 bilhões), a Centauro e o banco BTG Pactual

Ao todo, considerado o IPO da Aura Minerals, o volume levantado na bolsa desde o início da crise chega R$ 9,09 bilhões.

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É natural que os follow-ons puxem a volta da captação em bolsa, segundo Fabio Nazari, chefe do mercado de capitais para renda variável do BTG, banco que atua na coordenação desse tipo de operação.

"Abertura de mercado é sempre assim, com as empresas listadas", diz. "Para elas é mais fácil, porque não precisam testar preço, ver aderência (dos investidores)".

Colocar ações à venda com a bolsa fraca não é interessante para nenhuma empresa. Porque quanto mais alto ela consegue precificar os ativos, mais dinheiro entra no caixa. E quanto mais otimistas os investidores estiverem, mais eles ficam dispostos a gastar.

Apesar de ainda estar longe da máxima de 120 mil pontos, marcada em janeiro, o Ibovespa também já deixou para trás a mínima do ano, de 63 mil, atingida no fim de março. Agora, opera na casa dos 96 mil pontos.

"Para [a bolsa] ir aos 60 mil pontos, muitos papéis caíram muito. Quando os 70 mil pontos voltaram, muitos já valiam o dobro do pior momento. O melhor [cenário] não vai existir tão cedo. Mas meses atrás o valuation estava em metade do que está hoje", diz Nazari. "Aí a gente começou a provocar os clientes [a captarem no mercado]".

Ele diz que, mais do que se a bolsa está subindo ou caindo, o vaivém intenso dos preços conta para que uma companhia decida lançar ações no mercado. "O que compromete a precificação não é se o mercado está no 'bull' ou 'bear', é a volatilidade. O investidor quer saber quanto está pagando", afirma.

Em meados de março, no período mais crítico da turbulência, o índice VIX, que mede a volatilidade de ativos globais, chegou a superar os 80%. Agora, está perto dos 30%. 

"Embora ainda haja incertezas sobre o que vai acontecer nos próximos meses, há menos incertezas quanto ao que vai acontecer nos próximos anos", diz Rogério Santana, diretor de Relacionamento com Clientes da B3.

"A economia ainda está sofrendo muito. Mas talvez o mercado tenha precificado um processo ainda mais severo do que o que a gente está vendo. Em alguns lugares as reaberturas começaram e as empresas estão arrumando maneiras de sobreviver", completa.

Negócios vão à bolsa para captar dinheiro quando querem reforçar o caixa, seja para enfrentar uma dificuldade ou para crescer (por meio de novas lojas ou fábricas ou aquisições), ou quando desejam trocar dívidas caras por um sócio. 

Santana, da B3, destaca que o momento é propício para fusões e aquisições. "No mundo todo, o preço dos ativos caiu 20%. Para uma empresa que estava pensando em comprar outra, está mais barato. É uma oportunidade que não acontece em todos os momentos".

Nazari, do BTG, diz que, no geral, as companhias entraram nesta crise com boa posição de caixa e endividamento controlado e que o movimento de agora está mais calcado na busca por flexibilidade no balanço, ou por uma posição mais defensiva. "Estão montando um cobertor para o inverno."

Empresas menores na bolsa

Com os juros básicos nos atuais 2,25% ao ano e as perspectivas de um juro real perto de zero, os analistas acreditam que o movimento de migração de pequenos investidores para a bolsa deve ganhar ainda mais força. E esse cenário é favorável para que empresas de menor porte também passem a captar dinheiro com a venda de ações, dizem os analistas. 

"Para o investidor profissional [como os gestores de grandes fundos] talvez não faça sentido investir em uma empresa que vai ter giro de R$ 1 milhão ou R$ 500 mil por dia. Mas a pessoa física normalmente investe R$ 5 mil, R$ 10 mil. Então, do lado da demanda, temos um ecossistema que se mostra mais receptivo a ofertas menores", afirma.  

Ele cita o bem-sucedido IPO da Priner, que captou R$ 199,99 milhões e foi chamado no mercado de "mini-oferta" como um aperitivo do que está por vir. "Vamos ver na bolsa cada vez mais empresas que anos atrás jamais imaginaríamos que abririam seu capital ".

Nazari, do BTG, concorda e afirma que companhias menores já estão sendo atraídas para a bolsa. "A gente vai mostrar coisas mais para frente. O passivo dos fundos hoje é menor, composto por mais poupança de pessoa física. Tem uma indústria que está se multiplicando, dessas novas assets com passivo mais pulverizado. Isso vai favorecer esse tipo de operação." 

José Eduardo Laloni, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), diz que há "conversas aceleradas" de empresas de menor porte com bancos de investimento para se lançarem em bolsa. 

Para ele, quanto mais empresas estiverem listadas, mais saudável é o ambiente para o investidor. "O mercado precisa de diversificação. A bolsa vai subindo e as alternativas vão ficando menores. É preciso que haja empresas novas, setores novos. Pode ser que demore, mas essa tendência de novas empresas acessarem a bolsa veio para ficar." 

Crédito privado

O juro baixo também deve impulsionar o mercado de crédito privado. Antes, as empresas eram inibidas a emitir títulos de dívida (debêntures, CRIs e CRAs) porque precisavam competir com a alta remuneração oferecida pelos títulos do governo (considerados mais seguros), que é atrelada à Selic. Agora, ficou mais barato. Em paralelo, o investidor está mais propenso a tomar riscos para ver a carteira render mais.

A dívida via mercado de capitais pode ter prazos mais longos do que os dos empréstimos bancários tradicionais e "vai ser cada vez mais uma alternativa para as empresas buscarem recursos", diz Santana, da B3.

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