A Bolsa ficou cara? Lucro projetado para 2021 sugere que nem tanto


Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo
29 de julho de 2020 às 21:42 | Atualizado 30 de julho de 2020 às 21:33

Operador durante sessão da bolsa de valores de São Paulo

Operador durante sessão da bolsa de valores de São Paulo: alta de mais de 60% desde março

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Uma pergunta ganhou espaço nas conversas de investidores nas últimas semanas: afinal, a bolsa brasileira ficou cara com a rápida valorização de mais de 60% em quatro meses?

Um levantamento recém-concluído pelo BTG Pactual oferece novos subsídios para responder a essa pergunta (é importante ressaltar que são dados adicionais para a análise, não sendo suficientes por si só). O banco levantou os múltiplos dos setores das empresas da bolsa e comparou com a média dos últimos cinco anos, dentro da chamada análise fundamentalista das ações.

Os múltiplos são indicadores que buscam sinalizar se o preço de uma ação está cara ou não. Um dos mais utilizados por analistas e investidores mede a relação do preço da ação dividido pelo lucro esperado da mesma ação em dado período. É o famoso P/L (ou P/E, price-to-earnings, em inglês). Em geral, é considerado o lucro dos 12 meses anteriores ou seguintes ao momento da análise.

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Um múltiplo hipotético de 10 vezes pode ser traduzido da seguinte forma: serão necessários dez anos de lucros para que o investidor detentor da ação recupere o preço que pagou por ela.

A equipe de research (análises) do BTG, no entanto, decidiu utilizar o lucro projetado para o ano de 2021 para tentar extrair os efeitos atípicos decorrentes da crise provocada pelo novo coronavírus. E comparou com a média dos últimos cinco anos do Ibovespa para dar uma referência.

O P/L forward (ou seja, dos lucros projetados) atual das ações na B3 está em 15,4 vezes excluindo Petrobras e Vale (para evitar distorções dado o tamanho das duas companhias). A média dos últimos cinco anos do P/E forward da bolsa é de 12,7 vezes na mesma comparação.

Ou seja, o patamar corrente de preço de negociação sinaliza que a bolsa está cara mesmo pela métrica do lucro projetado em 2021. Mas, se fosse utilizada a referência tradicional dos próximos 12 meses (metade de 2020 e metade de 2021), a diferença seria ainda maior: o P/L é de 18,8 vezes. 

A mesma lógica se aplica à bolsa com Petrobras e Vale. O P/L para os próximos meses é de 18,9 vezes, mas cai para 14,3 vezes quando se considera o lucro projetado para 2021. De todo modo, em ambos os casos o P/L está acima da média dos últimos cinco anos, que é de 11,5 vezes. 

Os múltiplos mostram uma bolsa descolada da média histórica recente. Mas o que se deve esperar agora? Para Carlos Sequeira, head de research do BTG Pactual, o P/L vai acabar convergindo para a média histórica, mas isso não necessariamente vai acontecer nos próximos meses.

"Não vejo um movimento de vendas acontecendo. A bolsa vai operar com prêmio no preço até que haja uma correção", afirma Sequeira, citando como fatores que podem precipitar a queda nas cotações uma segunda onda da pandemia que leve ao fechamento de parte da economia americana.

No cenário doméstico, a taxa Selic em nível historicamente baixo, em 2,25% ao ano, e as perspectivas de que permaneça nesse patamar até o próximo ajudam a sustentar os preços na bolsa.

Ações caras x baratas 

O levantamento do BTG Pactual revela uma disparidade enorme no P/L com lucros projetados para 2021 entre os setores. E que a maioria está sendo negociada a preços muito acima da média histórica, o que sinaliza que, por essa perspectiva, as ações estão caras ou sobrevalorizadas. 

Os setores mais caros são os de bens de capital (48,4 vezes), varejo (40,2 vezes) e saúde (37,0 vezes). Na média dos últimos cinco anos, o P/L de cada um desses três setores ficou em 26,1 vezes, 33,5 vezes e 18,9 vezes, respectivamente.

No primeiro grupo estão companhias como WEG, Randon e Marcopolo. Na média, as ações das companhias do setor subiram 78,3% desde o fim do ano passado, mesmo com a pandemia. 

No segundo segmento com múltiplos mais altos estão empresas cujas redes já tinham operação robusta no e-commerce, como o Magazine Luiza, e outras outras cujas vendas estavam amplamente concentradas em lojas físicas e que tiveram que reforçar o canal online, como a C&A. 

Na outra ponta da análise, os setores que englobam bancos, papel e celulose e mineradoras e siderúrgicas são aqueles cujas ações estão mais baratas em relação à média da bolsa.  

O P/L de bancos, por exemplo, está em 9,2 vezes considerando os lucros projetados para 2021, pouco abaixo da média de 9,8 vezes dos últimos cinco anos.

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