Empresas de tecnologia vão ser as maiores da bolsa brasileira, prevê Lemann


Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo
10 de agosto de 2020 às 14:08 | Atualizado 10 de agosto de 2020 às 19:03
O empresário Jorge Paulo Lemann, homem mais rico do Brasil

Para Jorge Paulo Lemann, empresas brasileiras de tecnologia vão ser as maiores da bolsa brasileira

Foto: Divulgação

O mundo vai mudar e temos que nos adaptar para ser mais produtivos e construtivos. Essa é a visão de um dos mais bem-sucedidos brasileiros de todos os tempos, Jorge Paulo Lemann, 80 anos, sobre o momento atual da sociedade com a pandemia causada pelo novo coronavírus.

O empreendedor falou nesta segunda-feira (10) com membros e alunos da Fundação Estudar na sua reunião anual de líderes, a qual o CNN Brasil Business teve acesso.

A Estudar é uma instituição sem fins lucrativos que se dedica a financiar estudos de brasileiros no exterior. O encontro foi realizado por meio da ferramenta de videoconferência Zoom.

Na edição deste ano, Lemann entrevistou e foi entrevistado pelo empreendedor brasileiro Henrique Dubugras, 24 anos, um dos fundadores da fintech americana Brex. A startup criada no Vale do Silício é considerada uma das mais inovadoras no segmento financeiro e, em apenas três anos, já é um unicórnio, como são conhecidas empresas novatas avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.

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O empreendedor que montou o império da maior cervejaria do mundo, a ABInBev, e que controla gigantes do setor de consumo como a Kraft Heinz e o Burger King, além das Lojas Americanas, contou como encara a nova realidade empresarial moldada pela pandemia.

"Eu gostei muito. Estava no exterior e trabalhei utilizando Zoom quase o tempo todo. Acho que não diminuiu a minha produtividade, não tive que viajar tanto nem ir a muitos jantares, como costumava fazer. As pessoas são mais objetivas nas reuniões", afirmou o empreendedor.

"Todo mundo vai trabalhar mais de casa no futuro e terá que ser mais objetivo nas reuniões."

Mas nem tudo acontece de maneira positiva no novo normal dos negócios, ressalvou o bilionário. Lemann comentou que um dos desafios que mais se impõem é o do treinamento e do ensino da cultura à distância nos programas de trainees, um dos principais pilares para as empresas controladas e administradas por ele e seus colegas de longa data, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira.

"Estando em contato diretamente é mais fácil de treinar do que à distância, principalmente pessoas que acabaram de entrar na empresa", afirmou o empreendedor.

Techs no Brasil 

Lemann disse que o domínio exercido pelas big techs (Amazon, Apple, Google e Facebook), que estão entre as empresas mais valiosas do mundo, vai se repetir em breve no Brasil. 

"As empresas de tecnologia vão ser as cinco maiores da bolsa brasileira. Temos aí o exemplo do Mercado Livre, que se tornou a maior empresa em valuation da América Latina. Vão ter outras", disse.

O empreendedor fez um paralelo com os negócios que administra, no segmento de bens de consumo. "Nós somos da época em que buscávamos operar com custos mais baixos e uma operação mais eficiente e o produto se vendia."

"Vamos ficar um pouco para trás. A Ambev já foi a maior empresa brasileira e não é mais. Mas, se somarmos os ativos que temos no exterior, vai ser superior ao que teríamos conseguido só no país", disse Lemann ao ser questionado sobre as razões da internacionalização de seus negócios.

O empreendedor disse avaliar que a era da nova economia é imperativa para os negócios. "Entramos em uma nova época digital em que o consumidor tem muita mais opção e quer inovação. E temos que nos adaptar para entendê-lo nessa nova situação, que é centrada no consumidor", disse.

Ele diz que essa transformação está acontecendo nas empresas controladas por ele, Telles e Sicupira, mas que isso leva tempo dado o tamanho que possuem.

"Ainda é bom ter gente com garra, mas as pessoas têm que estar muito mais preparadas em conhecimento de tecnologia", afirmou o empresário sobre o mercado de trabalho.

Startups no radar

Lemann contou que, junto com Telles e Sicupira, estruturaram há alguns anos, um veículo de investimento para aportar recursos em startups. E que, em meio à pandemia, eles estão avaliando de cinco a dez empresas semanalmente como potenciais candidatas. 

"Olhamos quem é o empreendedor e o que ele quer fazer realmente. Qual o lucro que ele tem, qual o sonho grande e o que ele já fez anteriormente", afirmou Lemann sobre o seu modelo de análise para avaliar se uma empresa novata merece ou não o investimento. E ele revelou ter um desafio particular com o qual precisa lidar, que é inerente ao modelo das startups de tecnologia.

"Cadê o lucro? Temos uma dificuldade enorme com essa história em que o empreendedor conta que está vendendo 20% a mais por mês, mas não tem lucro", disse o empreendedor.

Talento brasileiro

A Brex, fundada em 2017, atua na concessão de crédito para empresas novatas e de e-commerce. O seu principal produto é um cartão de crédito corporativo com um limite mais elevado para companhias sem histórico de crédito, algo que é possível graças a um avançado modelo de análise. 

Segundo Dubrugas, o engenheiro brasileiro está em nível semelhante ao do engenheiro formado nos Estados Unidos. Ele diz que um dos principais diferenciais da cultura da inovação no Vale do Silício é a troca de experiências, algo que passa a ser feito de forma remota com a pandemia. E isso abre oportunidades para que empresas brasileiras se inspirem a fazer o mesmo no país.

Ele citou Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, como a sua grande inspiração. "É sem dúvida a empresa mais bem gerida dos Estados Unidos", segundo o empreendedor.

Ele também apontou a Airbnb como outra empresa que admira e na qual busca se inspirar. "É uma empresa amada pela sociedade", explicou, fazendo um paralelo com a Uber.

"São duas empresas que enfrentam questões legais para operar, a Uber com os motoristas e o Airbnb com os aluguéis. Com a diferença de que a imagem do Airbnb é muito melhor."  

Dubugras citou as startups Wildlife, Stone e Nubank (que, segundo ele, "tem um dos melhores times de tecnologia do mundo") como empresas que observa e admira no Brasil.

E destacou a quantidade de capital e de venture capital que vem para o Brasil como ponto positivo para o surgimento de novas companhias nos próximos anos.

Amex na mira

Lemann fez uma provocação a Dubugras. "Qual o seu sonho grande?", em alusão a uma de suas expressões mais famosas, que deu nome ao livro sobre sua trajetória, a de Telles e Sicupira.

"O sonho grande evolui muito com o tempo e acreditamos que a Brex pode ser uma das maiores fintechs do mundo, substituindo bancos que ocupam esse espaço", disse Dubugras.

Ele afirmou que a aquisição da American Express, uma das maiores e mais tradicionais companhias de cartões de crédito do mundo, é um dos "sonhos grandes" da companhia.

E falou sobre os planos de abertura de capital. "Com certeza queremos ser uma empresa pública, daqui a quatro ou cinco anos. A Covid-19 atrasou em um ano esse processo", afirmou Dubugras, que fundou no Brasil a Pagar.me em 2013. A empresa de pagamentos foi adquirida em 2016 pela Stone.

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