Milionários diversificam carteira, mas com muita renda fixa e proteção, diz BNP

Queda de juros aumentou interesse de investidores de alta renda por ativos alternativos como crédito privado e títulos com prazos alongados, diz CEO de gestora

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de agosto de 2020 às 07:00
Sentkar, do BNP: "Estamos caminhando para uma variedade de produtos dentro da renda fixa"
Foto: Divulgação

A queda acentuada dos juros nos últimos anos está forçando a reformulação na carteira de todo brasileiro que tem alguma coisa aplicada no mercado financeiro, já que a velha queridinha, a renda fixa, rende hoje bem menos do que no passado recente.  

Para os investidores de altíssima renda não é diferente, mas isso não significa, necessariamente, uma fuga em massa para a bolsa de valores. 

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O interesse em ampliar a fatia em renda variável e também em reinvestir nos próprios negócios tem, sim, crescido para este público conforme os juros caem.

Mas acontece ao lado de uma procura por ativos com retornos mais altos dentro da própria renda fixa, além de uma busca maior por instrumentos de proteção, como fundos especializados e derivativos (que protegem os ativos das quedas de mercado). 

É esta a impressão geral do BNP Paribas Wealth Management, braço de gestão de patrimônio do banco francês, em relação aos investimentos dos empresários e famílias endinheiradas que tem como clientes no Brasil.  

“Estamos caminhando mais para uma variedade de produtos dentro da renda fixa”, disse ao CNN Business o CEO do BNP Paribas Wealth Management no Brasil, Richard Sentkar. “A renda fixa tem vários aspectos, não é um produto único. Mudam um pouco as opções dentro dela, com ativos mais arrojados.” 

O escritório administra hoje o patrimônio de 1.500 clientes no Brasil, com um total de R$ 20 bilhões em ativos. É uma média de R$ 13,3 milhões na conta de cada um deles. Disto, 65% segue na renda fixa, enquanto a fatia de ações está próxima dos 15%. 

De acordo com Sentkar, crédito privado, como debêntures, é um produto que tem ganhado bastante espaço nas carteiras, bem como a inclusão de títulos e fundos – ainda de renda fixa – com prazos e vencimentos mais longos.  

“No contexto de juros baixos, com títulos públicos também com rendimento baixo, os investidores estão se acostumando a estender um pouco mais a duração”, disse o executivo.

“Eles continuam com uma parte relativamente segura no portfólio, como CDBs, para manter a liquidez caso precisem para seus negócios pessoais ou empresariais, mas estão passando a considerar também prazos mais longos de investimento, para ter rendimentos melhores.”  

Outra frente que ganha atenção é a de mecanismos de proteção para o patrimônio, o que, nas carteiras privativas feitas para os investidores com grandes quantias, é possível fazer por meio de fundos especializados, multimercados e o uso de instrumentos como derivativos. São investimentos que ajudam a suavizar as oscilações de mercado. 

“O interesse em bolsa de valores e renda variável continua, mas ações não são o único jeito de fazer isso”, disse Sentkar. “Há uma parte importante dos investimentos em fundos que tenham descorrelação com a tendência econômica, para a carteira não depender apenas da variação do mercado de ações.”  

Mais renda fixa que no resto do mundo 

Apesar do movimento de busca por diversificação, os portfolios administrados no Brasil ainda destoam bastante do resto do mundo.  

Um levantamento do BNP Paribas com seus clientes de alta renda na América do Norte, Europa e Ásia mostra que a porção de renda fixa na fortuna administrada deles é de 27% (considerados os títulos de renda fixa e também o dinheiro deixado em caixa). É menos da metade do que os 65% da média da clientela brasileira. 

Ações respondem por 21%. Imóveis (14%) e empresas (por meio de private equity ou investimento anjo, 8%), além do capital alocado nos próprios negócios (21%), são alguns dos outros pedaços que alocam o patrimônio dessa turma no mundo.  

O levantamento levou em consideração 1.132 clientes de 19 países, todos donos de empresas, com patrimônio médio de US$ 16,1 milhões (R$ 90,4 milhões). 

O interesse crescente por instrumentos mais arrojados, de toda maneira, é também uma realidade no Brasil.  

“Principalmente entre os clientes de perfil moderado e arrojado, vemos uma propensão ao aumento de risco, em função da queda dos juros”, disse Sentkar, citando ações e fundos imobiliários.  

“Há um maior interesse em ativos relacionados à economia real. Muitos querem também tomar recursos não só para comprar mais ações, mas também para investir nas próprias empresas. É uma maneira de ajeitar a casa e ficar mais competitivo para o momento em que a economia retomar.”  

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