Recuperação do varejo de construção pode ser 'voo de galinha', dizem lojistas


Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
31 de agosto de 2020 às 09:29
Loja de material de construção (10.ago.2020)

Clientes em loja de material de construção, em São Paulo: auxílio emergencial foi fundamental para bons resultados, mas até quando?

Foto: CNN Brasil

Com o dinheiro do auxílio emergencial no bolso, o brasileiro está cuidando melhor da própria casa. Mas o crescimento na demanda por materiais de construção, reforma e decoração, pode ser um "voo de galinha". 

É o que acredita o superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu. De acordo com ele, e lojistas do varejo, as pessoas físicas e pequenos negócios estão criando essa demanda temporária com o dinheiro de estímulos do governo.

Antes, os maiores responsáveis pelo consumo de materiais de construção eram empreiteiras e grandes construtoras, que absorviam um volume exponencialmente maior e de forma constante.

As coisas mudaram nos últimos meses e deram um alívio para o varejo de materiais de construção. Mas isso deve ter data para acabar, segundo Juliano Ohta, presidente da Telhanorte, uma das maiores do país. A varejista, inclusive, já se prepara para uma desaceleração da demanda ainda antes do fim do ano.

"O número de clientes aumentou, mas já sentimos uma queda no valor das vendas. Essa euforia da melhoria do lar ainda deve durar mais uns três meses, mas muita gente está perdendo o emprego e a ajuda do governo não vai durar pra sempre", diz Ohta.

O crescimento das vendas por causa do auxilio emergencial criou até uma mudança no hábito de consumo. Um fator curioso, aliás. Ohta afirma que os pagamentos em dinheiro aumentaram ao mesmo tempo em que o valor médio por compra diminuiu.

“Conversando com os clientes nas nossas lojas, eles relatam que estão usando o auxílio emergencial para fazer pequenos reparos necessários na casa. Para a classe C ou D, que antes não ficava em casa, investir na estrutura é uma emergência, sim”, explica.

Na Casa do Construtor, rede especializada em aluguel de maquinário para obras e manutenção da casa, os clientes pessoa física passaram de 15% em fevereiro deste ano para 40% em maio. Além disso, houve um aumento de 55% na procura por equipamentos, sendo que 25% desse total tinha como finalidade reformas e manutenções em residências. Os outros 30% são pessoas jurídicas de pequenas e médias empresas. 

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O presidente da rede, Altino Cristofoletti, diz que pequenos empresários e consumidores aproveitaram o período de isolamento para fazer melhorias que vinham sendo adiadas.

“As pessoas passaram a dar outro grau de importância para a própria casa e, isoladas nesse ambiente, passaram a perceber possibilidades de melhora. Outro perfil foram empresas não ligadas ao setor de construção. São companhias que precisavam fazer adaptações, seja por segurança ou logística”, avalia Cristofoletti.

Mas, assim como o CEO, outros lojistas aguardam a volta das grandes obras para confiar na retomada. “O governo cumpriu a parte dele. O que sobrou [do auxílio], as pessoas usaram para trocar uma louça sanitária, uma fechadura, mexer na casa. E isso teve impacto no nosso setor”, relata o superintendente da Anamaco.

“Mas, agora, ou o governo começa a fazer obras de infraestrutura e deixa o capital externo entrar, ou o setor já vai perder esses ganhos".

Ou seja, sem obras de infraestrutura, sem muitas oportunidades de ganhos para as varejistas, que torcem por um respiro maior do auxílio emergencial. 

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