Atraso na vacinação aumenta riscos para retomada econômica no Brasil

Perspectivas mais desfavoráveis para número de óbitos pela Covid-19 aumenta riscos para a economia brasileira nos próximos meses, diz Credit Suisse

Ligia Tuon, do CNN Brasil Business
03 de janeiro de 2021 às 05:00
São Paulo estende novamente quarentena no Estado: foto de 24/03/2020

São Paulo estende novamente quarentena no estado

Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

O Brasil começa 2021 com o desafio de encaminhar uma difícil questão fiscal, em um cenário ainda cheio de incertezas em meio à escalada dos casos de contaminação de Covid-19. Ao mesmo tempo, ainda não está claro quando a população começará a ser vacinada, o que tende a elevar os custos da União.    

Esse cenário de evolução no contágio e do número de mortes pela doença aumenta os riscos para a economia brasileira nos próximos meses, destaca relatório do Credit Suisse ao qual a CNN teve acesso.

Essa avaliação considera a alta probabilidade de governos estaduais implementarem novas restrições à mobilidade, o que impacta substancialmente a atividade econômica e o emprego.

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"Restrições de mobilidade prolongada tenderão a pressionar o governo federal e o Congresso a ampliar gastos fiscais de forma a minimizar os efeitos sobre a arrecadação tributária estadual e municipal e sobre o emprego e a renda", afirma documento assinado pela economista-chefe do banco, Solange Srour, e pelo economista Lucas Vilela.

No caso de São Paulo, por exemplo, o governador João Doria decidiu impedir a abertura dos serviços não essenciais entre 25 a 27 de dezembro e entre 1º a 3 de janeiro, para evitar aglomerações numa das épocas mais rentáveis do ano para o comércio. O estado é o mais populoso do país e contribui com a maior parte do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

Enquanto a solução para a rápida disseminação do vírus não chega, novas restrições provavelmente terão efeitos não apenas no curto prazo — com menor crescimento econômico, maior desemprego e maior endividamento —, mas também no médio prazo, adiando a discussão de reformas importantes para os próximos anos, destaca o Credit.

Entre elas, destacam-se a PEC emergencial, para que o país cumpra as regras fiscais em 2021 e 2022, e a reforma administrativa, para garantir a estabilidade da dívida brasileira nos próximos dez anos.

Vale lembrar que o Brasil encerrou 2020 com a relação entre dívida e PIB perto dos 100%, maior nível entre as nações emergentes. Além disso, destaca o Credit, o país viu encurtar o vencimento de suas dívidas de curto prazo, mais altas agora devido ao risco embutido. Ao mesmo tempo, o chamado "colchão de financiamento" do Tesouro Nacional no mercado é suficiente para apenas quatro meses.

Vacinar sai mais barato

Além de gerar custos adicionais ao cofres públicos, o atraso na vacinação deixa vulneráveis milhões de brasileiros cujo sustento vem da circulação de pessoas nas ruas. Para proteger essas pessoas, a União desembolsou impressionantes R$ 300 bilhões durante os nove meses de pandemia com os pagamentos do auxílio emergencial. Já a campanha de vacinação em massa contra a Covid-19 deve custar R$ 20 bilhões, segundo previsão do governo. 
  
Esse valor foi liberado por Medida Provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro em 17 de dezembro para a compra de vacinas. De acordo com o governo federal, está em negociação a compra de 460,9 milhões de doses. Entre elas, estão as fabricadas pela Fiocruz/Astrazeneca, cujo custo esperado até o fim do ano é de R$ 1,9 bilhão. 

Está incluso nesse plano também a participação do governo na Covax Facility, aliança mundial de vacinas para acelerar o desenvolvimento e a fabricação do antídoto, com custo esperado de R$ 2,5 bilhões até o fim do ano. 

Até mesmo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse recentemente que vacinar a população sairia mais barato do que prorrogar os programas emergenciais do governo:

"Há uma corrida na disputa por vacinas. Quem terá a vacina primeiro e como poderá ser feita a logística. Isso muda todos os dias. Eu acho que o investimento na vacina agora é mais barato do que prolongar transferências diretas. Todos estão concentrados nas vacinas, nós e o mercado também", disse em evento GZERO Latam Forum 2020, promovido pela B3 e pela Eurasia. 

Ainda não há, porém, registro de alguma vacina no Brasil, enquando mais de 40 países já começaram a imunizar sua população. 

Imunização só no fim do ano

A imunização da população não deverá acontecer tão cedo. O Credit estima que o Brasil só terá 70% de sua população imunizada — o que caracterizaria a chamada imunização de rebanho — apenas no quarto trimstre.  

O banco considera a vacinação da população com as vacinas AstraZeneca, Coronavac e Pfizer e usa como base para sua estimativa três cenários de disseminação da doença: a manutenção da média atual de casos (35 mil casos por dia); metade da média atual de casos (18 mil casos / dia) e o dobro da média atual de casos (70 mil casos / dia). Em todos eles, o a imunidade de rebanho só é atingida no fim do ano.