Classe média deixa 70% do dinheiro na poupança; ricos deixam 0,4% 

Enquanto clientes polpudos têm investimentos espalhados por uma série de aplicações diferentes, correntista médio ainda deixa quase tudo que tem na renda fixa

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
05 de fevereiro de 2021 às 05:00
Moedas
Poupança remunerou só 2,3% em 2020, perdeu para a inflação e, na prática, foi negativa
Foto: Nick Fewings/Unsplash

Há um consenso de que o pequeno poupador está, aos poucos, se familiarizando com conceitos básicos de educação financeira e investimentos, historicamente distantes para a maioria dos brasileiros. A entrada recente de um batalhão de pessoas na bolsa de valores, a briga cada vez mais acirrada entre bancos e corretoras pelos novos clientes e mesmo o surgimento de influencers da periferia especializados em dicas de finanças são alguns indícios disso.

Mas a distância entre o investidor pequeno e os que sempre estiveram no mercado –os milionários, notoriamente– ainda é gigante. E não só no tamanho da conta. Enquanto os clientes polpudos têm os investimentos espalhados por uma série de aplicações diferentes, com uma fatia de 60% entre ações e fundos multimercados, o correntista médio ainda deixa quase tudo que tem na renda fixa, sendo 70% só na poupança. Pouco menos de 2% do dinheiro deles está em ações. Os dados são da Associação Brasileira dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

A poupança é uma das aplicações mais seguras e práticas, mas também a que tem um dos piores rendimentos da renda fixa. Em 2020, ela remunerou apenas 2,3%, ficou (bem) para trás da inflação e, na prática, fez o investidor perder dinheiro. Por essas razões, a indicação uníssona dos especialistas é fugir dela sempre que der. Eles próprios, porém, ressalvam que nem sempre dá. 

“Para quem só tem o dinheiro que pode precisar no dia seguinte, não tem muito para onde ir além dela”, diz o planejador financeiro Jayme Carvalho, conselheiro da Planejar, associação que certifica e reúne os planejadores.

"O cliente de menor renda não tem cultura de investir, mas também não tem muito para investir, não sobra. Conseguir se organizar e se planejar é um começo. Quem já está numa situação mais confortável, aí sim, estará perdendo dinheiro ao deixar na poupança."

Jayme Carvalho, conselheiro da Planejar

Média de R$ 12 mil investidos

De acordo com dados divulgados nesta quinta-feira (4) pela Anbima, havia no país em dezembro uma montanha de R$ 3,7 trilhões investidos em bancos e corretoras no país.

Eles estão espalhados por poupança, títulos de renda fixa, ações, fundos de investimentos e outras opções. Para se ter uma ideia, é o equivalente à metade do PIB do país. Os valores consideram apenas investimentos; depósitos em conta-corrente, por exemplo, não entram.

Um terço disso (R$ 1,2 trilhão) está no chamado varejo tradicional, segmento mais básico dos bancos voltado para os clientes de renda média e baixa, com salário em geral de até R$ 5.000 por mês. De acordo com os números da Anbima, é uma turma que reúne 97 milhões de contas e que tem, em média, R$ 12 mil investidos nelas.

Em dezembro, 70% do dinheiro deles estava na poupança. Mais 25% foram deixados em outras aplicações de renda fixa, como títulos públicos, CDBs e fundos, e só os 5% restantes foram para categorias diferentes de investimentos, como ações e fundos multimercados.

Mais ricos têm R$ 12,3 milhões

Na outra ponta, os clientes do chamado private, o segmento mais VIP das instituições financeiras, deixaram apenas 0,4% de seus R$ 1,5 trilhão totais na poupança. O private é para onde vão as famílias mais endinheiradas, onde têm acesso a assessoria personalizada e produtos exclusivos. 

Trata-se de um grupo pequeno, que responde por 120 mil contas, ou 0,1% do total. Mas 40% de todos os R$ 3,7 trilhões de investimentos mapeados pela Anbima estão com eles. Em dezembro, cada conta private do país tinha, em média, R$ 12,3 milhões aplicados –cada pessoa pode ter mais de uma conta. 

No total, a renda fixa responde por 26% do bolo de investimentos dos mais endinheirados, enquanto a renda variável e os fundos multimercados já levam hoje 29% e 31%, respectivamente.

“Quando a pessoa já formou uma reserva de emergência, daí sim ela pode diversificar”, disse Carvalho, da Planejar. “Para isso, é importante conhecer não só o seu perfil de risco, mas também seus objetivos e prazos. Se é um investimento de médio e longo prazo, faz sentido correr um pouco mais de risco.”

No meio do caminho

Se o varejo tradicional parece estar consolidando suas primeiras reservas, e o nicho private já superou essa fase há muitos milhões de reais, há no meio um terceiro segmento que começa também a diversificar mais suas aplicações

Trata-se do chamado varejo de alta renda, um degrau intermediário dos bancos onde ficam, no geral, os clientes que têm ao menos R$ 100 mil em aplicações. Os recortes dos segmentos são definidos pela instituição e podem variar de uma para outra. 

Eles tinha, em dezembro, média de R$ 125 mil aplicados na conta. Cerca de 70% disso ainda está todo na renda fixa, ante os 95% do varejo de baixo e os 26% dos milionários de cima. A fatia deles só na poupança era, em média, de 13,5%. As ações ficaram com 14% e os fundos multimercados, com 12%.