Boom de IPOs está criando nova leva de milionários no Brasil

O capital levantado com as vendas de ações vira dinheiro no caixa da empresa ou na mão do sócio, o que tem criado uma nova geração de investidores de alta renda

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
22 de fevereiro de 2021 às 05:00
Beny Podlubny, chefe global da XP Private
Beny Podlubny, chefe global da XP Private
Foto: Divulgação

Mesmo em um dos piores anos da história da economia brasileira, a XP Private, braço de clientes milionários do grupo XP, não tem do que reclamar. O número de clientes do segmento criado em 2015 saltou 30% em 2020 para um total de 6 mil contas. 

Já o dinheiro total aplicado nessas contas mais que dobrou, saindo de R$ 91 bilhões no fim de 2019 para R$ 228 bilhões ao fim de 2020.  

No resto do mercado não é diferente (apesar de o crescimento ter sido menos acentuado): de acordo com dados da Anbima, a associação do mercado de capitais, o volume de capital investido nos segmentos de altíssima renda dos bancos e corretoras do país avançou 13% em 2020, para R$ 1,5 trilhão, o equivalente a algo como 20% do PIB do Brasil.

Os segmentos chamados de “private” são uma espécie de ala VIP das instituições financeiras, com serviços e produtos exclusivos, para onde vão os clientes ultra-ricos, com pelo menos R$ 3 milhões em investimentos. Na XP, o piso de entrada para o braço da altíssima renda é de R$ 10 milhões, mas a média atual na conta de cada um dos clientes está em R$ 38 milhões.

Para o chefe global da XP Private, Beny Podlubny, os números vultuosos de crescimento têm uma razão especialmente particular: a explosão de aberturas de capital e ofertas de ações na B3, a bolsa de valores brasileira. 

"Há uma parte grande do nosso crescimento que é rouba-monte, clientes de outras instituição que trouxemos para cá. Mas há uma segunda parte que é dinheiro novo, gerado basicamente por esse volume enorme de IPOs que está acontecendo. Eles geram liquidez, geram riqueza."

Beny Podlubny, chefe global da XP Private

Dinheiro na mão

IPO é a sigla para oferta pública inicial de ações, o processo que é feito pela empresa quando ela lista suas ações na bolsa de valores. Na prática, é a empresa ou um de seus sócios colocando um pedaço de sua participação à venda para outros investidores no mercado. 

A mesma lógica acontece com os “follow ons”, que são as ofertas subsequentes: a diferença para o IPO é que, neste caso, a venda de ações não é inicial, ou seja, ela é feita por uma empresa que já tem ações listadas e decide ofertar mais uma leva. 

O capital levantado vira dinheiro que vai para o bolso dos controladores (que possivelmente se tornam milionários) e para o caixa da empresa, o que desencadeia uma sucessão de investimentos e aquisições. Isto, por sua vez, vai gerar outros milionários.

"É dinheiro que entra no caixa da empresa ou no bolso do empresário. E todo dia tem um novo IPO acontecendo. O que significa que todo dia tem dezenas de novos clientes private para entrar no mercado. É uma nova geração inteira de investidores. É um ciclo virtuoso de geração de liquidez."

Beny Podlubny, da XP Private


A XP, por exemplo, ajudou 35 empresas a estruturarem suas ofertas iniciais ou subsequentes de ação no ano passado, o que já deixa a porta semi-aberta para o cliente futuro.

“Os nosso banqueiros passam seis meses do ano junto com aquele empresário, dia após dia, ajudando a montar o IPO dele”, conta o chefe da XP Private. “Quando esse empresário recebe o dinheiro, ele já nos conhece, é natural que nos procure para investir o que ganhou.”

Explosão de IPOs

Em 2020, a B3 registrou 28 IPOs e 25 ofertas subsequentes, num total de 53 operações -- maior número desde 2007. Para se ter uma ideia, a bolsa de valores inteira tem cerca de 350 companhias listadas. Nesses menos de dois meses de 2021, mais 15 novas empresas já abriram seu capital. 

Por trás da disparada, estão os juros mais baixos da história do país, que destroçaram a comodidade da renda fixa, e um aumento enorme do número de investidores na bolsa de valores e em outros tipos de investimentos ligados à economia real.

Esse ambiente acaba atraindo mais empresas, inclusive de tamanhos menores, para a bolsa de valores e outros tipos de emissões de títulos por meio do mercado financeiro. Para elas, é uma forma alternativa de se financiar, sem precisar pegar dinheiro emprestado em um banco, por exemplo. 

"Em 2021 esse movimento continua. Há quase que um IPO por dia acontecendo, e ainda há muita liquidez nova a ser gerada."

Beny Podlubny, da XP Private