O que é IPO e como funciona o processo para as empresas que querem vender ações


Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo
09 de setembro de 2020 às 07:30 | Atualizado 09 de setembro de 2020 às 07:32
Vista de cerimônia de estreia de negociação de ações na B

Vista de cerimônia de estreia de negociação de ações na B3 (22/12/2017)

Foto: REUTERS/Paulo Whitaker

Wine, Havan, Enjoei, Quero-Quero (LJQQ3) e Pague Menos (PGMN3). É bem provável que você tenha lido sobre o IPO (ou planos para) dessas empresas nas últimas semanas. A sigla em inglês foi usada à exaustão no noticiário econômico à medida que mais de cinquenta empresas esperam para abrir capital na bolsa. 

Nesse movimento, as empresas precisam definir o preço das ações, cumprir uma série de requisitos impostos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e, depois, podem fazer outras ofertas de ações. 

A seguir, o CNN Brasil Business explica tudo sobre os IPOs e o processo para que eles aconteçam. 

O que é IPO?

As ações são pequenas frações das empresas. Ou seja, comprá-las significa ser dono de uma parte da companhia e até receber uma parte de seus ganhos, através dos dividendos. Para que tudo isso aconteça, a empresa precisa fazer um IPO.

As ofertas públicas iniciais são mais conhecidas por sua sigla em inglês para Initial Public Offering (oferta inicial pública, em tradução livre). Elas acontecem quando uma empresa decide abrir capital em uma bolsa de valores e vender pequenas partes de si para arrecadar algum dinheiro com isso. 

O nome já diz muito sobre o que é um IPO. É a primeira vez que uma empresa oferece suas ações publicamente, para quem quiser comprar.

Veja, a seguir, alguns exemplos recentes de IPOs ou pedidos para abertura de capital: 
Wine, startup de assinatura de vinhos, pede registro para IPO
Havan, de Luciano Hang, registra pedido de IPO com carta inusitada a investidor
Petz pode levantar até R$ 3,4 bilhões em IPO
IPO da varejista Quero-Quero movimenta R$ 2,2 bilhões

Você pode estar se perguntando o motivo de especificar que é a primeira vez que aquela empresa oferece ações ao mercado. É possível que haja uma segunda vez? Uma terceira? Sim. E vamos explicar como. 

Tipos de oferta

O “inicial” não está no termo à toa. Uma vez que a empresa já abriu capital, ela pode fazer mais ofertas de ações. Isso significa que a companhia vende mais um pedaço de si, geralmente para fazer algum tipo de investimento. 

Um exemplo recente é a Lojas Americanas (LAME3), que anunciou uma oferta de ações para investir na AME Digital, que é uma espécie de carteira digital. 

Este é um exemplo de oferta primária de ações. É quando a empresa emite novas ações para colocá-las à venda no mercado. Neste caso, a empresa é a vendedora das ações.No caso das Lojas Americanas, elas está desmembrando uma parte de sua operação. 

Na oferta pública secundária, as ações já existem e são vendidas por cotistas ou acionistas da empresa. Ou seja, o lucro da venda não vai para a empresa. Um exemplo desse movimento é a oferta de ações da XP, que teve como uma das vendedoras a General Atlantic.

Quem pode fazer um IPO?

Ofertar ações na B3 não é tão simples. É preciso seguir algumas regras impostas pela CVM. É por isso que você verá expressões como “fila do IPO”. Isso acontece porque a CVM precisa analisar a estrutura da empresa que pediu um registro para ofertar ações. 

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Na análise, a autarquia vai avaliar, entre outras coisas, aspectos de divulgação de informações financeiras, política de destinação de resultados, incluindo regras, periodicidade e eventuais restrições para a distribuição de dividendos e até fatores de risco que possam afetar a decisão de investimento na empresa. 

A CVM fica de olho nas empresas de capital aberto. Recentemente, a Via Varejo (VVAR3) divulgou dados de vendas sem auditar os números. Isso fez as ações da varejista disparar e a CVM abrir uma investigação sobre o caso. 

Como as ações são precificadas?

O valor da ação não deve ser tão grande ao ponto de tornar o lote mínimo de negociação muito caro, nem tão pequeno ao ponto de fazer com que as menores oscilações de preço representem variações percentuais relevantes. Por isso, a precificação é muito importante. 

Primeiro, a empresa define quanto quer levantar no IPO e o tamanho da parcela de si que está disposta a vender. A partir daí, divide essa parcela em milhões de frações – as ações – e define, com a ajuda de uma série de estudos, uma faixa de preço para os papéis. 

Depois, o mercado ajuda a empresa a encontrar a melhor precificação. Se a faixa indicativa vai de R$ 10 a R$ 12 e os investidores indicam que a demanda por aquelas ações será pequena, o IPO é precificado perto do piso dessa faixa (R$ 10), ou até abaixo dele. 

Recentemente, a Pague Menos precificou seus papéis em R$ 8,50, abaixo da faixa indicativa de preço, que era de R$ 10,22. Mas, no fim, a demanda pelo papel foi grande e no dia da estreia da Pague Menos na bolsa o valor dos papéis subiu e chegou a R$ 10,30.

Também pode acontecer de a empresa ter um valor alvo para arrecadação no IPO, mas a precificação ser incompatível com as expectativas do mercado. A Havan, por exemplo, quer arrecadar R$ 5 bilhões com a abertura de capital ao colocar no mercado 5% de suas ações. Isso colocaria a empresa em um valor de mercado de R$ 100 bilhões, patamar alcançado apenas pela Magazine Luiza no varejo brasileiro. 

Desdobramento de ações

Quando o valor de uma ação sobe muito, as empresas começam a pensar em desdobrá-la para que ela fique mais acessível. O movimento também é conhecido pelo termo em inglês “split”. 

O desdobramento é quando as empresas quebram as ações em partes ainda menores. Uma ação precificada a R$ 100, por exemplo, pode ser desdobrada em cinco que valem R$ 20. Assim, os papéis ficam mais acessíveis. 

Dois desdobramentos nos Estados Unidos movimentaram o mercado na semana passada. Apple e Tesla viram suas ações dispararem após desdobrá-las. Isso porque o valor dos papéis subiu muito desde o início da pandemia e estava caro demais comprar um lote de ações dessas empresa.

Grupamento de ações

Quando uma ação está barata demais, as empresas podem fazer o movimento contrário ao desdobramento de ações e juntar vários papéis para formar um só. 

Isso facilita o fluxo dos negócios, fazendo com que as ações tenham oscilações menores, afinal, uma ação de R$ 1 que sobe a R$ 1,20 teve valorização de 20%, mas um ganho real de apenas R$ 0,20.

Outra vantagem do grupamento de ações é a elegibilidade ao índice Ibovespa, que exige um valor mínimo para as ações entrarem no índice (além de uma representatividade alta no volume de negociações diárias). 

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