Os planos mais ousados de Bill Gates –e como eles deram certo (ou errado)

As ideias de Gates não ficam somente no plano dos negócios, passando muitas vezes por filantropia, saúde e meio ambiente. E nem sempre dão tão certo

Tamires Vitorio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de fevereiro de 2021 às 05:00
Bill Gates
Foto: Ramin Talaie / Correspondente / Getty Images

Se tem uma coisa que o bilionário e fundador da Microsoft Bill Gates não faz é jogar em terrenos seguros. O terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 135 bilhões, prefere apostar no que parece impossível a ficar em sua zona de conforto —é o caso do seu recente plano de "escurecer o sol" para acabar com o aquecimento global

As ideias de Gates não ficam somente no plano dos negócios, passando, muitas vezes, por filantropia, saúde e meio ambiente. E nem sempre dão tão certo quanto ele esperava (como o quase-morto Windows Phone, lançado em 2010, e o infame Windows Vista). Em outras vezes, a aposta é certeira, garantindo ainda mais dinheiro e notoriedade a ele.

O que deu certo 

O fenômeno Microsoft 

Em 1975, mais precisamente no dia 4 de abril, Gates se juntou ao seu amigo de infância Paul Allen para fundar a Microsoft, em uma época na qual a maioria dos americanos (e do mundo) ainda usava máquinas de escrever. A ideia inicial do projeto era produzir um software para o antigo computador pessoal Altair 8800. Para investir na companhia, Gates largou a faculdade e Allen se demitiu de seu emprego como desenvolvedor. 

O sistema operacional   

Três anos depois de sua fundação, as vendas da Microsoft passaram da casa de US$ 1 milhão. Em 1979, há 42 anos, a companhia licenciou seu sistema operacional, MS-DOS, para a IBM, que, graças a Gates e Allen, lançou seu primeiro computador para uso pessoal — em 1981, o sistema operacional estreou com um sucesso estrondoso e diversas companhias passaram a licenciá-lo.

Mesmo com a saída de Allen da companhia para tratar um câncer, a Microsoft continuou a inovar no setor da tecnologia. 
  
O Windows, lançado em 1985, tinha uma interface gráfica que incluía diversas ferramentas até então desconhecidas.  

Em 1986, a companhia se tornou pública, com ações valendo US$ 21, o que levou-a a conseguir um total de US$ 61 milhões. No final da década de 1980, a empresa já era uma das maiores no setor de softwares para computadores. 

Em 1995, foi lançado o Windows 95, e 7 milhões de cópias foram vendidas nas primeiras cinco semanas. Foi também naquele ano que surgiu o navegador da companhia: o Internet Explorer.  

Daí para frente, a Microsoft lançou outros sistemas operacionais mais aprimorados (e outros nem tanto). Em 2000, Gates sai da presidência da companhia e, 20 anos depois, deixa também seu espaço no conselho de administração para “focar em seus projetos filantrópicos” e na instituição que comanda ao lado da esposa, a Bill & Melinda Gates Foundation.  

Segundo o site StatCounter, o sistema operacional da Microsoft é o mais utilizado do mundo, com uma fatia de 76,26% do mercado de computadores — a Apple vem em segundo lugar, representando 16,91% dos sistemas mais usados, com o OS X, enquanto o Chrome OS e o Linux têm uma fatia de apenas 1,91%. Uma liderança difícil de bater.  

"Todos os dias nos perguntamos: como posso fazer meus clientes felizes? Como podemos estar à frente em matéria de inovação nesta indústria? Porque, se nós não o fazemos, alguém mais o fará."

Bill Gates

A filantropia em foco 

Por meio de sua instituição, o casal Gates realizou uma série de projetos sociais importantes ao longo dos anos. Com um apoio agressivo para programas de vacinação em países subdesenvolvidos, o bilionário conseguiu salvar a vida de 670 mil crianças.  

Em meio à pandemia do novo coronavírus, Gates investiu cerca de US$ 1,75 bilhão para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos contra a doença.  

Antes disso, em 1999, a fundação investiu US$ 750 milhões na Aliança Global Para Vacinação e Imunização (Gavi, na sigla em inglês) para a criação de uma vacina contra o rotavírus e outras doenças. 

O que deu errado 

A saga do Windows Phone 

Quando o Google adquiriu o Android, em 2005, por US$ 50 milhões, o foco inicial era vencer os esforços iniciais da Microsoft ao lançar o Windows Mobile. Não demorou para que o sistema operacional do Google derrotasse o dispositivo com teclado da companhia fundada por Gates.

À época, os boatos apontavam o então CEO da Microsoft, Steve Ballmer, como o culpado pelo erro que levou ao fim da empreitada móvel da companhia. Quando o iPhone foi lançado, Ballmer riu e definiu o smartphone como “o telefone mais caro do mundo, incapaz de atrair clientes empresariais porque não tem teclado”, ignorando de bate-pronto uma novidade que se tornaria tendência.  

Mas, na verdade, a culpa pelo fracasso do Windows Mobile não foi de Ballmer, mas sim de Gates. "Não há dúvidas de que o processo antitruste me distraiu e foi ruim para a Microsoft. Se não fosse isso, teríamos nos concentrado mais na criação do sistema operacional para telefones. E, em vez de usar o Android hoje, você estaria usando o Windows Mobile", disse Bill gates ao jornal "The New York Times" em 2019.   

Para ele, a falta de foco foi o que deixou o celular da companhia fadado ao fracasso. "Se não fosse pelo caso antitruste... estávamos tão perto, eu estava muito distraído. Eu estraguei tudo por causa da distração”, continuou. A primeira tentativa da Microsoft de entrar no mercado móvel, então, falhou em 2008. 
  
A empresa não desistiu. Em 2010 chegou ao mercado o celular da Microsoft, carinhosamente batizado de Windows Phone.

No primeiro trimestre de 2011, segundo a companhia de dados Statista, o telefone tinha uma presença de mercado de 2,6% —no quarto trimestre de 2016, pouco tempo antes de a Microsoft decretar a morte do celular, a fatia de mercado dele era de apenas 0,3%. 

A companhia, desacostumada com fracassos estrondosos, optou por descontinuar a venda dos dispositivos entre os anos de 2017 e 2018.  

"Em três anos, todos os produtos da minha companhia estarão obsoletos. A única pergunta é se somos nós mesmos os que vão deixá-los obsoletos ou se outra pessoa fará isso primeiro"

Bill Gates

 A culpa pelo Windows Vista  

Ballmer, antes de assumir o cargo de CEO, foi padrinho do casamento de Gates em 1994. Mas tudo começou a ruir a partir de 2001, quando ambos tiveram de sentir na pele o ditado popular: amigos, amigos, negócios à parte. 

Uma disputa entre os dois executivos levou ao problema conhecido como projeto Longhorn, ou Windows Vista. Segundo Ballmer, a culpa do sistema problemático foi de Gates, que teria dado a ideia do que hoje é considerado “o pior sistema operacional da história da Microsoft” e fez com que Ballmer se dedicasse totalmente à tecnologia por seis anos, deixando de lado todo o braço móvel da companhia.  

Segundo usuários do Windows Vista, o maior problema era o controle da conta do usuário, desenvolvido por causa de um problema no Windows XP, antecessor do Vista, que fazia com que a pessoa tivesse de confirmar toda vez, como administrador, se permitia que determinado app fosse utilizado. A confirmação era considerada “opressora” pelos usuários. Além disso, o Vista rodava muito lentamente em máquinas mais baratas.