O que esperar da temporada de balanços do 2º trimestre nos EUA e no Brasil

O que já costuma ser um mês importante ganha contornos ainda mais relevantes por conta do momento extremamente otimista do mercado

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo*
13 de julho de 2021 às 04:30
Touro de Wall Street é visto no centro financeiro de Nova York
Foto: REUTERS/Brendan McDermid

Começa nesta terça-feira (13), em Wall Street, a temporada de divulgação de resultados corporativos do segundo trimestre de 2021. E, o que já costuma ser um mês super importante para o mercado, ganha contornos ainda mais relevantes por conta do momento extremamente otimista, com índices avançando e IPOs jorrando.

O índice Dow Jones, por exemplo, fechou a segunda-feira (12) renovando seu recorde histórico, liderado pelos ganhos da Disney e dos grandes bancos Goldman Sachs e JPMorgan Chase. S&P 500 e Nasdaq também têm atropelado recordes e subiram cerca de 5% cada um desde o início de maio.

E a temporada de divulgação começa justamente pelos bancões. Os gigantes Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, BlackRock e Morgan Stanley estão prontos para divulgar seus últimos resultados nesta semana, assim como outras grandes companhias como Pepsi, Delta e UnitedHealth. As Big Techs concentram suas divulgações nas últimas duas semanas do mês.

"Essa temporada de balanços deve ser marcada pela reabertura da economia americana. Com grande parte da população já vacinada e o arrefecimento da pandemia no país, veremos os primeiros resultados de todo o planejamento que as companhias fizeram para essa retomada", diz Rodrigo Lima, analista de investimentos da Stake.

"Bancos já revisaram dividendos para cima, e o varejo, a julgar pelos dados prévios, deve vir forte. A maior surpresa virá talvez dos setores de turismo e lazer, que devem mostrar um grande aumento de demanda vindo de uma população que passou quase um ano inteiro trancada em casa ansiosa pelas férias de verão."

Ou seja, os ganhos das empresas devem se recuperar acentuadamente em comparação com o segundo trimestre de 2020, quando grande parte do mundo estava paralisado pela pandemia. Isso faz com que a base de comparação seja baixa. De acordo com dados da FactSet Research, os lucros do S&P 500 devem subir 64% em relação ao mesmo período do ano anterior.

"Acreditamos que os resultados deste trimestre possam ter impactos positivos e negativos. Primeiro, porque os dados serão comparados com uma base financeira bem menor do mesmo período do ano passado, o mercado espera resultados muito bons", afirma Guilherme Zanin, estrategista da Avenue.

"Mas também nos preocupamos um pouco com o nível de otimismo da maioria dos analistas. Tivemos um primeiro trimestre muito forte e pode até ser que esse segundo trimestre ainda reflita esse otimismo, mas o temor é que as empresas mudem o guidance e vejam que esse crescimento talvez tenha sido um pouco elevado demais."

O analista dá o exemplo da economia chinesa que, depois de demonstrar recuperação pujante no pós-covid, hoje tem um cenário de desaceleração, e isso poderia ocorrer nos EUA no terceiro trimestre. Então, o temor tem muito mais a ver com as expectativas extremamente otimistas de Wall Street do que com os resultados das empresas.

Nessa linha, um relatório do Bank of America lista "três C's" que devem dominar as discussões sobre os resultados. O banco afirma que o Capex (investimento) das empresas permaneceu morno no segundo trimestre, mas enxerga sinais de recuperação iminente e espera que a modalidade comande a próxima etapa da recuperação econômica. 

Diz ainda que a recente desaceleração da China gerou preocupações sobre o crescimento global, como aponta o relatório China Economic Watch, e espera que as empresas falem sobre as condições de negócios na China. Além disso, um aumento na transmissão da variante Delta da Covid-19 também representa riscos para o crescimento global.

E os resultados ainda podem fazer preço? Adriano Cantreva, sócio e CIO da Portofino Multi Family Office, acredita que não. "Estamos otimistas com os resultados que as empresas vão apresentar, mas acreditamos que isso não deve mexer muito nos índices, já que muito deste crescimento já está precificado." 

Inflação

Um dos principais temores de Wall Street na primeira metade do ano, os riscos inflacionários atrelados à recuperação econômica parecem estar perdendo espaço nas calls dos investidores. "Há cerca de três meses, este era o grande tema do mercado, mas agora já vemos a curva de juros arrefecer", diz Zanin.

Para o Bank of America, apesar de alguns sinais de redução da inflação transitória, a pressão inflacionária subjacente permanece, principalmente nos salários, e pode pesar nas margens dos setores de mão de obra intensiva. Mas, até então, a relação tem sido positiva para os ganhos, com preços e crescimento de volume unitário excedendo os custos.

No Brasil

Por aqui, as divulgações de resultados começam no dia 15, com a Renova, mas esquentam mesmo na última semana do mês, com Carrefour no dia 27, Vale no dia 28 e Petrobras no pregão seguinte. 

"Apesar do juro mais alto e do câmbio mais baixo, é preciso destacar, ainda, que a inflação medida tanto pelo IPCA quanto pelo IGP-M continuou forte no 2T21. Portanto, há de se esperar uma natural elevação nominal em receitas e em custo pelas empresas", diz o analista e fundador da Suno, Tiago Reis, em relatório. 

Além disso, o mercado nacional também olha para um fluxo entrante na B3. Uma "nova safra" de oferta de ações se iniciou nesta segunda-feira (12), com um movimento previsto de mais de R$ 9 bilhões somente nesta semana e potencial para alcançar um novo recorde ao longo dos próximos meses, segundo os bancos responsáveis por estruturar as operações.

Considerando todas as 16 ofertas que estão protocoladas, a possibilidade seria de uma "janela" de R$ 45 bilhões, valor superior ao período anterior, que já foi recorde, com R$ 33 bilhões.

A rede de academias Smart Fit, que abre a semana com seu IPO de até R$ 3 bilhões, tem atraído demanda suficiente para mais de dez vezes a oferta, de acordo com fontes. A precificação acontece hoje, e a tese da retomada têm atraído investidores que olham como espelho o desempenho de ações do segmento de academias nos EUA, onde a vacinação e flexibilização estão aceleradas.

De setores mais tradicionais, mas que também miram histórias focadas na retomada, mais especificamente a econômica, estão as ofertas da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), nesta terça (13) e da InterCement, segunda maior produtora de cimentos do país, na quarta-feira (14). A expectativa é de que movimentem cerca de R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões, respectivamente.

*Com informações do CNN Business e do Estadão Conteúdo