Após IPO, GetNinjas quer investir para se tornar 'Mercado Livre' dos serviços

Expoente da 'gig economy', empresa buscar escalar operação para aumentar margens; BTG recomenda compra dos papéis

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de julho de 2021 às 04:30

Apesar de o mercado alardear que a janela de ofertas de ações (IPO, na sigla em inglês) está aberta na bolsa de valores, não é tão fácil assim encontrar o momento certo para a fazer a listagem de uma empresa. Prova disso é o GetNinjas, companhia voltada para o setor de serviços que estreou em 17 de maio na B3.

O preço por ação saiu a R$ 20, abaixo da faixa indicativa definida pelos coordenadores, que ia de R$ 24,90 a R$ 33,50 por papel. Assim, a operação movimentou cerca de R$ 550 milhões.

À época, ações de tech sofriam globalmente, depois de acumular ganhos estratosféricos no ano anterior, com o fantasma da inflação nos Estados Unidos. O racional era que, caso a inflação e os juros subissem, as empresas que queimam caixa hoje para lucrar no futuro pagariam taxas maiores sobre seus lucros no futuro.

Além disso, os papéis do setor que abriram capital no B3 desde o final do ano passado, como Bemobi, Enjoei e Mosaico, demonstram certa dificuldade para engrenar (com Locaweb e Méliuz se mostrando exceções positivas).

Mas, com um mercado endereçável enorme e ancoragem de fundos gigantes do mercado como Verde, Miles e Indie Capital, a empresa comandada por Eduardo L'Hotellier conseguiu concluir o processo. 

"Enfrentamos uma janela complicada, seria mais fácil se tivesse sido duas semanas antes ou duas semanas depois. Mas estávamos certos que conseguiríamos, já que tínhamos boa ancoragem", diz L'Hotellier em entrevista ao CNN Brasil Business.

"E, além do setor de tecnologia estar pouco representado na bolsa nacional, também sabemos do enorme potencial do nosso mercado específico. Temos míseros 0,1% de market share, e o objetivo é se tornar uma Amazon, um Mercado Livre do ramo de serviços." 

Agora, a empresa espera ter um respiro para investir com força, sem que a pressão por resultados seja imediata. Nessa linha, o executivo afirma que, nos últimos anos, o mercado vem aprendendo a lidar com empresas da nova economia, que têm um tempo diferente de retorno das mais tradicionais.

"O mercado já entendeu que as empresas de tecnologia podem valer a pena mesmo que o resultado não seja imediato. Nosso Capex [investimento] é para melhorar o site, investir em software, melhorar a base de usuários. Muda o contábil, mas o racional é o mesmo no longo prazo", afirma.

"Agora vamos acelerar nosso ritmo de crescimento. Podemos investir para colher daqui seis meses, um ano." A empresa teve prejuízo de R$ 5,5 milhões no primeiro trimestre, revertendo o lucro de R$ 222 mil registrado no mesmo período de 2020. O resultado foi afetado pelo crescimento das despesas operacionais e administrativas.

Modelo de negócio

Para explicar o aumento das despesas, vale contextualizar o negócio como um todo. O GetNinjas é um expoente da "gig economy" (assim como Uber, Airbnb) e essencialmente um marketplace de serviços, ou uma grande página de classificados digital. 

AIi, os cerca de 2,1 milhões de prestadores (faxineira, pedreira, professora, tradutora) cadastrados na plataforma "disputam" para realizar os mais de 500 tipos de serviço oferecidos aos clientes. 

Somente em 2020, foram 4 milhões de pedidos realizados na plataforma. A partir daí, os prestadores de serviços pagam para visualizar todos os detalhes do trabalho (o core business da empresa) e enviar orçamentos ao requerente, que negocia com os postulantes e escolhe quem contratar.

Ou seja, é preciso que o número de prestadores de serviços (chamados de PROs) e de clientes cresça para que o negócio continue escalando. E, para que isso aconteça, a companhia tem investido pesado em marketing, até mesmo fora do ambiente digital nos últimos meses. 

Resultado disso: no primeiro trimestre de 2021, houve um aumento de 165% no número de profissionais cadastrados no site em relação ao quarto trimestre de 2020. Para isso, as despesas comerciais avançaram 257% no mesmo intervalo. 

"Como somos um marketplace, precisamos ter um balanço na entrada de profissionais e clientes, e estamos focados nisso agora. O cliente sempre vai procurar o melhor preço, mais disponibilidade, qualidade, segurança. E o profissional, não importa a categoria, entra no app focado em aumentar clientela e renda", diz.

Nessa linha, a companhia já foi criticada pela forma como estruturou este modelo. Há duas queixas trabalhistas envolvidas que aparecem no Reclame Aqui e em lojas de aplicativos: os colaboradores pagarem para abrir os anúncios sem garantia de que conseguirão o serviço; e precisarem entrar num leilão "de quem aceita receber menos" para conseguir o trabalho.

"O nosso modelo é zero predatório, já que o profissional escolhe como quer trabalhar, por quanto e quando, o que também não caracteriza nenhuma relação trabalhista. É semelhante à forma com que o Google cobra seus anunciantes. Mas estamos trabalhando outros serviços em paralelo para complementar a operação", diz.

Avenidas de crescimento

O que nos traz para o futuro da empresa. Com os R$ 550 milhões levantados no IPO, o GetNinjas pretende investir orgânica e inorganicamente para acelerar a operação. Ou seja, comprar concorrentes ou empresas que ampliem ou complementem o negócio atual. No entanto, L'Hotellier não informa que tipo de empresas estão no radar.

A marca conta atualmente com: a Academia Ninja, que oferece capacitação gratuita de negócios aos profissionais cadastrados; e a GetNinjas Go, que oferece inicialmente serviços digitais focados nas verticais de design, tecnologia e marketing.

O GN Go funciona numa lógica mais parecida com Uber ou com a empresa norte-americana TaskRabbit, em que serviços pré-estabelecidos possuem uma precificação em tempo real. A partir dos resultados colhidos, o executivo espera expandir a modalidade para outras frentes. 

Há ainda uma parceria com o Banco PAN, colocando a startup ninja no inescapável meio de pagamentos. Em formato de revenue share, a ideia é oferecer cada vez mais serviços aos prestadores, como maquininha, cartão de crédito, empréstimo. "Temos muitos desbancarizados, a oportunidade é enorme."

Recomendação

O BTG começou a cobertura da empresa com viés extremamente positivo. Segundo o banco, o preço-alvo das ações para os próximos 12 meses é de R$ 40, um salto de praticamente 100% em relação aos R$ 20,72 que os papéis da empresa valiam durante o pregão do dia 13 de julho.

A recomendação se baseia em três pontos, além da forte exposição ao ambiente digital: amplo portfólio de serviços, modelo "pay-per-lead" e oportunidades com a GetNinjas Go e com a plataforma de serviços financeiros.