Barril a US$ 100 abre oportunidades ao Brasil, diz entidade do setor de óleo e gás

Especialistas advertem, no entanto, para os efeitos do preço do barril sobre os combustíveis e outros derivados, pesando nos custos das famílias e de todo o setor produtivo

Cotação do barril de petróleo chegou a passar dos US$ 120 após invasão à Ucrânia
Cotação do barril de petróleo chegou a passar dos US$ 120 após invasão à Ucrânia Foto: Instagram/ Reprodução

Juliana EliasJoão Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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A cotação do petróleo na casa dos US$ 100, o que não se via desde 2014, traz oportunidades para um país que, como o Brasil, se tornou um grande produtor e também exportador da commodity ao longo da última década. Segundo a diretora-executiva corporativa do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Fernanda Delgado, as produtoras de petróleo devem ser beneficiadas como um todo pelo desequilíbrio no mercado, com a Rússia perdendo espaço como fornecedora devido a sanções pela guerra com a Ucrânia.

“Isso abre a possibilidade de importar de outro fornecedor”, diz. “Pode reativar Venezuela, reativar Irã, e abre também possibilidade para o Brasil, um mercado já consolidado, não é adormecido como os outros dois, pode ser um supridor de petróleo considerando esse momento inicial”, avalia Delgado.

Nesse cenário, o Brasil pode ser beneficiado com um aumento de demanda e ganho de fatia no mercado internacional, incentivando a produção no país e aumentando os lucros das empresas.

O professor da Unesp e analista da Levante, Flávio Conde, divide os efeitos da guerra sobre o setor de petróleo e gás no Brasil em dois momentos: antes e depois do anúncio da Petrobras de reajuste nos preços dos combustíveis, na quinta-feira (10).

Antes do reajuste, o segmento mais beneficiado era o de produtoras de petróleo bruto que vendem diretamente no preço do mercado internacional. É o caso da PetroRio e da 3R Petroleum, menos beneficiada por ter menos poços de extração.

No caso delas, o lucro é diretamente ligado ao preço do petróleo. Se ele sobe, como ocorreu de janeiro para cá, o faturamento avança também.

A situação é diferente para a Petrobras. Segundo Conde, a empresa só ganha quando faz o reajuste no preço dos combustíveis nas refinarias, evitando prejuízos quando compra o petróleo a um preço maior no exterior do que o praticado no mercado interno.

“Antes do reajuste, eu calculava um prejuízo de R$ 12 bilhões no primeiro trimestre com essa diferença. Era um gasto adicional para não repassar preços”, diz.

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Em média, os reajustes da Petrobras têm demorado entre 50 e 60 dias, um tempo que o analista considera razoável em condições normais do mercado, mas não na atual, de alta brusca da commodity.

Com a redução da defasagem em relação ao exterior, indo de em torno de 25% para 4%, é agora que a estatal deve começar a ver os ganhos.

Já nas estimativas de Décio Oddone, ex-presidente da ANP e atual presidente da petroleira Enauta, os prejuízos para o país com um petróleo mais caro são cerca de três vezes maiores que os ganhos. Para ele, porém, o cenário atual já é um avanço em relação a um passado não muito distante, quando o país era ainda completamente dependente das importações.

“Para cada aumento de US$ 1 no valor do barril de petróleo, o Brasil tem um aumento da ordem de R$ 1 bilhão com arrecadação, mas o impacto dos aumentos dos principais derivados é da ordem de R$ 3 bilhões a mais em custos para a sociedade”, disse.

Isso acontece, explica, porque, embora tenha atingido a autossuficiência no petróleo bruto e se tornado exportador, o Brasil ainda depende da importação de derivados como os combustíveis, para complementar o consumo nacional.

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“Ainda é uma conta deficitária, mas já são recursos que ajudam a compensar parte dos aumentos. Antes, o Brasil só perdia. Nos anos 80, quando ainda éramos grandes importadores, uma crise de petróleo era uma crise dupla: além dos aumentos de preços, ainda tínhamos uma crise de dívida externa”, acrescenta Oddone.

David Zylbersztajn, ex-diretor da ANP, reforça que os efeitos negativos de um petróleo tão alto podem ser maiores do que os benefícios dos ganhos.

“No balanço, está sendo ruim para o mundo todo e não vai ser diferente para o Brasil”, disse Zylbersztajn, que também é professor da PUC-Rio. “Para a Petrobras, barril alto é bom negócio, mas é negativo para quem precisa comprar. Petróleo é insumo para muita coisa, de transporte rodoviário e aviação até o botijão de gás. Não vai ter jeito, tudo vai ficar mais caro.”

Já o pesquisador do Centro de Estudos e Regulação em Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ceri), o economista Diogo Lisbona, observa que “com mais vendas, há maior arrecadação de royalties, participações especiais e de impostos para os governos”.

“A Petrobras também pode renovar seu lucro recorde, o que amplia o pagamento de dividendos”, acrescenta, lembrando que a União continua sendo o principal acionista da petroleira e dividendos mais gordos significam uma injeção de bilhões de reais diretamente nos cofres do Tesouro Nacional.

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Retomada da economia na pandemia

No Brasil, como em outros produtores, os efeitos da disparada do petróleo já foram percebidos em 2021, com a demanda aquecida pela retomada das atividades após um período de restrições impostas pela pandemia de covid-19. Por aqui, o país bateu no ano passado recorde de receita com exportações de petróleo. Foram US$ 30,6 bilhões com as vendas externas do produto, mesmo a produção tendo ficado 3,5% menor em relação ao ano anterior, de acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O valor, inédito, representou um aumento de 56% sobre 2020 e de 27% sobre 2019, antes dos efeitos recessivos do primeiro ano da pandemia.

A Petrobras também registrou em 2021 o maior lucro de sua história –foram R$ 106 bilhões, 1.400% mais que em 2020. O valor ajudou a garantir a seus acionistas o recorde de R$ 101,4 bilhões em dividendos, sendo R$ 37,3 bilhões só para o caixa da União.

 

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