Clube de assinatura de livros surfa na pandemia, e número de clientes salta 75%

Além do crescimento em número de assinantes, o clube viu sua receita aumentar de R$ 34 milhões em 2019 para R$ 43 milhões no ano passado

Foto: TAG Livros/Instagram/Reprodução

Tamires Vitorio, do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Uma vez por mês, quem assina a TAG Livros recebe em sua casa uma caixa com um livro, uma revista falando sobre o tema principal da obra e um mimo —um presente que varia mensalmente e vai de porta-copos a sementes de plantas.  

Os associados (como são chamados os assinantes) podem optar por receber livros escolhidos por grandes personalidades, como os autores Luis Fernando Veríssimo e Chimamanda Ngozi Adichie, ou por receber um produto inédito, lançado em primeira mão para eles. Há, ainda, a opção de assinar ambas as modalidades. 

O clube de assinatura fundado em 2014 passou por períodos complicados até se tornar o que é hoje. Durante seu primeiro ano, o negócio parecia fadado ao fracasso, com editoras e investidores passando longe e usando a falta de leitura no Brasil como principal justificativa.  

Sem investimento externo, os fundadores da companhia injetaram R$ 100 mil no primeiro ano, somados aos R$ 30 mil investidos para o pontapé inicial. E o fracasso não veio. 

“Fizemos tudo com sangue, suor e lágrimas. Felizmente as coisas se encaixaram em 2015, e em 2016 tivemos nosso ano de consolidação, indo de 2.000 para 10 mil associados”, diz Gustavo Lembert, cofundador e CEO do clube de leitura.

Foi uma jornada difícil, mas que nos enche de orgulho. Nossa missão é tornar a literatura um assunto de papo de bar no Brasil.

Gustavo Lembert, cofundador e CEO da TAG Livros

 

A TAG cresceu mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus. De janeiro de 2020 até o momento, o número de associados aumentou 75% —saltando de 40 mil para 70 mil.  

A receita, que em 2019 foi de R$ 34 milhões, aumentou para R$ 43 milhões no ano passado. A expectativa é que 2021 acabe com um total de R$ 63 milhões, impulsionado principalmente pelo e-commerce, que traz edições diferenciadas de livros, além de dar a opção para que os usuários (assinantes ou não) comprem os mimos entregues pela empresa.  

A experiência oferecida para os leitores, para Lembert, impactou diretamente na quantidade de assinantes e na receita da empresa.

As pessoas precisam de apoio, ainda mais na situação que estamos vivendo, e, querendo ou não, chegar um kit que é feito com tanto carinho e que trata de temas sensíveis reforça a conexão com os associados.

Gustavo Lembert, cofundador e CEO da TAG Livros

 

Clubes de assinatura em alta

A TAG não foi o único clube de assinaturas beneficiado no ano passado. Em 2020, o setor cresceu 60% quando comparado a 2019, com uma média de 605 novos assinantes diários, segundo a empresa de tecnologia especializada na oferta de soluções para e-commerce Betalabs.  

O segmento de livros é o que mais ganha o bolso do consumidor, representando 27% do total dos clubes. Em seguida, aparecem as categorias bebidas, com 18%, alimentos, com 17%, cuidados pessoais, com 12% e pet, com 11%.  

Os clubes de assinatura têm um modelo de negócio que se adequou perfeitamente à realidade imposta pela pandemia. A pessoa consegue receber seus produtos preferidos no conforto de sua casa, sem se expor em aglomerações de supermercados, e com toda a facilidade que a internet oferece.

Luan Gabellini, sócio-diretor da Betalabs

  

Aposta em novo nicho

Foi de olho na vontade de receber mais itens em casa que, em agosto do ano passado, a TAG avançou também para outros territórios. Em agosto do ano passado, foi lançada a Grow, um clube de assinaturas com foco em capacitação profissional, que entrega mensalmente livros sobre carreira e negócios, entre outros temas relacionados.  

O clube com foco na vida profissional tem 2.500 assinantes até o momento. “Temos clientes que vão desde empresários com empresas de capital aberto, até enfermeiros que querem ter uma capacitação maior em gestão de negócios”, diz Lembert.  

Para isso, segundo o fundador, é preciso “ir com calma” e testar quais livros são os preferidos dos clientes. “Queremos acertar a comunicação e o produto. Optamos por uma marca separada para criar essa missão de capacitação, algo mais independente e separado da TAG. Queríamos dar uma repaginada para fazer uma comunicação diferente”, afirma.

Para abril, um spoiler: os assinantes receberão um livro inédito no Brasil que fala sobre o Instagram.  

Planos de expansão adiados

A ideia era também avançar geograficamente, abrindo uma livraria física e chegando a outros países da América Latina, como Colômbia — o que foi frustrado por conta da pandemia.

Esse cenário de incerteza nos tirou os planos de abertura em outros países no curto prazo, e já estávamos bem avançados para começar a expansão. Com a Covid-19, ela não deve acontecer nos próximos dois, três anos. Depois disso, quem sabe?

Gustavo Lembert, cofundador e CEO da TAG Livros

  

O foco agora, segundo Lembert, é fortalecer os clubes vigentes e avaliar se o possível sucesso da Grow indica um apetite dos leitores por clubes mais nichados, como de livros de mistério ou clássicos.  

Para Lembert, o modelo de assinaturas é algo que “veio para ficar”, e não somente quando o assunto são os livros. “Quem assinava, há alguns anos, o Disney+, a Netflix, o Spotify? Quando começamos o nosso clube, a assinatura era totalmente associada a jornais e revistas, e hoje assinamos praticamente tudo o que consumimos”, afirma.

Mesmo assim, existe uma preocupação: até onde os clubes de assinatura literários podem crescer no Brasil? Somente no ano passado, o país perdeu 4,6 milhões de leitores, segundo a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural. Cerca de 100,1 milhões de brasileiros têm o hábito de leitura, o que representa 52% da população total. Em média, os brasileiros leem 4,2 livros por pessoa.  

O clube de assinaturas de livros, que é algo mais nichado, tem tudo para continuar crescendo, mas tenho dúvidas, dadas as questões mercadológicas do Brasil, até onde podemos ir. Nós da TAG achamos importante diversificar porque ainda não somos um país leitor, e a literatura é sempre um desafio.

Gustavo Lembert, cofundador e CEO da TAG Livros

“Mesmo se crescermos muito, eu não apostaria que as livrarias vão desaparecer ou que o e-commerce vai quebrar, os clubes são apenas uma nova forma de consumir, complementar.” 

Em um cenário tão incerto, fica a dica: esperar pelo próximo capítulo. 

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