Com 3º tri, analistas veem alta do PIB mais perto de 4% no ano e 2022 “estagnado”

Segundo especialistas, efeitos da alta da inflação e dos juros, com incerteza fiscal, afetam economia

Cenário já é de estagflação para alguns economistas
Cenário já é de estagflação para alguns economistas Getty Images

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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A queda de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no terceiro trimestre aponta um cenário de crescimento em 2021 mais próximo de 4% do que de 5%, segundo especialistas consultados pelo CNN Brasil Business nesta quinta-feira (2).

O resultado no último trimestre caracterizou uma recessão técnica, com dois trimestres seguidos de recuo, e foi impactado principalmente pela queda do agronegócio, de 8%, mas os dados de serviços e indústria também não foram animadores, e indicam um quadro de desaceleração econômica em meio a uma alta da inflação e da taxa de juros.

Além de reduzir as expectativas para 2021, aproximando a expectativa de crescimento mais para 4% do que 5%, o resultado do terceiro trimestre também aponta para um ano de 2022 mais estagnado, com crescimento próximo a 0%. Há, ainda, um risco de o país estar na chamada estagflação, combinação de inflação alta com uma economia sem crescimento.

Resultado do terceiro trimestre

Sérgio Vale, sócio da MB Associados, afirma que a queda de 0,1% foi um “resultado esperado”, e aponta que a economia brasileira está passando por uma estagnação, sem conseguir manter o movimento de recuperação dos efeitos da pandemia.

A análise é semelhante à da professora Juliana Inhasz, do Insper, que cita um dinamismo econômico muito baixo nos últimos meses, “apesar de um aquecimento no emprego com vagas temporárias no fim do ano”.

A grande dificuldade, segundo a professora, tem sido retomar a atividade econômica, o que ocorre devido à alta da inflação e a consequente elevação da taxa de juros para conter o movimento. “Isso impacta muito negativamente no investimento e consumo, com um custo de produção super elevado, o que dificulta que os produtores retomem o nível de produtividade”.

O grande “vilão” para o resultado do terceiro trimestre foi o agronegócio, que caiu 8%. Vale afirma que a queda está ligada principalmente aos efeitos da crise hídrica no país, a maior em 90 anos, que afetou a produção. A expectativa, segundo ele, é de resultados melhores já no quarto trimestre, com um alívio das condições climáticas.

Inhasz afirma, ainda, que “os custos de produção estão muito elevados, o transporte mais caro por conta dos combustíveis, energia elétrica mais cara”, o que dificulta a produção no setor. Para ela, o dólar valorizado estimula as exportações, mas a retomada econômica global retoma uma concorrência que o Brasil enfrenta em alguns produtos ligados ao agronegócio.

Vale diz ainda que os resultados de outros dois setores da economia, de serviços e indústria, apontam uma continuidade da desaceleração notada no segundo trimestre. “É um efeito da inflação em um primeiro momento e agora dos juros impactando com mais intensidade”.

O setor de serviços, que corresponde a cerca de 70% do PIB, chegou a subir 1,1%, enquanto a indústria estagnou a 0%, o que para o economista “é um ponto claro que indústria e serviços estão desacelerando mais em um momento em que não deveriam estar, estamos vendo números negativos em outubro e novembro”.

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro e pesquisadora da Economia Aplicada do FGV IBRE, avalia que o resultado de serviços é positivo, mas não tanto quanto poderia ser. “Não é que a economia esteja indo bem, ela está normalizando com a reabertura, mas era para ser mais forte”.

Inflação e taxa de juros com certeza impactam, a demanda por serviços cresceu e ajudou a manter o consumo, mas tivemos uma queda expressiva na demanda por bens duráveis e não duráveis, alimentação, como explica esses dados? Inflação. Foi muito alta no período

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro e pesquisadora da Economia Aplicada do FGV IBRE

Um dos principais componentes do setor de serviços, o comércio, caiu 0,4% no trimestre. “Ele perdeu fôlego em relação a 2020, ano em que teve o auxílio emergencial, e agora o processo inflacionário piorou tudo, a inflação tira a renda das pessoas, e devemos continuar vendo isso”, afirma Vale.

Inhasz associa a alta no trimestre à volta da circulação de pessoas com o avanço da vacinação, mas afirma que “é uma alta pequena, pouco expressiva, pensando o quanto decresceu nos últimos tempos, ainda pede bastante cuidado”.

A professora diz que o resultado está ligado a problemas agravados pela pandemia, mas também a uma “raiz estrutural”. “A inflação vem de elementos dentro e fora do nosso controle. Há o descontrole fiscal, o risco político, a dívida pública elevada, isso joga o câmbio para cima, a inflação sobe você precisa subir juros para conter, mas isso prejudica o consumo”.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, afirma que a economia “está desacelerando fortemente”, mas a composição do crescimento está melhor que o esperado. Ele cita um investimento que continua crescendo, o que é importante para o crescimento a longo prazo. A queda, porém, ficou abaixo da expectativa, de alta de 0,1%.

Participação de setores no PIB
Participação de setores no PIB / CNN

Perspectivas

Matos afirma que um elemento que surpreendeu no resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi a revisão do PIB de 2020 para cima, junto com o do crescimento do agronegócio no período, de 2% para 3,8%. Outra surpresa foi a queda do agronegócio no trimestre, maior que o esperado.

“Há uma incerteza quanto ao agronegócio no curto prazo. Mas para 2022 é ele que vai segurar o PIB”, diz. Segundo ela, a queda no terceiro trimestre veio em linha com o esperado, mas a revisão tornou a base de comparação para o PIB de 2021 maior, e por isso a expectativa é de alta de 4,6% no ano, não mais de 4,8%, com o agronegócio podendo cair em relação a 2020.

Já o PIB do quarto trimestre deve subir 0,6%, apoiado por uma melhora nos números do agronegócio e uma continuidade da reabertura do setor de serviços, mas com chances da indústria ter dados negativos.

Para 2022, Matos afirma que o chamado PIB cíclico, que combina atividades que dependem do poder de compra das famílias, deve vir negativo pela combinação de inflação e juros altos.

Já setores mais imunes à política monetária, caso do agronegócio, devem ter resultados positivos, junto com uma normalização dos serviços. Com isso, a expectativa é de alta de 0,7% no ano.

Vale afirma que “a economia está enfraquecendo, é verdade que há o fator específico do agronegócio por questões climáticas, mas é um setor da economia, não importa que a queda foi por isso. Há uma tendência de desaceleração mais concreta em investimentos e estagnação na indústria e serviços”.

Ele aposta em uma alta de 4,5% do PIB em 2021, com uma expectativa de estagnação em 2022 e uma leve alta de 0,1% no PIB do quarto trimestre com a recuperação do agronegócio.

Juliana Inhasz diz que o PIB do quarto trimestre “ainda deve andar de lado, no máximo com crescimento econômico pequeno, próximo a zero”.

Para ela, 2021 deve se consolidar como um ano em que a economia não cresceu em termos efetivos, mesmo com um PIB positivo devido à “base de comparação ruim”. A professora afirma que é possível que o valor fique próximo a 5%, mas é mais provável que ele fique na casa dos 4%.

Histórico de recessões no Brasil
Histórico de recessões no Brasil / CNN

Já sobre 2022, a combinação de incertezas quanto à pandemia e às eleições, e o quadro inflacionário, devem fazer com que o PIB “não cresça em 2022, se crescer, vai ser próximo a zero”.

André Perfeito, economista da Necton, também revisou sua previsão para o PIB em 2021 após o resultado trimestral. “Atualmente projetamos alta de 4,8%, mas dado que já há evidências que o 4º trimestre deve permanecer frágil com alta dos juros e resultados não muito animadores do comércio, provavelmente o PIB estará mais próximo de 4,3%”.

Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos, afirma que a “derrapagem” no terceiro trimestre faz com que o PIB possa “apresentar crescimento mais próximo a 4,5% em 2021, abaixo dos 5% de alta previstos em nosso cenário atualmente”. Ela diz, ainda, que “não devemos esperar crescimento, ao menos elevado, em 2022”.

A Genial Investimentos também reduziu a expectativa para o PIB de 2021 em uma revisão preliminar, mas com números um pouco superiores. Ao invés de 5%, a previsão agora é de crescimento de 4,9% no ano.

Estagflação?

A recessão técnica com a queda do PIB no segundo e terceiro trimestres de 2021, assim como dados negativos em setores importantes, em especial o de serviços, fazem com que alguns apontem que o Brasil está em um cenário de estagflação. O termo caracteriza uma economia estagnada, que cresce pouco ou nada, mas com inflação alta.

“Estamos vivendo um cenário de estagflação, desde o segundo trimestre, cresceu e depois estagnou. É uma recessão técnica, mas é um valor baixo para ser recessão”, diz Matos.

A pesquisadora da FGV afirma que a estagnação é “estranha”. “Temos setores indo bem, com resultados favoráveis, com espaço ainda para normalização no setor de serviços, mas não está sendo suficiente para tirar do quadro de estagnação pensando em produção também”.

Vale afirma que o resultado trimestral “confirma o cenário de estagflação. Tem uma recuperação em relação a 2020, mas na margem a economia está parada, já estamos passando por isso”.

Já Juliana Inhasz afirma que “os dados apontam que estamos em uma estagflação, mas acho que é cedo para bater o martelo. Temos que entender como o ano de 2021 vai fechar e qual vai ser a condução para a política econômica em 2022”.

“Pode sim ser o primeiro sinal desse triste caminho, porque ela é muito ruim para a economia, o momento pode sim caracterizar o início da estagflação, certeza devemos ter só aqui a um ou dois trimestres, para ver se o cenário persiste ou é pontual”, diz.

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